Capítulo I

Dilexit non et tradidit semetipsum pro nobis – “Jesus Cristo nos amou e a si mesmo se entregou por nós” (Ef 5, 2)

Para atrair a si os corações dos homens e captar seu amor, havia-os Deus enchido de toda a sorte de benefícios; longe porém de corresponderem às suas solicitações e dar-lhe amor por amor, os homens ingratos nem sequer por seu Deus e Senhor o quiseram reconhecer; ante ídolos de pedra e madeira curvaram vergonhosamente a fronte, e às mais vis criaturas prostituíram suas homenagens e adorações. E se apenas num pequeno canto da terra, se na Judeia, era este Deus do universo como tal reconhecido por um povo que escolhera, ainda ali mesmo mais era temido do que amado.

Porém mais amado que temido quer ser Ele, e por isso fez-se homem como nós, e veio habitar na terra, passou entre nós uma vida pobre, laboriosa e desconhecida; entregou-se a uma morte cruel e ignominiosa: e isto para quê? Tudo para nos mostrar o imenso amor que nos tem e ganhar os nossos corações. Sim, não quis nosso divino Salvador nascer num curral e expirar numa cruz, senão para patentear o quanto nos ama e quanto de nós deseja ser amado.

Dilexit non et tradidit semetipsum pro nobis

O que seria de nós depois do pecado do nosso primeiro pai, se Jesus Cristo não se dignasse resgatar-nos? Ai! Abandonados à nossa fraqueza, escravos de nossas concupiscências, ter-nos-íamos precipitado em todo o crime, e passaríamos uma vida desgraçada. Esmagados sob o peso de um Deus irado, jamais sentiríamos o nosso coração palpitar de gozo com a doce esperança do céu, nunca haveríamos experimentado os encantos do amor divino, em tempo algum gozaríamos as doçuras da paz, fruto de uma consciência pura. Que pobres e miseráveis! Sujeitos sempre às nossas paixões, sempre em contínua guerra conosco e nossos semelhantes, só conheceríamos esta terra para a amaldiçoarmos, só deixaríamos esta testemunha de nossos males e lágrimas para cair nos abismos do inferno.

Que horrível sorte!

Por bem nosso, Jesus, bondade e misericórdia infinita, teve dó da nossa desgraça. Apesar da nossa revolta, amou-nos e consentiu em resgatar-nos. Se isto não fizera e nos deixasse vítimas do inferno que tínhamos merecido, não ficaria mais pequeno ou menos perfeito, sua felicidade em nada sofreria decrescimento. Excitado porém por seu amor, resolveu abrir-nos as portas do céu pelos mais penosos trabalhos, pelos tormentos mais horríveis, como se da nós dependera a sua felicidade. Sem sofrer nos poderia bem remir; não o fez porém assim; e dentre tantos meios que tinha para nos salvar preferiu Ele o mais humilhante e molesto, quis por sua própria morte livrar-nos da morte eterna, para por esta via mais direitos adquirir ao nosso reconhecimento e ao nosso amor.

Uma simples súplica de Jesus, uma só lágrima sua, uma gota do seu sangue precioso seria bastante para nossa salvação. Sim, diz São João Crisóstomo, para nos salvar fora bastante uma só lágrima de Jesus; porém, não era ela suficiente ao nosso Divino Salvador para nos mostrar o seu amor.

Para mais provado nos deixar o seu amor, e nos impor assim uma maior obrigação de o amarmos, é que Ele preferiu às honras e a uma vida de repouso e glória, os desprezos, vida pobre e morte cheia de dores e opróbrios.

Aqui está o quanto nosso Deus fez por nós! Eis como nos amou! E por Ele que havemos feito? Sempre somos muito ingratos! Jesus a coroar-nos de misericórdias e amor, Jesus a dar-se todo a nós, a sacrificar-se por nós, a fazer-se homem por nós, isso tudo para ganhar o nosso coração, e nós não o amamos! Pois que! Se nós amamos a um homem que nos dá algumas mostras de afeição; que digo? Se amamos até um cão que nos afaga, e só para o nosso Deus que nos enche de benefícios é que não teremos amor! Para excitar o nosso reconhecimento para com nossos semelhantes, uma só palavra amável, um sinal de bondade, um sorriso já é bastante; e Deus esgota todos os tesouros do seu poder e da sua sabedoria por nosso amor e nós não queremos corresponder à sua ternura! Ó céus! Quanto nos envergonharemos de una tão monstruosa ingratidão? Ainda virá o dia em que deixemos de opor friezas e desprezos ao infinito amor de Pai tão bom?

Ó meu doce Jesus! Permiti-me o dizer-vo-lo: não, não quero para o futuro ser ingrato como até aqui; d’ora em diante só quero amar-Vos de todo o meu coração. Possa, ó Salvador meu, possa esse amor que Vos levou a morrer por mim sobre a cruz, faze-me morrer a mim para todos os afetos terrenos, abrasa-me desse fogo que viestes trazer à terra!

Mil e mil vezes detesto esses indignos prazeres, que tantos tormentos Vos causaram, e de toda a minha alma me arrependo, ó meu muito amado Redentor, de tanto Vos ter ofendido. De hoje em diante quero morrer antes que causar-Vos a mínima ofensa; para Vos ser agradável, disposto estou a fazer tudo o que em mim deseja. Para nos amar, Vós a nada Vos poupastes, a nada me quero eu também poupara para amar-Vos.

Sem reserva me amastes Vós; pois sem reserva Vos quero amar também eu.

Eu Vos amo, ó meu único bem, meu único amor, meu tudo: sim, eu Vos amo. Fazei, ó Jesus meu, fazei, eu Vos suplico, que Vos ame tanto quanto a uma pobre criatura é possível amar-Vos: fazei que Vos ame até o último suspiro, e por toda a eternidade, Fiat, fiat! Assim seja.

RESOLUÇÕES PRÁTICAS

A Salvação é a Única coisa Necessária

Cristão, quem quer que sejas que esta obra lês, pensa hoje seriamente no grande negócio da tua salvação. A tua salvação!… Ah! Eis o que todos os instantes te deve ocupar, pois que, segundo o mesmo Jesus Cristo, é a única coisa necessária. Afana-te quanto queiras por te enriquecer, amontoa tesouros e mais tesouras; eu bem não queria contrariar-te; mas, por quem és, tudo isto de que te vale se te condenas? Corre após os terrenos prazeres; prossegue todas as honras e todas as dignidades; aos teus sentidos e caprichos nada recusas; goza de todas as comodidades; eu ir contra não vou, mas, dize-me, afinal tudo isto de que te servirá se te perdes? Alguns dias mais, o mundo, riquezas, honras, prazeres, tudo, tudo para ti se esvairá; e então que apreço darás a todas estas coisas uma vez caído na desgraça eterna? Entra, meu irmão, em ti mesmo, eu te suplico, e examina em que alturas vai o negócio da tua salvação. Talvez que até agora nada ou quase nada hajas feito para o céu; pois ainda é tempo de lançar mãos à obra: vamos. Põe em ordem a tua consciência, e se pela misericórdia de Deus te não acusa de falta grave, trabalha a enriquecer-te de boas obras e de sólidas virtudes. Hoje é o começar. Para isso repassa incessantemente pela memória esta palavra do nosso Mestre:

“De que serve ao homem ganhar o mundo todo se perde a sua alma? E porque penhor poderá resgatar essa pobre alma, depois de a haver perdido?”

Ao teu espírito seja sempre esta sentença, e pede a Deus a graça de bem a entenderes. Se a compreenderes bem, ela infalivelmente te há de tocar o coração; pôr-te-á diante dos olhos a vaidade, o nada das coisas do mundo; e acabarás brevemente por te fazer um Santo. E se fores um Santo ou ao menos trabalhares por isso, que gosto não darás ao nosso bom Mestre! Que paz não atrairás sobre a tua alma! E lá no fundo do teu coração que doce esperança não sentirás de reinar um dia no céu! À obra pois, meu irmão, mãos à obra; Jesus é contigo. Nunca Ele desampara algum dos seus filhos: alenta nossos esforços e sustenta nossa fraqueza: confiança nEle e serás salvo.

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(Pinnard, Abade Dom. As Chamas do Amor de Jesus ou provas do ardente amor que Jesus nos tem testemunhado na obra da nossa redenção. Traduzido pelo Rev. Padre Silva, 1923, p. 17-21)