Capítulo XVI

Baptismo habeo baptisari, et quomodo coarctor un perficiatur? – “Eu tenho de ser batizado num batismo de sangue, e quão grande não é a minha angustia até que ele se conclua?” (Lc 22, 50)

Desiderio desideravi hoc pascha manducare vobiscum – “Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta Páscoa, antes da minha paixão.” (Lc 22, 15)

Que enérgicas expressões! Oh! Como eles pintam ao vivo o incompreensível desejo que Jesus tinha de sofrer e imolar-se por nós!
Bem se deixa ver que saem da abundância do coração daquele que disse:

“Eu vim trazer fogo à terra e que quero eu, senão que ele se acenda?”

Ó filhos de Adão, compreendestes esta palavra do vosso Deus:

“Eu vim trazer à terra o fogo do meu amor e o meu mais ardente desejo é ve-lo atear-se no coração de todos os homens?”…

Ó meu Jesus, que tão grandes bens pois cuidáveis vós poder ganhar do amor das criaturas que para o obter assim quisestes morrer e tanto ansiastes esse desejo da vossa morte?

“Eu devo ser batizado num batismo de sangue, dizíeis, oh! e quão grande não é a minha angustia até que ele se conclua?”

Ainda uma vez mais, que grandes bens esperáveis do nosso amor? Quê! Quando todos os homens vos amassem, seríeis vós por isso maior, mais potente, mais feliz?…

— Não, filho meu, me responde Jesus; não seria nem maior nem mais potente, nem mais feliz; minha felicidade, minha potência e minha grandeza não dependem do amor de minhas criaturas; por mim também não é que me aniquilei encarnando-me; por mim não é que nasci num curral; por mim não é que passei trinta anos numa pobre oficina; por mim não é enfim que com tão vivo ardor desejei sofrer e morrer sobre a cruz. Por ti, meu filho, sim, é por ti; quero fazer-te feliz dando-te o meu amor. E terás tu por ignominioso amar a um Deus que só pode fazer a tua felicidade, a um Deus que te cumula de benefícios, a um Deus que com tal ternura te ama?…

— Não, doce Jesus meu, não; pelo contrario, quero dar-vos amor por amor, quero amar-vos de toda extensão do meu coração; dignai-vos ajudar a minha fraqueza. Oh! Quando por vós farei tudo o que hei feito pelo mundo? quando trabalharei para o céu, o que trabalhei para a terra? quando concederei à virtude o que ao vicio tenho dado? Ouvi, meu Deus, o ardente desejo do meu coração e dai-me o vosso amor.

“Tenho desejado ansiosamente comer convosco esta páscoa”

Estava já o nosso bom Mestre na véspera da sua dolorosa paixão; era aquela ultima ceia que fazia com os seus discípulos, quando lhe dirigiu estas palavras. É como se lhes dissera: Meus queridos filhos e vós todos os homens que sobre esta terra viverdes até o fim dos séculos, eis que a hora do meu sacrifício se aproxima; neste mesmo momento os meus inimigos estão tramando conselho contra mim; uma cruz é o que me aparelham. Mas em antes de morrer, vou esta noite mesma deixar-vos novas lembranças do meu amor, e deixar-vo-las-ei submetendo-me aos mais atrozes sofrimentos, às ignomínias mais revoltantes, ao suplício mais infamante. Ah! E se soubéreis com que angustias eu aguardava esta noite! Se soubéreis que vezes a chamei eu de todos os meus votos! Vós compreenderíeis a violência do meu amor para convosco e o imenso desejo que tenho de possuir o vosso coração para o fazer feliz.

Bem vejo, ó doce Jesus meu, ó meu adorável Salvador! Quereis possuir o meu coração a todo o preço que seja. Oh! E que razão tenho eu para vo-lo recusar? Pois não é já para mim uma grande honra o terdes vós a bondade de pedir-m’o? Sim, meu Deus, dou-vos o meu coração, tomai-o todo, afim de que a vós, e só a vós ame. Ó meu bom Mestre, meu irmão, meu amigo, minha esperança, meu tudo, quando em boa verdade poderei dizer que vos amo de toda a minha alma, de todas as minhas forças? Quando todo me sentirei abrasado das chamas do vosso amor? Consumido estou do desejo de amar- vos, e não há quem possa socorrer-me. Tende, Senhor, piedade de mim, tende piedade desta vossa pobre criatura, e dai-me o vosso amor; nem riquezas, nem honras, nem prazer, nem coisa alguma criada vos peço, que sem vós tudo isto não é mais que pura vaidade, não pode saciar meu coração. Porque tanto tardais em conceder-me este favor? Que é isto, Jesus meu? Vedes-me há tanto tempo a penar noite e dia e não me socorreis? Até quando, Senhor, vos esquecereis de mim? Até quando desvia¬reis de mim os vossos olhos?” Deus meu, Deus meu, tomo a repetir e de repetir não cessarei até ao meu ultimo suspiro: “Dai-me o vosso amor, dai-me o vosso amor”. O’ Maria, mãe do santo amor! obtende-me a graça de amar a Jesus, se for possível, tanto como vós mesma o amais. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Da Mortificação Interior

Pelo muito que Jesus Cristo desejou sofrer para testemunhar o seu amor, procura hoje ocasião de também sofrer por ele alguma coisa. Ontem falei-te, meu caro Teótimo, da mortificação exterior. Não percas de vista que sem ela impossível é fazer progresso algum real na perfeição; poder-se-á quando muito adquirir uma santidade fictícia e exterior, se assim se pode dizer; santidade verdadeira, não. Em nos vencermos a nós mesmos consiste esta interior mortificação, mas para chegarmos a tão suspirado resultado, que combates não é preciso travar! Para isso, eis as práticas mais importantes, observa-as fielmente e não tardarás a fazer grandes progressos na santidade e no amor do nosso bom Mestre.

1. Mortificação do Gênio e Inclinações Naturais

Nunca faças ação alguma só porque ela te apraz e é do teu gênio; jamais faltes a um dever, a uma boa obra porque nisso sentes repugnância. Dobra-te sempre ao humor e gostos de outrem, sempre que o que te pedem não é pecado. Algumas vezes priva-te de fazer uma coisa ainda que permitida e isto tão somente porque a vontade te incita. Pede muitas e muitas vezes a nosso Senhor te ajude a mortificar os teus gostos porque este gênero de mortificação é muito difícil.

2. Mortificação da Própria Vontade

Procura fazer não a tua, mas a vontade dos teus superiores; não escolhas empregos, ocupações; deixa a escolha às pessoas que te conduzem. Quando te sentires levado por uma certa tendência interior a fazer uma coisa, e a que tua vontade ali está toda, toda, mortifica-te, ou não a fazendo ou diferindo-a por algum tempo. Para longe de ti todo o pensamento de independência; persuade-te bem, que melhor, mil vezes melhor é obedecer que mandar.

3. Mortificação do Amor Próprio

Quem não mortifica o seu amor próprio não se ocupa senão de si, não obra senão para si. Está todo repleto de uma alta opinião de si mesmo, lá para si tudo nele são qualidades ótimas, tudo dele falia, tudo nele pensa. Estima-se tanto e mais que os outros, só o que ele faz é que está bem feito. Em tudo se mete, em tudo quer ter parte, de tudo quer ser autor. Sente as maiores dificuldades em submeter-se a outrem, de obediência só gosta dela nos mais, ninguém o pode contradizer, tudo o que quer, há de se fazer, imagina ter grandes talentos para mandar, porque tem disso vontade. Se lhe dão louvores todo se ufana, nada esquece para os granjear, tendo todavia um grande cuidado em ocultar este desejo. Não pode ver louvar os mais; não obstante, uma vez por outra também os louva, mas é por lisonja ou interesse particular que ele o faz. Como o mais que teme é o ser desprezado, oculta quanto pode as suas imperfeições. Em tudo procura as suas maiores comodidades, do incomodo dos outros não se lhe dá. Em suas penas tem de si mesmo grande ternura e compaixão, é duro e cruel para com as dos seus irmãos. Examina, meu caro Teótimo, por estes sinais, se hás feito algum progresso na mortificação do teu amor próprio, e toma a resolução de lhe fazer guerra de morte.

4. Mortificação das paixões

A primeira a atacar é a tua paixão dominante; esta submetida, todas as outras ir-se-ão amainando como de si mesmas. Tem cuidado que não concedas a alguma de tuas paixões coisa alguma de que te peçam, por mínimas, por mais submissas que te pareçam; está sempre de sobre aviso a seu respeito, nunca te capacites que as tens já extinto, porque durante toda esta vida estão sempre a renascer e reaparecem de pé para a mão quando por mortas as tínhamos há muito tempo.

Quanta coisa que é preciso fazer! Me dizes tu agora, que combates! Que angustias! Que cruz! É verdade, é, meu caro Teótimo, mas olha, esta vida é tão curta, o dia da recompensa já se avizinha, e é preciso muito cuidado e constantes esforços para se adquirir a virtude. — Mas é muito mais fadiga resistir aos vícios e paixões do que suportar as fadigas do corpo. — Isso também é verdade. Lembra-te todavia que se perseverares no fervor em combate tão difícil à natureza, hás de experimentar uma grande paz, e pela graça de Deus e amor à virtude já todo o trabalho te há de ser leve. E afinal, Deus e o céu sempre merecem que por ele soframos alguma coisa.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 123-128)