Cristo, Homem das Dores (Carlo Dolci)

Capítulo XV

Viram dolorum – “Jesus foi um homem de dores” (Is 53, 3)

Sim, verdadeiramente Jesus foi um homem de dores; sua vida foi toda de sofrimentos interiores e exteriores; foi um martírio continuo, um martírio mil vezes mais cruel do que podemos imaginar. Que não teve ele de sofrer durante os nove meses que passou no casto seio de sua mãe? É certo que gozava de toda a sua razão e tinha o mais fino sentimento de todos os seus sofrimentos. Que horrorosa posição esta! Oh! sempre muito amor era preciso haver no coração deste bom Mestre, pois para no-lo testemunhar quis encerrar-se numa tão incomoda prisão! E em seu nascimento o que não sofreu? Ele a nascer num curral, ele exposto às injurias do tempo, ele a tremer de frio, ele a chorar. Por toda a parte o acompanham os sofrimentos, nem um instante o deixam. Se sai do presépio de Belém, é para derramar as primícias do seu sangue; mais tarde um pouco essa sua mesma pátria forçado se viu a deixar e fugir para terra estrangeira, afim de escapar ao furor de um rei ímpio e sanguinário. Por toda a sua vida terá que sofrer os incômodos da pobreza, e terminá-lo-á sim, terminará essa vida de angustias por uma cruel morte! Eis aqui pois, ó meu Jesus! o que por mim tendes sofrido; Ah! Bem justo é que por vosso amor também eu sofra alguma coisa. Fazei-me a graça, eu vos suplico, de sequer ao menos suportar com paciência e resignação as penas desta vida corruptível.

Toda a vida de Jesus foi um martírio”: sim, e o que mais cruciante tornou este martírio, foi o perfeito conhecimento que tinha dos tormentos que em sua paixão havia de sofrer. Os açoites, os espinhos, a cruz; os ultrajes da sua paixão, ele os teve presentes desde o primeiro instante da sua vida. Se no campo via um cordeiro, ou no templo vitimas, lembrava-se que ele era o cordeiro de Deus, e que sobre a cruz devia ser imolado em sacrifício. Ao lançar os olhos sobre a cidade de Jerusalém, pensava nos ultrajes de que esta cidade ingrata o havia de saturar. A vista d’uma montanha lhe trazia à memória o monte Calvário, no qual devia derramar o seu sangue. Quando levantava os olhos a sua terna mãe, quais não eram os sentimentos de dor que de seu coração se apoderavam! Ai, ele a via já ao pé da cruz, triste, abatida, agonizante de dor; via já chegado o momento de se ver forçado a recomenda-la ao discípulo amado, e sem duvida desviava-se para ocultar a sua com- moção e as suas lágrimas. Assim tudo lhe recordava a sua paixão e os tormentos que nela devia sofrer, e esta cruel lembrança lhe envenenou todos os momentos da sua existência.

Um dia Jesus crucificado apareceu à irmã Madalena Orsini, que de há muito estava em tribulação e exortou-a a que sofresse resignada, “Isso bem eu queria, Senhor, respondeu esta santa jovem, mas sempre permiti que vo-lo diga, vós sobre a cruz só estivestes três horas, e eu já há muitos anos que sofro esta pena. — Pobre ignorante, lhe diz Jesus repreendendo-a, que é que dizes tu? Sabe que desde o primeiro instante de minha existência no ventre de minha mãe, sofri em meu coração o que mais tarde sofri na cruz”.

Mas o que mais afligiu o nosso divino Salvador foi a vista de nossos pecados e das ingratidões com que devíamos pagar os tormentos que por nós com tanto amor ia sofrer. E esta vista lhe causou penas interiores tão acerbas e tão vivas, como neste mundo homem algum pode jamais sofrer. Por consequência eu, também eu, por meus pecados contribui a afligir tão bom Senhor! Porque certo é que se eu menos pecara, menos ele sofrera. Bem justo é pois que chore minhas passadas faltas, e empregue a mesma linguagem que Santa Margarida de Cortona. Exortava-a o seu confessor a que se tranquilizasse sobre o negocio da sua salvação, e a que acabasse com suas lágrimas, pois os seus pecados lh’os havia já Deus perdoado.

“Ah! Meu padre, replicou desfeita em pranto mais abundante, como quereis que acabe de chorar, quando sei que os meus pecados foram a causa do meu Jesus gemer e estar em aflição toda a vida!”

Ó céu, que longe não está dos sentimentos desta grande santa o nosso procedimento! Toda a nossa vida a levamos no meio da alegria, diz S. Efrem; todos os dias procuramos novos prazeres, alimentos novos à nossa vaidade, e contudo ouvimos narrar os sofrimentos e ignomínias que por nosso amor Deus sofreu. Enchemo-nos de orgulho, gostamos de todas as nossas comodidades, covardemente rejeitamos o salutar jugo da penitencia, bem que nos sintamos vergadas ao peso de iniquidades, bem que saibamos que por nosso amor, o Salvador se submeteu às injurias, aos escarros, aos açoites, aos opróbrios e à morte mais cruel! O pecador em delicias, e o justo pregado numa cruz! que transtorno! Oh! e que terrível conta teremos de dar de um tal procedimento!

Apressemo-nos, apressemo-nos pois a prevenir por uma penitencia sincera as suas temíveis consequências! Vamo-nos lançar nos braços de Jesus, homens de dores, e peçamos, e peçamos-lhe a graça de reparar o passado e corresponder para o futuro a toda a ternura que para conosco há tido; vamos a seus pés fazer-lhe um solene protesto, e digamos-lhe com todo o fervor que doravante só queremos ser todos d’ele para sempre, sim, para sempre, para sempre. À vista das nossos iniquidades exclamemos sem cessar com o profeta Jeremias:

“Quem dará agua a minha cabeça e uma fonte de lágrimas a meus olhos? E eu chorarei de dia e de noite”

Exclamemos com o santo rei David, ou antes com a Igreja:

“Senhor, não nos trates como mereciam os nossos pecados, nem nos castigues segundo a grandeza das nossas antigas iniquidades. Não te lembres das nossas iniquidades, mas previnam-nos sem demora as tuas misericórdias, por que estamos reduzidos à ultima miséria. Ajuda-nos, ó Deus, que és o nosso Salvador, e livra-nos, Senhor, pela gloria do teu nome; e perdoa-nos os nossos pecados, em atenção ao nome que te é próprio”.

Ó meu Jesus! Não poder eu expiar de dor à triste recordação das amarguras de que saciei vosso coração por minha tibieza, e sobretudo pelos pecadas da minha vida passada! Ai! Quantas e quantas vezes me dei ao sono sem pensar que trazia em meu coração o pecado mortal que como horrível serpente com suas medonhas roscas me cerrava! Quantas vezes tive eu a ingratidão de, tendo-me vós perdoado e reintegrado no vosso amor, abandonar-vos com indigna vilania! De todo o coração me arrependo de tão mau proceder, sim, me arrependo de assim vos haver ultrajado. Dignai-vos perdoar-me!… Ó meu Deus! ainda depois de tanta covardia, depois de tantas misérias, depois de tantas fraquezas, sinto-me animado a dizer-vos: amo-vos de todas as minhas forças, amo-vos de toda a minha alma. Oh! eu vos suplico, não permitais que eu caia ainda na desgraça de ver-me separado pelo pecado! Iesu delicissime, ne permitas im separari a te – “Jesus dulcíssimo, ouvi-me; não permitais que de vós me separe nunca”… ne permittas me separari a te. Morrer antes do que trair-vos de novo! Ó Maria, mãe da perseverança, obtende-me a santa perseverança. Vós já a obtivestes para tantos outros, agora só para mim não a querereis obter? Oh! Não, minha boa mãe, não há de ser assim; vós me ofereceis a graça de amar Jesus e de vos amar também a vós por toda a eternidade. Esta preciosa graça eu a espero da vossa bondade, espero-a dessa ternura que para comigo sempre tendes tido. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Da Mortificação do Corpo

Seria justo, meu caro Teótimo, viveres tu no meio dos prazeres e alegrias do mundo, e Jesus Cristo a passar toda a sua vida no meio dos sofrimentos? De certo que não, e não hás de ser tu que tão pouco te queiras assimilar àquele que por modelo tomaste. Hoje pois por amor do nosso Salvador aplicaste a fazer progressos na virtude da mortificação. Que esta palavra mortificação te não espante; para uma alma generosa que ama a Deus, é doce, dulcíssimo o mortificar-se. Sim, meu caro Teótimo, uma privação, um sacrifício que a gente se imponha por agradar a Jesus, causa à alma felicidade mais verdadeira que todos os gozos do mundo. Experimenta e acharás a verdade do que acabo de dizer.

Duas sortes há de mortificação: 1º mortificação interior, a mais difícil e mais necessária; 2º mortificação exterior, a qual muito ajuda a adquirir a interior. Por hoje limita-te à prática especial da mortificação exterior, para o que eis os principais exercícios:

1. Mortificação do Corpo em Geral

Recusa a teu corpo estas posturas muito cômodas e efeminadas que despertam moleza; se o permite a saúde, ora de joelhos e sem te apoiar; não fiques no leito além da hora marcada para te levantar, etc.

2. Mortificação da Vista

Desvia teus olhos não somente dos objetos proibidos, mas ainda dos que sem tal ou qual perigo não podes ver. Sabe até mesmo privar-te da vista de coisas licitas e indiferentes, quando a vê-las só a curiosidade te impele. Oh! Que agradável coisa a Deus, e para ti tão fácil, o sacrificar-lhe quanto em ti esteja as ocasiões de ver belas casas, aprazíveis jardins, magnificas pinturas! Como te enriquecerias para o céu, e a tão pouca custo! As ocasiões de semelhantes sacrifícios são tão frequentes!

Mortificação da Língua

Nunca digas palavra que direta ou indiretamente possa ferir o respeito a Deus devido ou à reputação do próximo. Ai! tantas vezes se olvida, mesmo entre pessoas de piedade, que o mais precioso tesouro do próximo é a sua reputação! Quando se ofereça ocasião de fazer brilhar o teu espirito, d’ostentar os teus conhecimentos, de deixar ver os teus talentos, aprende a calar por amor de Jesus, a não ser que a caridade ou decoro te obriguem a falar. Retém sobre os lábios uma palavra inútil, quase, quase a sair, ou antes uma palavra que te poderia atrair louvor.

4. Mortificação do Ouvido

Não escutes as murmurações, as maledicências, as injurias, as palavras muito leves ou de dois sentidos e geralmente todo o discurso em que posse comprometer-se a consciência. Priva-te algumas vezes do prazer de ouvir novas, belas vozes, uma doce harmonia, e com paciência e resignação sofrer tudo o que pode ferir os teus ouvidos de modo desagradável.

5. Mortificação do Olfato

De bom grado renuncia ao prazer que poderás tomar, ainda que inocentemente, nos bons cheiros e perfumes; se passeias por um jardim sacrifica uma vez ou outra a Nosso Senhor o prazer de cheirar uma rosa, um cravo, etc.

6. Mortificação do Gosto

Ou tu comas ou bebas, nunca o faças pelo prazer que dai te possa provir. Manjares esquisitos, apetitosos bocados, viandas delicadas, não os busques, que tais acepipes são alimento do luxo, estimulo de voluptuosidade. Se te servem alguma vianda mal arranjada, aproveita-te de tão boa ocasião de te mortificar, e não te queixes, exceto se a isso o dever te obriga. Priva-te alguma vez das comidas de que mais gostas, para tomar outras de que não gostas.

7. Mortificação do Tato

Sofre com alegria, ou ao menos com paciência, o frio, o calor, outros incômodos do ar e das estações; por mais molestos que sejam não murmures. Não te inquietes pelas doenças que te podem vir nem por tudo o que teu corpo pode sofrer; bem sabes tu que tudo isto são meios de tornar-te mais puro, de amortecer as paixões, de fazer penitencia, e de dar a Deus sólidos testemunhos do teu amor (1).

Aqui tens, meu caro Teótimo, algumas práticas muito simples de mortificação exterior; se verdadeiramente amas a Deus, muitas outras acharás sem contudo passar nunca os limites da prudência e obediência que deves a teu diretor.

Observações:
(1) Muitas destas práticas são extraídas dos exames de Tronson; o mesmo será de quase todas do seguinte capitulo.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 118-122)