Capítulo VIII

Et verbum caro factum est – “E o Verbo se fez carne” (Jo 1, 14)

Preenchidos eram os tempos, e Deus ia manifestar aos homens toda a plenitude de seu amor, para com eles. O Redentor tanto tempo desejado, tão ardentemente pedido, tão impacientemente esperado; esse Redentor, objeto de tantos votos e suspiros ia aparecer.

Tudo era disposto para a encarnação do Verbo. O Anjo Gabriel é enviado à terra pelo Rei dos reis.

Com a rapidez do relâmpago corta os ares, dirige-se a uma pequena cidade da Judéia, chamada Nazaré, e com profundo acatamento se apresenta diante de uma donzela pobre e do mundo ignorada; era porém modesta e humilde, era casta e sem mácula; Maria se chamava. Saúda-a, dá-lhe parte da sua embaixada, e pergunta-lhe se consente em ser mãe de Deus.

A humilde Virgem perturba-se e hesita; assegurada porém pelo anjo de que com tornar-se mãe de Jesus não perderia o inapreciável tesouro da virgindade, dá o seu consentimento; e no mesmo instante o Verbo divino se fez homem; é em seu seio formado por operação do Espírito Santo: Et Verbum caro factum est.

Ó prodígio que céus e terra transportou de admiração! Fazer carne o Verbo! Fazer-se homem um Deus! Que diríamos se víssemos um rei tomar a forma de um verme, para por sua morte dar a vida a este misérrimo bichinho? De assombrados não acharíamos termos. Pois é isto o que por nós fez Jesus, soberano monarca do céu e da terra, nosso Criador e nosso Deus. Mas que digo? Muito mais longe ainda ele foi, porque enfim entre um verme e um rei, bem que haja grande diferença, sempre não é infinita; sendo que entre Deus e o homem, Deus e um rei, Deus e todo o universo, não há distância imaginável. E não obstante, ó maravilha! Deus fez-se homem, Deus é homem, Deus será homem para sempre!

Oh! Que se nós soubéramos quem é Deus, se bem compreendermos o que é a sua alta majestade, ao falar da Encarnação do Verbo, ou ao pronunciar o nome de Jesus que a exprime, ao dizermos com a Igreja: “O Verbo se fez carne” – Verbum caro factum est, prostrar-nos-íamos, desejaríamos abater-nos até ao fundo da terra, abismar-nos no centro do nada, para a tão altíssimo mistério tributarmos uma honra devida.

O Verbo se fez carne. Ó incompreensibilíssimo amor de Deus para conosco! Ó Jesus, que excessiva é vossa ternura! Como Deus não podíeis morrer, mas fizestes-vos homem sujeito à morte a fim de por nosso amor poderdes dar a vida. Éreis filho de Deus, exclama Santo Agostinho, e fizestes-vos filho do homem, para nos elevardes a nós, pobres nadas, à dignidade de filhos de Deus; quisestes partilhar nossos males para dos vossos bens nos fazerdes participantes. Ó Jesus! Bom Jesus! Sejais para sempre bendito e louvado por essa infinita caridade que para conosco houvestes.

Mas, diz o apóstolo São Paulo, o que mais faz brilhar o amor de Deus para conosco o que mais irresistivelmente deve estimular o nosso reconhecimento, é que Jesus Cristo morreu por nós ainda quando éramos pecadores. Éramos seus inimigos, e ele fez para conosco o que jamais ousaremos pedir-lhe, fossemos nós os seus maiores amigos. Que não admirará, exclama São Gregório, esta sublime misericórdia do nosso Deus? Nem da honra de escravos seus éramos dignos, e ele trata-nos como amigos. Vem, acrescenta São Máximo, bispo, vem lá do alto dos céus a esta terra de exílio e lágrimas, a fim de consigo nos elevar à habitação da eterna bem-aventurança. A um amor tal quem poderá resistir? A um Deus que tão ternamente nos ama quem poderá recusar-lhe o coração?

Que coisa mais pode abrasar nossas almas do que a vista de um Deus por nosso amor feito homem ainda quando éramos os seus mais cruéis inimigos?

Ah! Exclama aqui o piedoso Thomaz de Kempis, que se para com seus inimigos é Jesus Cristo tão bom, o que não há de ele ser para com os que de coração o servem e amam? Ó meu Jesus, meu Deus, meu amor! Se assim com tão extremosa bondade todo vos destes a mim, fazei, eu vo-la suplico, fazei que eu seja enfim todo vosso. Dilatai-me em vosso amor, para que em meu coração experimente as suavíssimas delícias e doçuras que tendes guardadas para quem vos ama e em vosso amor todo se abisma. Arrebata-me o amor, acima de mim mesmo me eleve pela vivacidade de seus transportes. Oh! Que eu cante o cântico do amor! Que a louvar-vos todas as forças da minha alma se extingam, e de alegria e amor desfaleça a mesma alma. Ó meu Jesus, amo-vos de todo coração neste vale de lágrimas, para que um dia vos ame perfeitamente lá nesse belo céu para onde me chamais; que eu vos ame! Este é brado do meu coração, que eu vos ame, ó Jesus meu!

Mas o mistério da Encarnação não é só um prodígio de amor, portentos de humilhação encerra também em si. Aquele a quem no céu milhões de anjos adoram incessantemente repetindo:

“Santo, Santo, Santo, o Senhor todo poderoso, o Deus dos exércitos, o céu e a terra estão cheios da sua glória”

Aquele a quem terra, mares, astros, acatam e adoram. Aquele a quem tudo obedece, e que todas as coisas governa encerrado no ventre de uma Virgem, e não se envergonhar nem se horrorizar de tal! Ó abatimento tanto mais estupendo quanto da natureza divina à humana vai uma distância infinita! Exclamemos pois:

“Ó Jesus! Verdadeiramente sois um Deus escondido!”

Mui pouco é dizer:

“Sois um Deus humilhado, um Deus eclipsado, um Deus aniquilado!”

Novos termos são precisos para poder exprimir um prodígio tão estranho de humildade.

Homens, quem quer que sejamos, cinza e pó, nada e pecado; exaltemo-nos agora; mostremo-nos, tenhamo-nos em grande conta, disputemos os primeiros postos, ambicionemos os lugares distintos, murmuremos de não ter nascido com mais nobreza, mais poder, mais talentos naturais. Tenhamos ainda repugnância em sofrer que nos olhem como uns miseráveis, ignorantes, imprudentes, viciosos, enquanto por nosso amor Jesus Cristo quer aparecer na terra, pobre, humilde e aniquilado. Durante nove meses habitou Jesus Cristo no seio de Maria; e nesta prisão é que Deus, a mesma grandeza e sabedoria, ficou oculto e incógnito a todo o mundo. Que lição! Assim obrou este divino Salvador para nos ensinar a moderarmos o natural desejo que temos de aparecer, e para de bom grado passarmos nossa vida neste pequeno canto de terra, nesta função baixa e abjeta, em que parecem menosprezados nossos talentos, e em que de nós ninguém faz caso. Assim quis ele humilhar-se e aniquilar-se até este ponto, com ser Deus, a fim de que nosso orgulho não houvesse por indigno imitar os vestígios de um Deus! Ó meu Jesus, meu amor! Não permitais se apodere de mim o espírito de orgulho. Que! Não seria insofrível desaforo, depois de assim vos ver humilhado, eu, um verme como sou, procurar exaltar-me e aparecer! Tal não permitais, Senhor Jesus, eu vo-lo suplico.

Escuta, filho meu, a voz do teu Deus aniquilado por teu amor. Se o orgulho se levanta em teu coração e te grita: Faze-te conhecer ao mundo, muito mais bem poderias fazer em tal estado, em tal lugar, em tal função, naquele posto elevado; talentos para isso não te faltam; não escutes, ó filho, as suas palavras; são sibilos da infernal serpente. Aprende a servir-me como eu quero ser servido. Se quero que tu caminhes sobre minhas pegadas, pelo desprezo, pelo esquecimento dos homens, passando uma vida oculta, exercendo baixos e vis ministérios, se quero que me honres com a perda e esterilidade do teus talentos, antes que pelo uso orgulhoso que deles farias, ousarás dizer-me: Porque assim me fizeste? Não tinha o oleiro poder de fazer da mesma massa de orgulho um vaso destinado a usos vis e desprezíveis? Ó filho meu! Ama o viver incógnito, e não ser contado por nada. Por melhor que os outros nunca te hajas, com receio de que te não vá julgar pior Deus que conhece o que há no homem: Em te pores abaixo dos outros nada arriscas; ser-te-ia funestíssimo preferires-te a um só. O homem humilde goza de uma paz inalterável; a cólera e inveja perturbam o coração do soberbo. Deus protege o humilde, e o consola; inclina-se ao humilde e lhe prodigaliza suas graças; e depois da humilhação, à glória o eleva. Não te capacites, filho, que hás feito progressos na virtude, quando abaixo de todos te não julgues. Senhor Jesus, arrancai do meu coração, eu vos peço, este orgulho que como tirano nele reina, pela santa humildade substitui seu lugar, substitui-o por essa virtude tão bela de que na vossa encarnação destes tão tocante exemplo.

Que apesar de todas as razões que tem o homem de se humilhar, seja ainda orgulhoso, miséria é bem deplorável; mas que um Deus por nós se humilhe até se fazer homem é uma misericórdia que nunca assaz poderemos admirar. Ó Jesus, possa eu aproveitar-me dessa grande misericórdia! Possa utilizar-me da lição que me dais! Ah! Por vossa santa graça vos peço fazei-me humilde, que sem vós não o posso ser; dai-me a humildade, mas sobre tudo o vosso amor. Ah! Meu doce Redentor, à vista de todas as graças de que me enriquecestes, à vista do amor imenso que me testemunhastes, como é possível não expire de dor e arrependimento de tão ingrato vos ter sido? Vós a descer do céu para me buscar, e eu, pobre ovelha desgarrada, a repelir-vos para longe de mim! A preferir-vos tantas e tantas vezes prazeres tão indignos! Ó Jesus meu! Quereis-me possuir, não é assim? Pois bem, tudo abandono, e só quero ser vosso, todo vosso. Para único objeto de minhas afeições vos elegi: Dilectus meus mihi et ego illi. Vós em vós pensar.

Uma vez que vos ame, de boa vontade consinto em ser privado de toda a consolação sensível, e até em ser atribulado com toda a sorte de miséria. Bem vejo, Senhor, quereis que seja todo vosso; sim, todo e sem reserva vos quero pertencer. Mentira, decepção, fumo, lodo, e vaidade são todas as coisas do mundo; vós só sois o único, o verdadeiro bem, vós só podeis saciar-me. Meu Deus, nada mais quero que ser vosso. Dignai-vos, Senhor, escutar a minha voz: Só a vós quero e a nada mais. Vinde, vinde ao meu pobre coração; conosco nada eu temo, convosco sou rico, convosco sou forte, convosco sou o que quereis que seja. Vinde pois, Senhor Jesus, vinde. Amem, assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Da Humildade

O “Verbo se fez carne!”, é este exemplo de humildade bem capaz, com o auxílio da divina graça, de curar o nosso orgulho; saibamos aproveitar-nos dele. Virtude sólida, cristã, digna do céu, não há sem a humildade, impossível nos é sem ela caminhar muito tempo no caminho reto. Quereis saber, diz Santo Agostinho, qual é a primeira virtude de um cristão que caminha à perfeição? Pois bem, a primeira virtude é a humildade, e sempre direi que é a humildade. De todas as mais virtudes esta é a base sólida e a guarda. Assim como o orgulho é princípio de toda a sorte de pecados, assim é a humildade fonte de toda a virtude; ela é quem as nutre, quem as protege e sustém. Quem sem esta virtude pretende amontoar méritos, diz São Gregório, nada mais faz do que atirar poeira ao vento. Se esta virtude vacila, todas as outras estão prestes a cair em ruína. Com a humildade nos fazemos uns como anjos, a soberba fez dos anjos demônios.

Vê agora, meu caro Teótimo, que ideia deves ter da humildade, sua importância, sua necessidade vê com que ardor te deves deitar a adquiri-la. Os meios de a alcançar são:

Pedi-la incessantemente a Deus, pois só ele pode dar-nos dom tão precioso.

Pensar muitas vezes em tuas faltas passadas e misérias presentes; que aqui de certo hás de encontrar coisas que te humilhem.

Sofrer com paciência, que te desprezem, te humilhem e de ti façam pouco caso. Sem humilhações, diz São Boaventura, não se pode chegar à humildade. Se pois desejas ser humilde, entra na via da humilhação, porque se não queres ser humilhado, nunca terás a humildade. Com resignação senão com alegria aceita todas as humilhações que no comércio da vida se encontram, de todas tira lucro.

Não procures aparecer; o homem verdadeiramente humilde preza muito o ser ignorado. De ti mesmo, de teus talentos e luzes tem sentimentos baixos; pelo último dos homens te reputa.

Sem dúvida que bem difícil é obter tudo isto; mas não descoroçoes, que contigo está Jesus. Faze hoje todas as ações na tensão de adquirir a humildade. Ora pelos que te humilharam, e talvez procurem ocasião de o tornar a fazer: sim, ora por eles; que grande é o serviço que te fazem. Não vás desafogar-te em queixumes contra eles; ir-se-ia assim o fruto de tuas humilhações; sofre, perdoa, esquece. Seja sincera a tua humildade; humildade fingida e contrafeita é orgulho diabólico. Sê humilde, não para o pareceres, mas somente por saberes que a humildade agrada ao coração do nosso bom Mestre. Sê humilde, mas não procures figurar-te humilde. Muita cautela! Olha, o amor próprio em tudo penetra, e acabará por te arrebatar também a humildade. Sê humilde, mais uma vez te repito, ou faze tudo quanto importa para adquirir a humildade; e depois todo te abandona ao Coração de Jesus. Quem na sua alma quer conservar o precioso tesouro da humildade, deve com todo o cuidado oculta-lo aos olhos dos homens e até aos seus.

Voltar para o Índice do livro As Chamas de Amor de Jesus

(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 52-59)