Capítulo IX

Semetipsum exinanivit formam servi acciplens in similitudinem hominum factus – “A si mesmo se aniquilou tomando a forma e a natureza de escravo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fl 11, 7)

Extraordinário acontecimento é o que se está preparando. Todo o mundo vai ser testemunha de um prodígio grande e novo, de um mistério que jamais compreenderá, de um portento de humildade e amor que por toda a eternidade penetrará de pasmo os Anjos e Santos no céu. Vai nascer nesta nossa terra – um Deus feito homem. Santos anjos do paraíso, e vós, habitantes da terra, já, já sem demora, apressai-vos a dispor para este divino infante um palácio e um berço dignos de sua alta majestade. Eia! Que não haja demoras… mas o que?… Ó meu Deus! Ó meu Deus! Que admiráveis são os vossos desígnios! Oh! Que alheios são os vossos juízos do pensar do pensar humano! O nosso Redentor veio para o que era seu e os homens não o quiseram receber. Bem longe de ter palácios à sua disposição nem um lugar sequer puderam arranjar-lhe quando chegou.

As hospedarias os ricos as tinham enchido, um curral abandonado e deserto é o que há para Jesus, é neste palácio que ele vai nascer, de berço servir-lhe-á uma manjedoura. É isto realidade! Quê! O Filho único de Deus onipotente, ele mesmo verdadeiro Deus como seu Pai, tornar-se menino, e reclinar-se sobre uma pouco de palha num presépio! Oh! Que bem verdade é o dizer-se que ele se aniquilou a si mesmo! Semetipsum eximanivit! Um Deus num presépio!!!

Salomão, o mais sábio dos reis de Israel, empregou sete anos a levantar um templo à glória do nome de Deus; prata, ouro, pedrarias nele refulgiam de todas as partes; nunca em lugar algum se viu magnificências tão extraordinárias, nem tão espantosas prodigalidades: e bem, ao acaba-lo, exclamou este grande rei: É crível que Deus queira habitar neste templo, e ficar conosco sobre a terra? Se o céu e os céus dos céus não o podem conter, quanto menos esta casa que edifiquei! Esta foi a linguagem de Salomão. Ó cristãos! Ora dizei-me, quando nós vemos o nosso Deus nascer num presépio, não é de nosso dever exclamar: Que é isto! O grande Rei do céu e da terra quer nascer num curral! Repitamos estas palavras e meditemo-las atentamente: Um Deus num curral!!! E por amor nosso!!!

Ó meu Jesus, meu terno amigo! Seria possível que me procurasse ainda exaltar, eu cinza e pó, depois de a tal ponto vos ver humilhado! Certamente que não. De todo o meu coração vou sinceramente trabalhar em fazer-me humilde, porque sei que amais a humildade; desde já vou por mãos à obra. Vós, ó meu bom Mestre! Ajudai-me, sustentai a minha fraqueza e derramai superabundantemente em meu coração o balsamo do vosso amor; só ele poderá curar as profundas chagas que aí abriram o orgulho e tantas outras paixões; oh! Por quem sois não m’o recuseis! Ame-vos eu e a minha alma será curada.

Suponhamos agora que não sabemos quem é este pobre menino que no presépio de Belém divisamos, e interroguemos a fé; responder-nos-á: Este é o filho de Deus, e ele mesmo verdadeiro Deus também. Sim, este recém-nascido tão fraco e tão pobre, na aparência tão desprezível, aquele mesmo é que lançou os fundamentos da terra; aquele a quem esta terra serve de escabelo e em presença de quem todos os mortais não passam de vis insetos, aquele que estendeu os céus como uma cortina, e os desenrolou como um pavilhão para o homem; aquele cujo poder é infinito e que é terrível sobre tudo o que rodeia, aquele cujas maravilhas os céus publicam, e cuja glória brilha na assembleia dos santos; aquele que domina o orgulho do mar e que de um só olhar seu apazigua as suas indignadas ondas; aquele enfim que no mais alto dos céus elevou seu trono, e que manda a todos os reis da terra. Num presépio acaba de nascer, mas céus e terra lhe pertencem; estreita manjedoura que apenas o pode conter é seu leito; mas de sua imensidade enche os céus e a terra; é pobre menino de um dia, mas de todas as eternidades ele é Deus; em vis e rotos farrapos está envolto, mas é ele quem às flores dá seus enfeites, quem dá à natureza seus encantos. Sabeis, ó homens, quem o reduziu a um estado tão miserável e tão humilhante? O imenso amor que nos tem. Ó amor! Ó amor de um Deus pelos homens; que mal conhecido que tu és! Ó Deus tão amoroso, que poucos cristãos correspondem à vossa ternura!

Que o exemplo de um Deus nascido num presépio, de tudo desprovido, te ensine, alma minha, a amar a pobreza, que aquele frio tão pacientemente sofrido te ensine a amar a mortificação que aquelas lágrimas por teus pecados derramadas te ensinem a chorar sobre ti mesma. Ah! Para te extrair do nada uma só palavra lhe basta; mas olha, para te remir, o quanto chora, o quanto geme; e em breve o verás derramar até à última gota do seu sangue. Pudesses tu pela grandeza do remédio compreender quão profundas e difíceis de curar foram as chagas que o pecado te abriu! Pudesses tu conceber quão ardente foi o amor do teu Salvador! Pudesses, pudesses tu amá-lo de todas as tuas forças, e quanto possível te fosse!

É pois verdade, ó meu rico Jesus! É verdade haverdes vós nascido num presépio, no seio da mais completa pobreza? É verdade haverdes vós passado toda a vossa vida em sofrimentos para me fazerdes compreender que amor me tendes? É ainda certo também que eu, criatura ingrata, toda a vida levar a encher-vos de amarguras com os meus pecados?

Ah! Eu vos peço me façais compreender o grande mal que cometi e o grande amor que me conquistastes. E se até ao presente com tanta bondade me suportastes, fazei-me, Senhor, a misericórdia de para vós voltar sem a mínima demora, e não permitais que eu caia outra vez para o futuro na desgraça de tornar a ofender-vos. Todo, todo me abrasai dos incêndios do vosso santo amor, e concedei-me a graça de sempre haver presente quanto por mim sofrestes, assim que doravante de todas as criaturas me esqueça e só em amar-vos e agradar-vos me preocupe. Do céu à terra vós baixastes para sobre o nosso coração fundardes um reinado de amor; eia, pois, quem vos estorva! Arrancai-m’o, purificai-o de tudo quanto impedir-vos pode a sua total posse.

A vossa vontade fazei que seja a minha, que de todas as minhas ações e desejos seja a regra. Oh! Sim, Deus meu, concedei-me a graça de em tudo e por tudo sempre cumprir vossa santíssima vontade, e de generosamente vos sacrificar a minha, custe o que custar. Não permitais mereça eu a exprobração que aos Judeus outrora dirigíeis pela boca do vosso profeta: Que necessidade tenho eu de vossos jejuns e sacrifícios? Já deles estou saciado; já não posso suportar o vosso incenso; está manchado a meus olhos. Todas as vossas pretendidas boas obras as reprovo, porque são fruto da vosso própria vontade. Do fundo d’alma vos exoro, Deus meu ensinai-me a fazer a vossa santa vontade e dai-me a graça de até ao meu último suspiro sempre a guardar! Amem; amem; assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

Estima e Amor da Pobreza

Felizes os que possuem riquezas! Ditosos os que se podem escapar às humilhações e provações da pobreza! Assim fala o mundo. Meu Deus! A linguagem de Jesus Cristo é tão diferente desta! Ai de vós, ricos, exclama ele. Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus! Agora a verdade de que lado há de estar? A felicidade de que lado se encontrará? Ah! Que dúvida a por, se Jesus falou!

Meu caro Teótimo, tu dos bens deste mundo ou és rico ou és pobre. Se possuis riquezas, é desprender delas o coração; aliás, bem vês, é a ti que Jesus Cristo diz: ai de vós, ricos! Da tua fortuna usa como se a não fruísses, possui-a como quem a não possuíra. No seio da pobreza derrama abundantes esmolas: ao órfão e viúva dá conforto. Este dia não o passes sem fazeres obra alguma de caridade; há tantos pobres e infelizes! Ó Deus! Que se os ricos bem soubessem usar dos seus tesouros que bens não poderiam fazer!

Se és pobre, longe de ti o murmurar contra a Providência; jamais esqueças que sobre a pobreza lançou Jesus Cristo um brilho divino. Ele, tu bem o sabes, também era pobre, pobre nasceu, pobre viveu, e pobre morreu. Aos ricos não invejes suas imensas possessões; ai! Bem longe estão elas de os fazer felizes. Do pouco que possuis te dá por satisfeito, e eleva teus olhos mais acima, ao céu; lá, lá é que, querendo tu, serão os teus domínios, lá os teus palácios, lá os teus tesouros. Para isso é sofrer com paciência as privações do teu estado; hoje, e não somente hoje, mas sempre, dize: Meu Deus, quereis que eu seja pobre e sofra, seja bendito o vosso Nome! Seja feita a vossa vontade! Dai-me o vosso amor, e já terei todas as riquezas.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 60-65)