Capítulo XVIII

Tristis est anima mea usque ad mortem – “A minha alma está numa tristeza mortal” (Mt 26, 38)

Começa aqui o cruento curso da paixão do nosso divino Salvador; agora é que nós vamos ver este bom Mestre vitima de anil e mil tormentos por nosso amor.

Depois de haver instituído o sacramento da Eucaristia, depois de haver dado aos seus apóstolos as ultimas instruções, Jesus, a quem agora neste mundo só restava sofrer e morrer, “foi, como costumava, para a outra banda do Ribeiro de Cedron, ao monte das Oliveiras, a um lugar chamado Getsemani, onde havia um horto no qual entrou ele e seus discípulos”. Como chegava o momento do combate, quis para nossa instrução preparar-se para ele com a oração.

“Disse, pois, a seus discípulos: Assentai-vos aqui, enquanto eu vou acolá e oro ; orai também vós para que não entreis em tentação. E levou consigo Pedro, Thiago e João”

Mas mal chegou ao lugar mais retirado do horto, “começou a ter pavor, e a angustiar-se em extremo”, e esta angustia foi tanto além, que ele, que nunca se queixou de nada, ele que tanto ansiava sofrer, julgou dever dizer a seus discípulos:

“A minha alma acha-se numa tristeza mortal”…

Depois de lhes haver feito esta confidencia, deixou-os, adiantou-se um pouco, e se põe pela segunda vez a orar. Mas ai! Sua tristeza, seus temores, suas agonias iam sempre em aumento, e tão violentos foram esses combates que teve de sustentar, que “um suor de sangue correu de todo o seu corpo”. Dir-se-ia que a divindade o abandonara: assim é que a violência de sua tristeza e de seus temores o fez cair em uma agonia mortal.

Mas não fostes vós, Senhor, que aos vossos mártires destes essa tão grande alegria nos sofrimentos que os fazia encarar com desprezo os tormentos e a mesma morte? Santa Agueda caminhava para o cárcere e para a morte como se fosse para um festim de casamento. São Tiburcio caminhava sobre os carvões como sobre flores. Santo André bem não avistara ainda a cruz que devia ser o instrumento do seu suplício, num excesso de consolação e alegria prorrompe nestas palavras:

“Ó Cruz! Cruz honrada e consagrada pelo corpo adorável do meu salvador! ó boa e preciosa cruz! Tu há tanto tempo por mim desejada, tu a quem tão ardentemente amei, tão continuadamente procurei, finalmente sempre te achei! satisfeitos estão meus votos! A ti eu venho inundado de alegria e viva confiança; oh! Tira-me deste desgraçado mundo e restitui-me a meu querido mestre Jesus Cristo e de braços abertos me receba, pois por ti foi que me remiu”

Como ao cabo de dois dias em que ainda estava vivo o quisessem tirar da cruz, exclamou:

“Não permitais, Senhor, que daqui me despreguem, nem que eu receba a humilhação de morrer fora da cruz”

Em martírio era São Vicente atormentado no cavalete, dilacerado com unhas de ferro, queimado com laminas de fogo; e no meio de
tantos tormentos tal era a firmeza com que ao tirano falava, que, como refere Santo Agostinho, um parecia ser Vicente que sofria, outro o que falava. Enquanto São Lourenço ardia estendido em grelhas, mais potente era para consolar sua alma, diz São Leão, o fogo divino, que o exterior para consumir seu corpo. E assim dizia ao tirano:

“Se quiseres, podes comer a minha carne, já está assada, pega e come”

Eis, ó Jesus meu, como com a doçura do vosso amor vós sabeis fortificar os mártires no meio dos seus combates, e para vós, para vós só fraqueza e temores! aos vossos servos dais uma alegria assim no meio dos seus tormentos, e vós nos vossos só tendes por quinhão uma tal tristeza?

— Ah! Filho meu, se eu chorei, se tremi, se me vi comprimido, de tão violenta tristeza no jardim das Oliveiras, foi por amor de ti e para tua consolação. Se tão vivo terror me causou a vista da morte ignominiosa que me esperava, é porque quis mostrar-te que havia tomado sobre mim todas as fraquezas dos homens, e que para mim como por eles tinha a morte seus horrores. Mas ai! Muitos outros motivos de tristeza tive eu para estar triste até à morte. Em primeiro lugar vi-me sobrecarregado com os pecados de todos os homens. Oh! Quem poderá dizer o numero destes pecados! E eu via-os todos, todos distintamente; nem um só me escapava. Conhecia claramente toda a sua malignidade, sabia que injuria fazem a Deus e que horror lhe inspiram. E com este enorme peso de todos os pecados que se cometeram e hão de cmmetter é que eu apareci diante de meu Pai! A confusão que experimentei foi tão grande e a dor que de tantos pecados concebi tão excessiva, que para eu não morrer foi necessário um milagre, da minha onipotência. Se tu, meu filho, compreenderas a santidade de Deus e a fealdade do pecado, já não te espantarias das minhas tristezas e conhecerias como foi possível que do meu corpo emanasse uma abundante fonte de sangue.

— Então, Senhor, também eu contribui por minhas iniquidades a aumentar vossa tristeza? Carregastes também com o peso dos meus pecados?

— Sim, meu filho, esse prazer que tu tanto desejavas, tanto procuravas, e por infelicidade achaste nos pecados da vida passada, é o que penetrou minha alma duma dor mortal, é o que me causou este suor de sangue, é o que me reduziu a esta cruel agonia. E que, meu filho, quem agora te suplica sou eu, eu, o teu Deus e teu irmão; poderás amar ainda o prazer? E procurarás renovar mais ainda as minhas dores?

— Ai! Senhor, eu me lanço aos vossos pés, confuso, humilhado e aniquilado; confesso-vos a minha ingratidão e perfídia; concedei-me o perdão. Ah! foram os meus malditos pecados os que, cada um em particular, oprimiram o vosso coração de angustia e tristeza. Esta é a recompensa que dei ao amor que me testemunhastes morrendo por mim?

Ó meu Deus, fazei-me participar dessa dor que no jardim das Oliveiras sentistes por meus pecados, afim de que toda a minha vida esta dor me conserve na compunção. Meu doce Redentor! possa eu por meu pesar e minha dor consolar-vos para o futuro tanto quanto até ao presente vos afligi! De todo o meu coração me arrependo de vos haver preferido miseráveis satisfações; arrependo-me e vos amo mais que toda qualquer outra coisa. Sim, amo-vos de todo o meu coração, de toda a minha alma: mas ainda não é assas. Dai-me, pois, o amor que de mim desejais; todos os dias de mais em mais me atrai ao vosso amor pelo odor dos vossos perfumes, que são as doces inspirações da vossa graça e fazei que persevere no vosso serviço até ao meu ultimo suspiro.

“A minha alma está de uma tristeza mortal”

O que sobre tudo causava a Jesus esta tristeza era o ver a inutilidade dos seus trabalhos, dos seus sofrimentos e da sua morte para a maior parte dos homens. Já no inferno ardia uma infinita multidão deles, bem que de antemão lhe fossem aplicados os frutos da sua morte; previa que outros muitos, no cristianismo mesmo, com tantas graças não deixa¬riam de lá cair. Via que o numero dos eleitos havia de ser extremamente pequeno, que o serviriam como escravos, que depois de tantos e tantos sinais de amor, ainda o ofenderiam; que para o servir não fariam senão o que precisamente é de preceito e isto pelo simples temor de se condenarem; todo isto ele via e, como a seu pesar, caia no abatimento. No meio de tantas penas interiores, onde foi Jesus Cristo procurar alivio? Em seu Pai e só em seu Pai, em nenhuma outra coisa mais. Oh! e que belo exemplo nos não deixou ele!

“O nosso divino Salvador, diz o padre Judde, deixa à entrada do Jardim a multidão dos seus discípulos…”

Para que tantas testemunhas e tantos confidentes de nossas penas? É fatiga-los, incomoda-los; eles também têm como nós as suas cruzes, se não é hoje, é outro dia; neles não é pois o procurar a consolação. Depois de alguns momentos de suspensão e efusão com eles, tornamo-nos a nós mesmos aflitos como de antes e carregados dos remorsos de muitas faltas novas.

“Jesus Cristo leva consigo três discípulos”

Nas nossas interiores aflições podemos ir ter com algum amigo melhor e dizer-lhe: Dá-me um conselho e ora por mim, eu te peço isto; assim é procurar a Deus no homem, recorrer a amigos imperfeitos é procurar o mundo.

“Ao cabo de um momento Jesus Cristo deixa estes mesmos três amigos…”

A consolação a principio tomada só com a vista em Deus poder-se-ia tomar natural se por muito tempo a prolongássemos. Tomemos pois depressa a Deus.

“Mas qual era a sua oração?”

Prostrado por terra ou para melhor notar seu respeito, ou por não ter força para suster-se. “Pai meu”, dizia, “se é possível, passe de mim este cálice; todavia não se faça nisto a minha vontade, mas sim a tua”. Que belo sentimento! Quão digno do Filho de Deus e dos imitadores do Filho de Deus! Não, não há nada mais divino do que o sofrer com tal resignação tantas repugnâncias. Se Jesus Cristo menos custo tivera em submeter-se, diríamos: Não o posso imitar. Agora quando nos achamos na dor, gememos, derramamos nosso coração diante de Deus; é-nos isto permitido, mas sempre estejamos resignados.

“A oração de Jesus foi curta: “Pai meu, passe de mim este cálice, se é possível; faça-se, todavia, a vossa vontade e não a minha”

Por mais aflitos que estejamos, estivéssemos nós mesmos a morrer, podemos dizer outro tanto.

“Jesus repetiu três vezes esta mesma súplica enquanto sua aflição durou, e até que chegou o anjo para o confortar”

Imitemo-lo. Nada se obtém senão pela perseverança.

“Sua oração foi terna: “Meu Pai”!…”

Ah! Ele é o nosso Pai, embora nos aflija. Que faça, pois, como lhe aprouver, eu só temo os golpes de um juiz irritado.

“Sua oração foi condicional: “Livrai-me, se é possível, se julgais conveniente”

Se falasse a um outro que não a seu Pai, diria absolutamente:

“Livrai-me da morte”

Mas fala de outro modo: Meu Pai conhece melhor que eu o que me convém, ele pode tudo, ama-me, que me trate pois com rigor, se
esta é a sua vontade: Savit quantum vult: Pater est.
Todos nós, quem quer que sejamos, quantas vezes no decurso da nossa vida, ai! Não teremos a necessidade de praticar estas importantes lições?

“Vamo-nos a Deus: nele tudo se acha; mas ainda uma vez, não vamos senão a Deus, ou aos amigos de Deus”

Esta mesma resolução tomo eu aos vossos pés, ó meu Salvador. Quando vos aprouver enviar-me alguma cruz, alguma aflição, é a vós que eu quero recorrer, é junto de vós que me quero ir consolar. Sois o meu mestre e o meu melhor amigo: possa, pois, em tudo abandonar-me a vós. Feri, ó Jesus meu, feri esta vida culpável que por tantas vezes mereceu o inferno, e “fazei de mim tudo o que parecer bom aos vossos olhos”; pronto está o meu coração, disposto está a receber da vossa mão a adversidade como a prosperidade. Eis-me diante de vós, à vossa misericórdia me abandono, entre vossas mãos me lanço, porque sei que tudo quanto de mim fizerdes só pode ser bom. Se quereis que eu esteja em trevas, sejais bendito; se vos apraz que esteja em luz, sejais bendito; se vos dignais consolar-me, sejais bendito; se consentis que experimente tribulações, bendito sejais também. Por vós sofrerei de bom grado tudo quanto quiserdes que sobre mim venha.

De vossa mão quero indiferentemente receber a bem e o mal, as doçuras e amarguras, a alegria e a tristeza, e de tudo isto que me acontecer dar-vos graças.- Preservai-me para sempre do pecado, e eu já não temerei a morte nem o inferno. Com tanto que me não rejeiteis nem me risqueis do livro da vida, nenhuma tribulação me pode fazer mal. Uma vez que vos ame, tudo o mais me é indiferente. Ó doce Jesus! dai-me o vosso amor e a graça de morrer dizendo: Amo-vos, meu Jesus, amo-vos e submeto-me à vossa santa vontade.
Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Submissão à Vontade de Deus

Fazer a vontade de Deus, esta é a santidade, esta a perfeição; tudo o mais não é senão ilusão. Aprende, pois, a submeter-te a esta vontade santa.

1. Na saúde ou na doença; estás enfermo, deitado em teu leito, dize: “Ó meu Deus, assim o quero também eu”

2. Nas consolações interiores ou nas desolações: “Melhor sabe Deus o que à minha alma convém”

3. Na pobreza ou riqueza; és rico, deves saber que as riquezas andam muitas vezes acompanhadas de angustias, que muitas vezes são um peso insuportável, e que te expõem a numerosos perigos; submete-te, pois, à vontade de Deus que julgou bem fazer-te, não senhor e possuidor, mas simplesmente depositário dos tesouros que recebeste para os pobres e para ti mesmo. Se és pobre submete-te de toda a boa vontade às privações do teu estado; Deus é que assim o quer. Frio, calor, sede, trabalho, fadiga, suores, desprezos e desdéns da parte dos ricos é o quinhão dos pobres; aos olhos do mundo, partilha mui infeliz, não assim aos da fé. Ó meu Deus! Que méritos não se podem ganhar, quando, no seio da pobreza e de suas inumeráveis privações, se diz do fundo do coração: “Senhor, seja feita a vossa vontade!”

4. Submete-te ainda à vontade de Deus no tocante às estações: nunca murmures porque chove muitas vezes, porque a seca faz perecer tuas searas, etc. Todos estes murmúrios nada mudam a ordem das coisas; o muito que podem fazer é ofender a Deus. Resigna-te enfim com a vontade de Deus no que te diz respeito; contenta-te da saúde, talentos, vantagens do corpo e espírito, virtudes, santidade que mais aprouve a Deus conceder-te, e nisto como em tudo o mais, dize sempre: “Senhor, não quero mais nada senão o que vós quiserdes”.

Oração à Jesus Agonizante no Jardim das Oliveiras

Para lhe pedir a Graça de uma Boa Morte

Ó Jesus, meu Salvador! Peço-vos pela amarga dor que no jardim das Oliveiras penetrou vossa alma, que venhais em meu socorro, quando a minha alma, no momento de deixar este corpo, estiver cheia de terror à vista dos formidáveis juízos. Dignai-vos então fortificar-me pela esperança em vossa misericórdia, enviai-me vosso santo anjo para que me de¬fenda contra os ataques e tentações do demônio. Que a virtude dos vossos sofrimentos me dê força para suportar a diuturnidade da doença e a violência das dores, sem murmuração, sem impaciência. Fazei que minha alma sempre esteja perfeitamente submissa à vossa vontade, e que por vosso amor aceite igualmente a saúde e a doença, a adversidade e a prosperidade, a morte e a vida, e incessantemente repita em todas as coisas: “Meu Deus, seja feita a vossa vontade e não a minha”. Não vos peço, Senhor, que me envieis uma morte plácida, dores suportáveis, doenças leves; tudo isto deixo à vossa sabedoria, de tudo disponha ela, não segundo os meus desejos mas segundo as minhas necessidade e segundo me for mais útil. O que vos suplico, o que vos conjuro é que me concedais a graça de, em minha ultima enfermidade, receber todos os socorros da religião, e expirar dizendo do intimo do meu coração: Jesus e Maria, em vossas mãos me lanço; Jesus e Maria, amo-vos de todo o meu coração. Assim seja.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 139-148)