O Bom Pastor

Capítulo XLIII

Ego sum pastor bonus: bonus pastor animam suam dat pro ovibus suis – “Eu sou o bom pastor: o bom pastor dá a própria vida pelas suas ovelhas” (Jo 10, 11)

Sim, sim, exclama Santo Agostinho, verdadeiramente Jesus é bom pastor: porque ama as suas ovelhas mais que a si mesmo, mais que seu repouso, mais que sua vida. Por elas desceu dos esplendores da sua gloria; por elas revestiu-se dos andrajos da nossa humanidade, e condenou-se a uma vida dura, laboriosa e cheia de sofrimentos; por elas esgotou todos os tesouros da sua ternura; por elas final¬mente morreu sobre a cruz.

Jesus é o bom pastor; todos os seus instantes, todos os seus suspiros, todos os seus trabalhos, toda a sua vida, todo ele mesmo, tudo isto foi consagrado ao bem das suas ovelhas. Era Deus; e, apesar do seu poder infinito, não pôde fazer mais para lhes testemunhar o seu amor.

Jesus é o bom pastor: vede como suas entranhas se comovem de compaixão por todas essas pobres ovelhas da casa de Israel, errantes e desgarradas.

Por amor delas ele não se dá descanso nem de dia nem de noite; percorre lugares, aldeias, cidades, desertos, à procura de algumas de suas ovelhas; ora, geme, pede a grandes brados tua salvação, e afinal dá a vida para lh’a obter. Vede-o sobre a cruz: está no momento de expirar no meio das mais atrocíssimas dores, e ainda então o seu amor arrebata ao demônio uma ovelha que este lobo infernal ia devorar: era o bom ladrão. Vede-o, descer uma outra vez do Céu para conduzir ao aprisco outra ovelha desgarrada: Era São Paulo. Que digo? Vede-o, vede este bom pastor ao lado de cada um de nós dizendo-nos incessantemente:

“Filho, não fujas: vem, eu te estendo os braços; vem, eu te reconduzirei a pastos muito abundantes; vem, que eu te encherei de minha graça e amor”

Jesus é o bom pastor:

“Ele conhece as suas ovelhas, e suas ovelhas conhecem-no a ele”

Oh! Que bom é viver ao pé deste bom pastor tão cheio de ternura por suas ovelhas! Oh! feliz da alma que o não deixa nem um instante: ela recebe da sua própria mão as mais doces carícias e as graças mais preciosas. Ora uma alma permanece constantemente junto a Jesus, pastor divino, quando se esforça por viver no mais profundo recolhimento, humildade e compunção. O recolhimento obtém-se pela oração e pela mais exata e escrupulosa fidelidade a todos os deveres; a humildade adquire-se pela recordação das nossas misérias e impotência para o bem, e sobretudo por humilhações voluntárias; enfim mantém-se em nossa alma a compunção pelo pensamento do amor de Deus para conosco e dos pecados cometidos contra ele.

Jesus é o bom pastor: tem sempre os olhos sobre as ovelhas. Se alguma se desgarra, busca-a por todos os lugares, corre atrás dela com a mais viva solicitude, e não descansa enquanto a não acha e a torna a reconduzir ao aprisco. Ó bom Jesus! Posso eu clamar a todas as criaturas que vós sois o bom pastor, eu que de maneira tão inefável experimentei vossa misericordiosa ternura! Ai! “errei como uma pobre ovelha que corre à sua perdição”; caí de desvario em desvario, deixei-me ir após todos os desregrados desejos do meu coração; deixei o caminho da inocência pelo vicio; “cansei-me nas veredas da perdição”. E no entanto vós, ó Jesus meu! Vós não me abandonáveis; eu me afastava de vós mais e mais, e vós nunca me perdíeis de vista; todos os meus passos e todos os meus movimentos eram novos princípios; eu entregava-me sem medida ás minhas paixões, e vós guardáveis profundo silencio. “Ó tortuosas vias”! Infeliz de mim que pude capacitar-me que, apartando-me do meu Deus, encontraria outra coisa melhor que ele! Ai! por infelicidade já tenho demasiada experiência das penas e angustias que atormentam o coração ingrato que busca repouso fora de vós, ó doce Jesus! Ah! Que anos passei sem vos amar! Que anos perdi no serviço do demônio, do mundo e dais paixões! Que anos tomei a peito calcar aos pés os sinais do vosso amor e ser rebelde ás vossas inspirações! E vós, ó Deus meu! Vós usáveis de paciência para comigo; as minhas misérias aumentavam e vós vos aproxima- veis insensivelmente de mim; a vossa doce mão se ia chegando, chegando, sem eu dar por ela, para tirar-me do lodo e purificar-me. Ó Jesus! bom pastor! Que ações de graças vos darei por tanto amor?

Jesus é o bom pastor, ele ama as suas ovelhas a ponto de as nutrir do seu próprio corpo e do seu próprio sangue. Ah! Que pastor se sacrificou jamais assim por seu rebanho? Só Jesus era capaz de tal excesso de amor. Muitas mães recusam nutrir seus filhos e os dão a amamentar a estranhos; não assim o nosso bom Salvador; não contente com dar-nos sua vida e merecimentos, quer ser ainda nosso sustento.

Senhor Jesus, como é possível que eu pudesse abandonar um Senhor tão terno e tão cheio de amor? Ah! Que felicidade a minha se, ovelha fiel, sempre me conservara junto a vós!… Mas, ai! O mal está feito, fui ingrato e me apartei do meu melhor amigo. Bom Jesus, tende de mim piedade; eis que eu volto a vós todo coberto ainda das chagas que recebi e todo confuso da minha fugida; eu vos suplico, não me rejeiteis. Recordai-vos, ó meu querido Salvador! Que sou uma dessas pobres ovelhas pelas quais destes a vida. Lançai ainda sobre mim um desses olharas de misericórdia que outrora lá do alto da Cruz deixastes cair sobre os pecadores, quando por minha salvação exalastes o ultimo suspiro. Sim, Jesus meu, concedei-me ainda um desses doces olhares; mudai-me, fazendo-me melhor e salvai-me. Pois que! Não sois vós aquele pastor cheio de amor, “que, tendo perdido uma de suas ovelhas, deixa as outras noventa e nove no deserto, para se ir após a que se perdeu, até que a ache; não sois vós que, depois de a achar, a pondes sobre os vossos ombros cheio de alegria, e chamais depois vossos amigos e vizinhos”, isto é, os anjos santos, e lhes dizeis:

“Regozijai-vos comigo, porque achei a minha ovelha que se havia perdido?”

Sim, meu Jesus, sois vós mesmo, e eu sou essa pobre ovelha desgarrada. Eis-me a vossos pés, e espero que me tomeis em vossos braços, para me reconduzir ao aprisco. Oh! Jesus! Bom Jesus! Não priveis o Céu da alegria que ele sentirá vendo-vos voltar com um pobre pecador de que tereis feito um santo! Recebei-me ainda no numero de vossas ovelhas queridas.

Ah! Se por minha falta ainda me não pudestes encontrar desde que com tanto amor andais em minha procura, recolhei-me agora que me venho lançar a vossos pés, e prendei-me estreitamente a vós, para que não mais volte à minha perda. É preciso que o vosso amor seja o laço que a vós me tenha vinculado; porque se vós me não retendes por esta doce cadeia, escapar-vos-ei de novo. Ah! Senhor, vós não é que tivestes a culpa de eu não ter estado sempre unido a vós pelo laço do vosso amor; eu, eu ingrato como era, é que me conservei sempre afastada de vós por minha fugida. Mas agora eu vos conjuro por esta infinita misericórdia que vos fez descer sobre a terra afim de me procurar, prender-me a vós, mas prender-me com um laço dúplice de amor, afim de que nem vós me percais mais a mim, nem eu a vós. Meu querido Redentor! Não quero mais separar-me de vós; renuncio a todos os bens e prazeres do mundo, e ofereço-me a sofrer toda a sorte de penas e todo o gênero de morte, contanto que viva e morra unido sempre a vós. Eu vos amo, amabilíssimo Jesus; amo-vos, ó meu bom pastor, que morrestes por vossa ovelha transviada! Oh! Ficai-o sabendo bem, esta ovelha agora ama-vos mais do que a si mesma e outra coisa não quer mais que amar-vos e consumir-se por vosso amor. Tende piedade dela, ó Jesus! Amai-a, e não permitais que doravante se afaste jamais de vós. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Da Comunhão Espiritual

No capitulo precedente prometi falar-te da comunhão espiritual; cumpro a minha palavra. Bom é que saibas, meu caro Teótimo, que segundo a doutrina do concilio de Trento, pode-se comungar de três modos: o primeiro, comunhão só sacramental; o segundo, só espiritual, e o terceiro, sacramental e espiritual. Não trato aqui da primeira, que é a que só fazem os que comungam em estado de pecado mortal, nem da terceira que é comum a todos os que recebem Jesus Cristo em estado de graça; mas unicamente da segunda que, segundo as formais palavras do mesmo concilio, “consiste num desejo ardente de se nutrir deste pão celeste, com uma fé viva que opera pela caridade e que nos torna participantes dos frutos e graças deste sacramento“. Portanto, segundo esta doutrina, os que não receberem realmente a Eucaristia, recebem-na espiritualmente, formando ato de fé viva, caridade ardente, e desejo vivo de se unirem ao sumo bem: é assim que se põem no estado de participar dos frutos deste divino sacramento.

Para te facilitares nesta prática tão vantajosa, pensa bem, meu caro Teótimo, no que vou dizer-te. Quando assistires à santa missa e o padre estiver para comungar, (estando tu mesmo na mais modesta postura e no mais recolhimento), faze de todo o coração um ato de verdadeira contrição, e ferindo humildemente o peito, para mostrares que te confessas indigno de graça tão grande, faze todos os atos de amor, oferecimento, humildade e outros que costumas fazer quando te aproximas da sagrada mesa. Junta-lhes o mais vivo desejo de receber a Jesus Cristo que por nós quis velar-se sob as espécies sacramentais; e, para reanimar a devoção, imagina que a Santa Virgem ou qualquer de teus santos patronos, vem trazer-te a santa hóstia; afigura-te que a recebes realmente; e tendo Jesus estreitamente unido ao coração, repete por muitas vezes e por diferentes intervalos, em termos ditados pelo amor:

“Vinde, Jesus meu, amor e vida da minha alma; vinde a este pobre coração, vinde e saciai os meus desejos; vinde e santificai a minha alma; vinde, ó dulcíssimo Jesus, vinde”

Conserva-te depois em silêncio, e contempla o teu Deus dentro de ti mesmo; e, como se realmente comungarás, adora-o, agradece-lhe e faze todos os atos ordinários depois da comunhão.

Ora, meu caro Teótimo, persuade-te bem que esta comunhão, tão negligenciada pelos cristãos dos nossos dias, é, não obstante, um verdadeiro tesouro, que enche a alma de uma infinidade de bens; e, segundo muitos autores, entre outros o Padre Rodrigues na “Prática da perfeição Cristã” (Tratado VII, Cap. XV) ela é tão útil, que pode produzir as mesmas graças que a comunhão sacramental, e mesmo maiores ainda; porque, bem que a comunhão sacramental seja de sua natureza de um grande fruto, pois sendo um sacramento, opera por virtude própria, pode contudo muito bem uma alma desejosa da sua perfeição fazer uma comunhão espiritual com tanta humildade, amor e devoção, que mereça graça maior do que a alcançada por uma alma que comunga sacramentalmente, mas com menos fervor e preparação… Seria possível que tão grandes bens não fizessem impressão alguma sobre ti? Que escusa daqui por diante podes tu dar se também desprezas uma prática tão santa e tão útil? Toma a resolução de a fazer frequentemente, e nota que a comunhão espiritual tem a vantagem sobre a sacramental em que esta se pode fazer só uma vez ao dia, ao passo que aquela pode-se fazer não só a todas as missas que ouças, mas em todo o tempo do dia; de manhã, à tarde, de dia, de noite, na Igreja, em teu quarto, sem mesmo teres necessidade da licença do confessor. Numa palavra, quantas vezes fizeres o que acabo de indicar-te, tantas farás a comunhão espiritual, e enriquecerás a tua alma de graças, de méritos e de toda a sorte de bens. Quantas almas por esta prática voluntária, reiterada muitas vezes durante o dia, chegaram a uma grande santidade! (Extraído do “Manual de piedade para uso dos seminários”)

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 295-302)