Oferecimento do Coração à Jesus

Capítulo XLII

Ego si exaltatus fuero a terra omnia traham ad meipsum – “Eu quando for levantado da terra atrairei tudo a mim” (Jo 12, 32)

São estas vossas palavras, ó meu divino Salvador! Vós as pronunciastes quando estáveis sobre a terra em vossa carne mortal. Dissestes-nos que quando estivésseis elevado sobre a cruz, atrairíeis a vós os corações de todos os homens; sois a verdade infalível, e eu não poderia duvidar do cumprimento das vossas palavras; permiti-me então que vos pergunte como é que o meu coração esteve por tantos anos longe de vós?… Ah! De vós não é que eu me devo queixar. Quantas vezes me não chamastes vós ao vosso amor, e eu recusei ouvir a vossa voz! Quantas vezes me não perdoastes as minhas ofensas! Quantas vezes me não advertiste pelos remorsos da consciência que vos não ofendesse! Eu, apesar de tantas graças, quantas vezes não voltei aos pecados! Ó Jesus meu! Não me precipiteis no inferno, como eu mereceria; porque ali ver-me-ei constrangido a amaldiçoar para sempre todas essas graças, que me haveis prodigalizado. Sim, todas essas graças, todas essas luzes interiores que me concedestes, todos esses ternos convites que me fizestes para dar-me a vós, essa paciência que tivestes em suportar-me, esse sangue derramado por salvar-me, tudo isso se¬ria para mim tormento muito mais atroz e mais cruel que todos os demais tormentos do inferno.

Bem o sinto, ó Deus meu! Vós me chamais ainda hoje com terno e ansioso amor como se eu nunca vos ofendera, e me dizeis:

“Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração”

Pois que assim o man¬dais, ó meu Senhor! Amo-vos de todo o meu coração: sim amo-vos, porque sois digno de amor infinito, amo-vos e o meu mais ardente desejo é amar-vos, assim como o meu maior temor é ser separado de vós e viver sem vosso amor. Por misericórdia, ó meu crucificado Jesus! não permitais que um só instante eu cesse de amar-vos. Recordai-me sempre a morte que por mim sofrestes, recordai-me todos os testemunhos do vosso amor, e fazei que sua recordação me inflame de mais em mais do desejo de amar- vos e consumir-me por vós, por vós que por mim vos fizestes vitima de amor!

“Quando eu for elevado da terra atrairei tudo a mim”

Senhor Jesus! Cumpri hoje, eu vos suplico, a vossa promessa e atraí-me todo a vós. Terno esposo de minha alma, puríssimo amor meu, ó meu Jesus! Rei de todas as criaturas, quem me livrará dos meus laços? “Quem me dará asas” para voar a vós e em vós repousar?
Oh! quando estarei bem desprendido da terra para ver-vos, Senhor Deus meu, e saborear quanto sois doce? Quando estarei de tal modo absorvido em vós, tão inebriado do vosso amor, que nem me sinta a mim mesmo, e só de vós viva, nessa união inefável e acima dos sentidos que nem todos conhecem? Agora só gemer e levar com dor minha miséria; porque neste vale de lágrimas ocorrem muitos males que me perturbam, me afligem, e anuviam minha alma.

Muitas vezes me fatigam e me impedem; apoderam-se de mim, envolvem-me, e, impedindo-me um acesso para junto a vós, privam-me desses deliciosos abraços de que sempre e sem obstáculo gozam os espíritos celestes. Toquem-vos os meus suspiros, e minha desolação nesta terra.

“Ó Jesus, esplendor da eterna gloria!”

Consolação da alma exilada! Minha boca está muda ante vós, e meu silencio vos fala. Até quando tardará em vir o meu Senhor? Venha a este pobre que é seu, e restitua-lhe a alegria; estenda a mão para levantar um miserável sepultado na angustia. Vinde, vinde! Porque todos os dias, todas as horas se passam na tristeza, porque só vós sois a minha alegria, e só vós podeis encher o vácuo do meu coração. Oprimido estou de misérias, e qual prisioneiro carregado de ferros, até que me reanimeis com a luz da vossa face, e me restituais a minha liberdade, e lanceis sobre mim um olhar de amor.

Que outros busquem, em lugar de vós, tudo quanto eles quiserem; a mim nada me agrada, nada me agradará nunca senão vós só, ó Deus meu! Minha esperança! Minha eterna salvação! Oh! Atraí-me todo a vós cada vez mais. Minha alma suspira por vós. Ai! Pobre alma; ela saboreou os prazeres do mundo, e neles só amargura encontrou, a gloria e as honras fatigam-na sem a contentar; as riquezas deixam-na vazia e sempre inquieta; o mundo todo não pode satisfazê-la; ele deseja sempre alguma coisa maior e melhor. Vós só, Senhor Deus meu, podeis saciar todos os seus desejos: atraia-a pois a vós para sempre. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Das Orações Jaculatórias

Duas práticas há, mui conhecidas de todas as almas piedosas, e eu te convido, meu caro Teótimo, a que te familiarizes com elas; são: primeiro a comunhão espiritual de que te falarei no capitulo seguinte, e depois o habito de elevar amiúde o coração a Deus por aquilo que se chamam “orações jaculatórias”. É coisa certa que poucas práticas contribuem tanto como estas duas para tornar uma alma unida a Deus e habitualmente recolhida. Começa por te acostumares a ver sempre a Deus presente diante de ti, e a entreteres-te familiarmente com ele como com o melhor amigo. Abre-lhe o coração, fala-lhe de todos os teus dissabores, de tuas alegrias, de teus temores. Para isto não tens necessidade de o ir procurar longe: ao pé de ti o tens sempre: se trabalhas, se andas, se estás sentado, ele nem um instante te deixa; se dormes, ele coloca-se a teu lado, assenta-se de alguma sorte em teu travesseiro, para melhor velar sobre ti. Dize-lhe muitas vezes:

“Ó meu Deus! Amo-vos de todo o meu coração”

Sabe aproveitar-te de tudo para elevar tua alma a esse bom Pai e te excitarás ao seu amor. Quando, por exemplo, se te oferece uma bela campina, um sitio agradável, dize:

“Meu Deus, como vossas obras são belas!”

Ou antes:

“Senhor, as vossas obras têm tanta beleza; que deveis ser vós mesmo?!”

À vista de um castelo, de um magnifico palácio, dize:

“Ai! nestes palácios não é que ordinariamente se acha a verdadeira felicidade; essa só habita no coração dos que vos amam, ó meu Deus!”

Ou então:

“O que são estes palácios brilhantes de ouro e pedrarias em comparação do Céu? Ó meu Deus, dai-me o vosso paraíso”

Quando diante de ti se falia de riquezas, glorias, honras, dize:

“Ó Deus meu! Vós só me bastais; sois todo o meu bem e toda a minha gloria”

Se vês um pobre pecador que ofende a Deus, dize:

“Ó Jesus, tende piedade deste homem”

Em seguida tornando a ti mesmo, dize:

“Ai! Eu ainda faria pior, se me abandonásseis à minha fraqueza. Bendita seja a vossa misericórdia!”

Quando acontece alguma desgraça, ou alguma coisa que te aflige, dize:

“Meu doce Jesus, vinde tomar parte na minha dor e aliviar-me, vós bem vedes o quanto sofro”

Assim também quando estás na alegria convida Nosso Senhor a vir partilhar contigo o teu contentamento. Exemplos destes poderia eu multiplica-los até ao infinito, mas se tu amas a Jesus não é preciso estar a sugerir-te o que lhe deves dizer: teu coração saberá inspirar-te. Mas é particularmente quando cometeste alguma falta que é preciso elevar o coração a Deus afim de evitar a perturbação e desassossego que só do inferno é que vem. Lança-te com toda a simplicidade aos pés de Jesus, confessa-lhe a tua falta com a mesma candura que um menino confessa à mãe a sua, e dize-lhe:

“Eis, ó terno Mestre! Ó meu melhor amigo! Eis do que eu sou capaz: prometo-vos ser-vos fiel, e a cada instante vos ofendo. Ah! Perdoai-me ainda esta falta, porque eu me arrependo dela e vos amo, e vinde em meu socorro afim que doravante não vos cause outro desgosto”

Depois desta curta oração conserva-te em paz corno se não houveras pecado. Se cem vezes deves repetir a mesma súplica, humilha-te, conforma-te e dize sempre:

“Meu Jesus, apesar de minhas quedas continuas não quero cessar de amar-vos e de ter confiança em vós; sim, sim, meu Deus, eu vos amo”

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 290-294)