Capítulo XIII

Remittuntur et peccata multa, guoniam dilexit multum – “Perdoados lhe são seus muitos pecados porque amou muito” (Lc 7, 47)

Poucas historias há no Evangelho que mais consolador exemplo nos deem da misericórdia de Jesus, nosso bom Mestre, como a de Santa Maria Madalena. Tenho para mim que ninguém pode ser esta historia sem ser penetrado de ardente desejo de amar um Deus tão compassivo e sempre tão disposto a perdoar a um pobre pecador que lhe vem testemunhar o seu arrependimento. Contemo-la pois em toda a sua simplicidade.

“Um Fariseu rogava a Jesus que fosse a comer com ele. E havendo entrado em casa do Fariseu se assentou à mesa. E no mesmo tempo uma mulher pecadora que havia na cidade, quando soube que estava à mesa em casa do Fariseu, levou uma redoma de alabastro cheia de balsamo e pondo-se a seus pés (1) por de traz dele começou a regar-lhe com lágrimas os pés, e os enxugava com os cabelos da cabeça, e lhe beijava os pés e os ungia com balsamo”


Pobre pecadora! Ela sentia-se acabrunhada sob o peso de tantos pecados; seus remorsos a remordiam cruelmente; mil paixões que há tanto tempo nutrira em seu coração, nele levantavam medonha tempestade; não sabia o que fazer de si, senão quando ouve que Jesus está em casa de um Fariseu. Jesus! Ele que me dizem que é tão bom, ele que cura os doentes, ele que consola os aflitos, ele que a todos faz bem! Jesus! Ah! Pois vou lançar-me a seus pés, diz a infeliz pecadora. E lá foi, e chorou … Ó meu Deus! Como é doce e consolador para um pecador chorar assim aos pés de Jesus! Nada diz, nada pede, contenta-se com chorar e fazer conhecer por suas lágrimas seu arrependimento e seu amor. Jesus, meu bom Mestre, dai-me a graça de assim chorar enquanto viver.

“E quando isto viu o Fariseu que o tinha convidado, disse lá consigo fazendo este discurso: Se este homem fora profeta, bem saberia quem, e qual é a mulher, que o toca, porque é pecadora.”

Nada conhecia este Fariseu da bondade e compaixão de nosso divino Salvador que lhe diz:

“Um credor tinha dois devedores; um lhe devia quinhentos dinheiros, e outro cinquenta. Porém não tendo os tais com que pagarem, restituíram-lhe ambos a divida. Qual pois o ama mais? Respondendo Simão disse: Creio que aquele a quem o credor perdoou maior quantia. E Jesus lhe disse: Julgastes bem. E voltando para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, não me deste agua para os pés; mas esta com as suas lágrimas regou os meus pés, e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo: mas esta desde que entrou, não cessou de me beijar os pés. Não ungiste a minha cabeça com balsamo : e esta com balsamo ungiu os meus pés. Pelo que te digo: Que perdoados lhe são seus muitos pecados, porque amou muito. Mas ao que menos se perdoa menos ama”

Ó meu Jesus, quanto não devo pois amar-vos eu, pobre pecador, a quem tantas faltas remistes, a quem perdoastes tantas ingratidões! Quanto não devo amar-vos!… Mas ai! Amo-vos tão pouco que até coro de vergonha. Bom Jesus, eu vo-lo suplico, tende de mim piedade e dai-me o vosso amor. Porque de há tanto tempo sois insensível às minhas penas? Quero amar-vos, sinto que vos amo, mas ai! não é bastante. Ó Deus da minha alma! ou sede menos amável, ou dai-me mais amor.

“E disse-lhe Jesus a ela: Perdoados te são teus pecados”

Feliz Maria Madalena!
Tinha compreendido o coração de Jesus, adivinhara toda a sua misericórdia para com os pecadores, e sem duvida ela já esperava esta resposta da sua boca:

“Perdoados te são teus pecados”

Oh! Que doce não é ouvir sair estas palavras da boca de Jesus! Meu bom Mestre, terno amigo da minha alma, eis-me também como a Madalena a vossos pés; dignai-vos lançar sobre mim olhos de bondade e dizer-me como a ela:

“Meu filho, perdoados te são teus pecados”

“E Jesus disse ainda a esta mulher: A tua fé te salvou, vai-te em paz”

A santa penitente, cheia de reconhecimento para com tanta clemencia e misericórdia, uniu-se a Jesus, resolveu-se a segui-lo por toda a parte com outras santas mulheres, partilhar quanto pudesse as suas penas, as suas fadigas e acudir à sua subsistência.

Nunca mais o deixou: e quando soube que fora preso pelos judeus, seguiu-o no sangrento curso da sua paixão. Que coragem aquela! Quase todos os Apóstolos covardemente haviam abandonado o seu Mestre; Pedro três vezes o negara; mas esta mulher afronta as injurias e ameaças dos soldados, as chufas da multidão, para se não separar do seu Salva¬dor; ela sobe ao monte Calvário, ela põe-se ao pé da Cruz e ali derrama em abundância lágrimas de compaixão e amor… Ó meu Deus! quem me dera a graça de como ela chorar! Quem me dera a graça de constantemente permanecer aos pés da Cruz de Jesus, afim de lhe provar o meu amor! … Meu doce Salvador, ouvi a minha oração e dai-me o vosso amor. Nem riquezas, nem honras, nem prazeres vos peço; o que eu quero é o vosso amor, é a graça de sempre convosco ficar sobre a cruz, é a graça de morrer à força de amar-vos.

“No primeiro dia da semana veio Maria Madalena ao sepulcro de manhã, fazendo ainda escuro, e viu que a tampa estava tirada do sepulcro”

Depois de haver Jesus exalado o último suspiro, depuseram o seu corpo num sepulcro aberto numa rocha ; para aqui é que, guiada do seu amor, se dirige Maria Madalena no dia seguinte ao sábado mui cedo ainda afim de o embalsamar. Adianta-se, senão quando conhece que já ali se não achava o seu Mestre … Que golpe este para o seu coração ! Em sua angustia “correu pois, e foi ter com Simão Pedro e com outro discípulo a quem Jesus amava, e disse-lhes: Levaram o Senhor do sepulcro e não sabemos onde o puseram”. Nisto foram os dois Apóstolos com ela ao sepulcro, não acharam Jesus e voltaram-se para casa.

Maria Madalena não se pôde resolver a segui-los :

“Conserva-se em pé da parte de fora chorando junto do sepulcro”

Ai! Se ela viera na esperança de encontrar o seu Mestre e não o acha! Agora a quem recorrer? Se tudo a abandonou! E nada mais lhe resta que dores e lágrimas. Ah! E quantas não derramou ela! Quantas e quantas vezes não repetiu ela o seu adorável nome! Ó meu Deus! E que bela
lição para nós! Se como a Madalena procurássemos a Jesus; se depois de havermos pelo pecado perdido a sua graça ou pela tibieza as consolações do seu amor; se como ela nós sentíramos a grandeza da nossa perda; se como ela persistíssemos em buscar Jesus; se com brados e lágrimas o chamássemos, como ela o acharíamos e com uma abundância de alegria que sobrepujaria todas as nossas esperanças.

“E ao tempo que ela chorava, abaixou-se e olhou para ver o sepulcro. E viu dois anjos vestidos de branco assentados no lugar onde fora posto o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. Os quais lhe disseram: Mulher, porque choras? Respondeu-lhes ela: Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram. Ditas estas palavras olhou para traz e viu Jesus, em pé, sem saber contudo que era Jesus. Disse-lhe Jesus: Mulher, porque choras? Ela, julgando que era o hortelão, disse-lhe: Senhor, se tu o tiraste, dize-me onde o pusestes e eu o levarei”

Veja-se que amor o desta mulher para com seu divino Mestre: Não o perdeu e eis que o pede ao céu e à terra:

“Não vistes aquele que meu coração ama?”

Se ela não vê o seu Jesus, se ela não pode provar-lhe o seu amor por seus cuidados e atenções cheias de respeito, como há de ter repouso? Não pode passar sem o achar.

Ó meu querido Redentor! Terno amigo, dai-me, eu vos suplico, um coração capaz de vos amar tanto como mereceis. E a quem amarei eu na terra e nos céus se a vós não amo? Sim, eu o sinto, o vosso amor vai-me consumindo lentamente, e eu morro de pesar por não poder amar-vos mais. Meu Deus, meu Deus, amo-vos e quero amar-vos sempre.

“Disse-lhe Jesus: Maria. Ela, voltando-se, disse: Rabboni, que quer dizer — Mestre.”

Quem poderá dizer a alegria que transportou Maria Madalena quando reconheceu a Jesus? Dá um grito e lança-se a seus pés; é o que se pode fazer; seu silencio e suas lágrimas faliam mais ao coração de Jesus que todas as palavras do mundo.

— Ó bom Jesus! Permiti que vos abra o coração e vos diga quanto me comove e consola o modo como tratastes a Maria Madalena. Vejo em vosso Evangelho que a ela é a quem primeiro aparecestes depois da vossa ressurreição; então esquecestes-vos já de que ela foi outrora pecadora e com seu procedimento escandalizou toda uma cidade?

— Bem verdade é, filho meu, que Maria Madalena me ofendeu, mas soube reparar os seus desvarios pela constância e ardor do seu amor. Ó meu filho! Quantos primeiro foram grandes pecadores e depois pelo seu arrependimento, pelo acrisolado do seu amor mereceram os meus mais assinalados favores! De uma alma que me ama, eu facilmente esqueço a maior multidão de seus pecados.

Ó meu doce Jesus! Quantas vezes, desde que nesta terra estou, vos ofendi eu? Quem contar pode¬ria a multidão dos meus pecados? Mas, ó terno amigo, ó meu bom mestre! tende piedade de mim, esquecei minhas ofensas, que arrependido eu estou, e vos amo. Sim, amo-vos, ó Deus do meu coração, e vos peço a graça de vos amar até ao ultimo suspiro e por toda a eternidade. Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Excitar-nos à Confissão pelo uso frequente do Sacramento da Penitência

Sempre que do sacramento da penitencia te aproximas, excita em tua alma um grande pesar de todas as tuas faltas, sobretudo das faltas mortais da vida passada ; que a teus olhos, meu caro Teótimo, sempre estejam presentes estas faltas:

1. Para por elas continuamente te humilhares e extirpares os orgulhosos pensamentos que em teu coração se possam suscitar;
2. Para deles pedires perdão a Deus; ao coração de Nosso Senhor nada lhe agrada tanto como o arrependimento saído de uma alma de há muito purificada;
3. Mas mais que tudo, para nos excitar ao amor do nosso bom Mestre; é impossível não o amarmos, quando pensamos que tantos pecados nos perdoou. Quando receberes a absolvição procura diligentemente que tua alma ponha uma confiança extrema na misericórdia do Senhor, e não digas como tantas outras almas tímidas:

“Quem sabe se os meus pecados estão perdoados?”

Mais vale um ato de confiança na bondade e misericórdia de Jesus, quando para bem nos confessarmos nada omitimos, do que todos esses temores que 0 mais que podem fazer é impedir-nos de avançar no amor de Deus. Toma, pois, o habito de fazer, depois de cada confissão, um ato de confiança e repelir todos os temores que te possa sugerir o demônio.

Observações:
1. A postura que então à mesa se guardava tornava- lhe isso fácil; estava-se a ela deixado em leitos feitos de propósito com a cabeça para a mesa e pés para fora.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 101-107)