Instituição da Igreja Católica por Jesus Cristo, sob São Pedro

Instituição da Igreja Católica por Jesus Cristo, sob São Pedro

Nas quatro instruções precedentes, ocupamo-nos das quatro marcas da Igreja de Cristo, e estabelecemos que a verdadeira Igreja de Cristo devia ser una, santa, católica e apostólica.

Mas a nossa Igreja não se chama somente Igreja “católica”; é chamada ainda “católica romana”, pelo fato de em Roma habitar o seu chefe. E esta consideração conduz-nos à pedra angular, ao rochedo da Igreja, isto é, à instituição mais notável da história do mundo: ao papado.

O que o papado significa para a Igreja Católica, o que lhe traz de força, de segurança, de unidade e de direção, não é necessário fazê-lo ressaltar perante os fiéis.

Mesmo alguém que não pertença à nossa santa religião, se for um observador imparcial da História, será obrigado a reconhecer naquele trono sem igual, de 19 séculos de idade, a aparição mais imponente da História universal: esse fenômeno único, desse trono que se ergue, desde o tempo de Nero, entre nós com uma solidez inabalável, enquanto as tempestades da História elevam e fazem desaparecer povos e dinastias. Ora, o papado sempre representou um símbolo, que tem suscitado contra ele a hostilidade e os ataques reunidos dos maus, – e, no entanto ele ainda está de pé. O papado nunca cedeu nem abandonou coisa alguma dos seus princípios, não fez conchavos – e, no entanto ainda está de pé.

Está de pé porque não foi um homem que o fundou, mas o Filho de Deus, que lhe fixou os fins para os quais ele deve subsistir, enquanto houver um homem na terra.

  1. Cristo fundou realmente o papado?
  2. Com que intuito o fundou? – tais são as duas questões para as quais procuraremos uma resposta na presente instrução. Porque essas respostas farão compreender a
  3. A grande veneração que testemunhamos ao papa.

1. Cristo fundou o Papado

Nosso Senhor Jesus Cristo comparou a Igreja a “uma cidade construída numa montanha” (Mt 5, 14), portanto visível a toda gente, – mas uma Igreja visível precisa de um chefe igualmente visível. Não se pode, pois, imaginar a Igreja de Cristo sem o papado. A) Já se trata dele por ocasião da pesca milagrosa em Genesaré; B) Nosso Senhor promete-o a São Pedro por ocasião da sua profissão de fé em Cesárea; e C) confere-lo no decurso da conversa que seguiu a ressurreição.

A) O Salvador alude ao primado do papa, por ocasião da pesca milagrosa de Genesaré. No capítulo V do seu Evangelho, São Lucas relatou o diálogo sublime e comovente entre Nosso Senhor e São Pedro.

A cena passa-se de manhã muito cedo. O Salvador está em pé na margem do lago de Genesaré; por trás dele, está o povo que o seguiu e que quer ouvi-lo. Na margem acham-se precisamente Pedro e seus companheiros, descidos da sua barca e ocupados em lavar suas redes. Cristo sobe à barca de Pedro, e de lá ensina o povo; depois, quando termina, diz a Pedro: “Avançai em pleno mar e deitai as redes para pescar” (Lc 5, 4). Simão Pedro fica muito admirado dessa ordem estranha. Conhece o seu oficio, pesca há dezenas de anos, toda a sua família e seus próximos também são pescadores, mas ele nunca ouviu coisa semelhante: ir pescar em pleno dia? E ao largo? Bem de certo o Mestre não nasceu naquela região, nem à beira d’água, mas bem longe, em Belém; nada de admirar se ele não entende disso… Todavia, é ordem do bom Mestre… Cumpre executá-la. Ele sabe o que quer. “Mestre, toda a noite trabalhamos, sem nada pescarmos; mas, na vossa palavra, lançarei a rede”.

E Pedro lança a rede. E apanharam tanto peixe que as redes quase se rompiam. Tanto peixe, que eles tiveram de chamar em auxilio a barca vizinha. Tanto peixe, que as duas barcas ficaram cheias até à beira, e quase afundavam.

A alma de Pedro fica transtornada. Ele se prostra diante de Jesus, dizendo: Ah! Senhor, como pude duvidar um só instante? Eu hesitava, faltava à confiança, não compreendia, estava na duvida. Não sou digno de que conteis comigo para vossa grande obra, não sou digno de ser o guia do vosso rebanho. Afastai-vos de mim, Senhor. Sou um homem vulgar, fraco e pecador, e Vós precisais de heróis.

Por sobre as águas do lago tranquilo resvala a confissão de Pedro, comovido até o fundo a alma; os outros escutam-no em silêncio. Então o Senhor levanta-se, olha Pedro nos olhos e diz-lhe: Mas é a ti justamente que eu quero. Foi por isto que te coloquei no leme, foi por isto que te enviei ao largo, para que sintas a tua própria incerteza, a tua própria fraqueza, e saibas com que auxilio, realizarás a grande pesca humana. Olha em torno de ti, Pedro. Vê quantos pescadores trabalham no lago; e quantos pescadores no mar; e em todos os mares do mundo. Mas a ti, estabeleço “pescador de homens” (Lc 5, 10), não por tua própria força, mas pela minha força, de que te revestirei.

Eis aí a primeira fundação da instituição mais maravilhosa da história do mundo.

A pesca milagrosa e o chamado de Cristo para que sejam "Pescadores de Homens"

A pesca milagrosa e o chamado de Cristo para que sejam “Pescadores de Homens”

B) Isso que Ele então esboça apenas, Nosso Senhor promete-o nos termos mais claros a São Pedro por ocasião da sua confissão em Cesaréia.

Conheceis, todos, essa cena sublime. Na vizinhança de Cesaréia, Nosso Senhor pergunta a seus discípulos o que os homens pensam a seu respeito. Os discípulos enumeram as opiniões do povo. Alguns, entre os Judeus, creem que Jesus é São João Batista ressuscitado; outros pensam que é Elias, a quem esperavam antes da chegada do Messias, ou Jeremias, ou outro profeta.

Então Cristo dirige-lhes esta pergunta:

“E vós, que dizeis de mim? Vós que conheceis bem minhas palavras e meus atos?”

Os apóstolos, desta vez, já não respondem, mas Pedro declara em nome deles:

“Sois o Cristo, o Filho do Deus vivo”.

Então Nosso Senhor pronuncia as palavras eternamente memoráveis:

“Feliz és tu, Simão filho de João, pois não foi a carne nem o sangue que te revelaram isso, porém meu Pai que está nos céus. E eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E dar-te-ei as chaves do reino dos céus: e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16, 17-19).

Poderia o divino Mestre ter falado mais claramente?

Cristo compara a Igreja a um edifício e faz de Pedro a sua pedra fundamental. Pedro chama-se originalmente Simão, e foi o próprio Cristo quem lhe deu o nome simbólico de Pedro, quando o encontrou pela primeira vez (Jo 1, 42). Colocou nas mãos de Pedro as chaves do edifício, o que significa confiar-lhe o poder total de governar, em virtude do qual pode ele abrir ou fechar as portas do céu segundo os méritos dos homens. “Ligar e desligar” em hebraico equivale a proibir e permitir, condenar ou perdoar; logo, equivale a decretar leis eclesiásticas, a ordenar, a governar sobre a base das leis divinas.

 

C) O que Cristo prometera a Pedro, deu-lho realmente por ocasião da conversa calorosa e intima que houve entre ambos após a ressurreição. Por três vezes o divino Mestre pergunta a Pedro: “Amas-me mais que estes?” Pedro responde com ardor: “Senhor, vós sabeis tudo, bem sabeis que eu Vos amo”. E por três vezes Nosso Senhor lhe diz: “Apascenta meus cordeiros”…”Apascenta minhas ovelhas” (Jo 21, 15-17). Quer dizer, dou-te, confio-te todos os meus discípulos e todos os meus fiéis.

Não há nisso qualquer coisa de surpreendente? Era a São João que Nosso Senhor mais amava, e, no entanto não o faz chefe da sua Igreja. O apóstolo São Tiago era parente de Nosso Senhor, mas Ele não o escolheu; São Paulo foi o mais sábio dos apóstolos, mas Ele também não o tomou para chefe da sua Igreja. É como se quisesse proclamar com isso, que nem a amizade, nem o parentesco, nem a ciência, são as bases da Igreja, mas tão somente a proteção da onipotência divina. Quis proclamar que o poder supremo que Ele dava ao papa depende dos méritos pessoais, das capacidades e das virtudes do papa. Quis proclamar que, assim como a grandeza e a ciência humanas não bastam por si mesmas para o governo da Igreja, assim também, nem defeitos, nem mesmo pecados, serão capazes de fazer vacilar a base do edifício, porque foi Cristo quem o construiu.

 

D) Depois da instituição do papado por Cristo, basta-nos indicar que, após a ascensão de Nosso Senhor, São Pedro exerceu realmente os seus direitos soberanos. Temos disto abundantes provas.

É claramente atestado que São Pedro dirigiu a Igreja, e que, desde os primeiros dias, exerceu o poder como chefe dos apóstolos. Após a Ascensão do Salvador, antes porém, da descida do Espirito Santo, “Pedro levantou-se no meio dos irmãos” (At 1, 15) e decidiu que se elegeria um novo apóstolo em lugar do traidor Judas. E depois lemos frequentemente, nos Atos dos Apóstolos (2, 14; 5, 8; 15, 71), que ele está na primeira fila, que toma a palavra em nome dos apóstolos e dos fiéis, e decide as medidas necessárias ao governo da Igreja.

Quem quiser conhecer a atividade pontifical de São Pedro, basta que leia os Atos dos Apóstolos. Quem primeiro pregou, e quem recebeu os primeiros fieis após a ascensão de Cristo? São Pedro. Quem, dentre os apóstolos, operou o primeiro milagre, curou o coxo de nascimento? São Pedro. Quem expulsou da Igreja o primeiro herege Simão Mago? São Pedro. Quem primeiro visitou as comunidades cristãs da Palestina? Quem recebeu na Igreja o primeiro pagão, o centurião Cornélio? Quem dirigiu o primeiro sínodo apostólico? Sempre São Pedro.

É particularmente interessante a marcha desse concílio. As palavras de um Paulo e dum Barnabé não foram capazes de pôr fim ao debate, foi São Pedro que lhe pôs termo.

Surgira, efetivamente, uma controvérsia entre os primeiros cristãos a respeito da conversão dos pagãos: seria mister fazer passar primeiro pelo judaísmo os pagãos convertidos, e em seguida admiti-los na Igreja? Ou podiam ser batizados imediatamente? Tal era a questão sobre a qual os apóstolos discutiram no concílio de Jerusalém“Tendo-se travado uma longa discussão, Pedro levantou-se e tomou a palavra” (At 15, 7), – dizem os Atos dos Apóstolos, – e “toda a assembleia guardou silencio” (At 15, 12).

É, portanto, compreensível que a Igreja de Cristo tenha crescido, depois, em união com Pedro, porque, se Pedro é a pedra de base, então a casa só pode estar onde estiver a base, e a Igreja de Cristo não pode estar onde não estiver Pedro. No século III, já os cristãos reconheciam isso. Com efeito, São Cipriano escrevia então:

“Assim como todo raio de luz vem do sol e todo ramo de árvore duma raiz, assim também as comunidades cristãs dispersas pelo mundo, estão unidas à Igreja”.

São Cipriano

São Cipriano

2. Com que intuito fundo Cristo o Papado?

Não nos basta, entretanto, saber que Cristo fundou verdadeiramente o papado. Não se compreenderá com efeito, a nossa grande veneração pelo papa, senão conhecendo as intenções de Cristo a respeito do papado. Por que foi que Ele fundou o papado? Que tarefa confiou Cristo ao papado?

A) Primeiramente, o papa devia ser o primeiro doutor na Igreja. Cristo queria que a Igreja fosse “a coluna e a base da verdade” (1Tm 3, 15), a mensageira da pura fé cristã, integral. Ora, Pedro recebeu a promessa de que seria base da unidade e da pureza da fé. Foi a ele, efetivamente, que o Salvador disse: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou a todos para vos joeirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma teus irmãos” (Lc 22, 31-32).

Que é, pois, o papa na Igreja? O fiador da unidade de fé. Ora, o divino Mestre teve particularmente a peito a unidade dos seus discípulos. Por ela roga na ultima Ceia, quando implora a seu Pai não somente pelos apóstolos, mas também pelos que crerem nele, sob as palavras dos apóstolos. Roga “para que todos eles sejam um, como vós, meu Pai, o sois em mim e eu em vós” (Jo 17, 21). Se esse desejo, o mais ardente de Cristo – a unidade – unidade de fé, de sacramentos, de chefe – tem sido tão grandiosamente realizado na religião católica, é o grande mérito do papado, que vela, dirige e adverte. Em compensação, se as seitas que se separam do catolicismo se afastam cada vez mais irremediavelmente da fé, e se dividem atualmente em 300 seitas em contradição umas com as outras, a causa principal disso é que elas se separaram do fundamento unificador, do rochedo da unidade, do papa.

 

B) Contudo, o ensino não é a única tarefa de Pedro, há também o governo da Igreja. Nosso Senhor lhe disse: “Dar-te-ei as chaves do reino dos céus; e tudo o que ligares na terra será ligado nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado nos céus” (Mt 16, 19). Disse-lhe igualmente: “Apascenta os meus cordeiros”. Pedro é, pois, não somente o doutro da Igreja, mas também o seu primeiro pastor, o seu guia, o seu chefe, a sua cabeça. Onde quer que muitos vivam juntos fazem-se mister presidentes, chefes, juízes, governantes, reis. Como então não se faria mister um poder independente, soberano, supremo, para conduzir com unidade os 360 milhões de católicos? Es porque o papa é o legislador supremo, e o chefe supremo da Igreja.

Que é o papa na Igreja?

A personificação do principio de autoridade. A quem já viveu em tempo de revolução, é inútil explicar que funesto perigo significa o abalo da autoridade, o abalo do poder que exige obediência absoluta, e dá diretivas. Como devemos ser gratos a Nosso Senhor por não haver deixado a sua herança sagrada exposta a múltiplas interpretações particulares, por não ter deixado cada um discuti-la conforme seu gosto, mas, por havê-la ao contrario confiado ao papa, investido do poder de exigir obediência absoluta e de pronunciar decisões definitivas, afim de que – como escreve São Paulo – “não mais sejamos crianças, flutuantes levados por qualquer vento de doutrina, pela falácia dos homens e pela sua astucia para induzir a erro” (Ef 4, 14).

Os papas tornaram-se também os mais altos protetores da ordem moral e social. Das epístolas do primeiro papa, São Pedro, até às encíclicas do papa atual, Pio XII, vemos incessantemente que os papas sempre ousaram erguer-se para a defesa corajosa das grandes verdades morais e sociais que as concepções anárquicas individuais, os sofismas e as correntes perigosas contemporâneas tanto têm obscurecido. Basta citar a encíclica “Rerum novarum” de Leão XIII, que atraiu pela primeira vez a atenção do mundo para a importância da questão social; as corajosas declarações de Bento XV feitas no interesse da paz durante a grande guerra ou as magnificas encíclicas de Pio XI pela pureza do matrimônio (“Casti Connubii) e pela justiça social (“Quadragesimo anno).

Finalmente, o papa não é só doutor, o chefe da Igreja, é ainda o sumo sacerdote, de cujas mãos irradiam e em cujas mãos estão sempre reunidos todo o poder e toda a dignidade sacerdotal. Quais são os sacerdotes da Igreja? Os que os bispos ordenam. Quais são os bispos? Os que o papa escolheu. Todo padre e todo bispo católico recebe, pois, seus poderes do papa, o sumo sacerdote a quem Nosso Senhor Jesus Cristo deu esta missão: “Apascenta meus cordeiros, apascenta minhas ovelhas”.

Papa Francisco discursando aos Fiéis

Papa Francisco discursando aos Fiéis

3. A nossa Veneração pelo Papa

Aquele que sabe tudo o que dissemos sobre o papa, nesta nossa instrução, ou seja, que ele é o doutor supremo, o pastor e o sumo sacerdote da Igreja; aquele que sabe que o papa é o representante visível de Cristo, o “dolce Cristo in terra” – “o doce Cristo na terra”, para empregar a expressão entusiasta de Santa Catarina de Sena – esse compreende, é mesmo o único a compreender – esse entusiasmo sem limite, esse culto e esse apego filial que os católicos sempre dedicaram ao chefe visível da Igreja.

A) O culto e o apego filial, manifestados para com o papa sempre foram as características dos fieis católicos. Só compreendem o culto profundo dos católicos para com o papa os que sabem o quanto devemos ao Santo Padre. Não vemos no papa um rei no sentido terreno do termo, mas o pai duma imensa família, cujo coração está igualmente próximo de todos os seus filhos, e que exerce sempre os seus poderes de chefe para o bem de seus filhos. É por isto que o chamamos, com um fervor cheio de intimidade, o “Santo Padre”. É só assim que compreendemos o uso – tão estranho à primeira vista – que faz os visitantes da Basílica de São Pedro beijarem o pé da estátua de bronze de São Pedro, ali erigida desde o século VI. Os dedos – os dedos de bronze – já estão gastos pelos ósculos fervorosos de dezenove séculos. Veneramos então com isso, o papa? Sim! É isto. Mas, através dele, veneramos alguém mais: Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

B) Eis-nos agora chegados à segunda questão: não é justificada a acusação feita contra nós, de prestarmos culto ao papa antes que a Cristo, e de que o culto do papa relegou para a sombra e comprometeu o culto de Cristo? Para podermos responder, cumpre-nos ver claramente o fato dogmático: toda veneração e o entusiasmo que dedicamos ao papa têm sua raiz neste dogma: o papa é o vigário de Cristo, e Cristo é o Filho de Deus. Quando rendo culto ao papa, através da pessoa do papa rendo culto a Cristo, pois sem Cristo não há papado.

É então verdade que o papa nos afasta de Cristo? Ao contrário, leva-nos a Ele. Com efeito, se Cristo não fosse o Filho de Deus, não se compreenderia que um simples Judeu que vivia no seio de um pequeno povo ignorado, insignificante, numa localidade escondida, que esse homem tenha podido operar uma transformação mundial como a que operou, e opera ainda, o cristianismo há dezenove séculos. E esse homem diz a um de seus discípulos, a um simples pescador sem instrução: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16, 17). Não é coisa maravilhosa que ele tenha pronunciado essas palavras, e que elas se tenham realizado e se realizem ao pé da letra?

Se Cristo fosse simplesmente um homem, não teria podido fundar uma tal instituição. Mas, se é Deus, então todo o nosso culto, todo o nosso entusiasmo para com aquele que lhe ocupa o lugar, para com o papa, é legitimo.

São Pedro sentiu a dignidade que Cristo lhe conferira, porém ela não o cegou, vemo-lo constantemente nas suas epístolas. Com que palavras de humildade principia ele a sua primeira epístola! “Pedro, apóstolo de Jesus Cristo” (1Pe 1, 1). Ele não escreve que seu trabalho salvou o mundo, mas que este foi salvo pelo sangue precioso de Cristo, do Cordeiro sem falha e sem mancha (1Pe 1, 19), “pelas chagas do qual fostes curados” (1Pe 2, 24). Em verdade, nada se tem a recear de Pedro, pelos interesses de Cristo.

Nem tão pouco dos seus sucessores. Por mais prevenido que se possa estar contra o papado, sejam quais forem as faltas e fraquezas humanas que nele se possam descobrir, ninguém pode negar que a finalidade ultima da sua obra, durante vinte séculos, tenha sido dilatar o reino de Deus. Ele tem sempre defendido os interesses de Cristo. E se a santa religião católica está atualmente espalhada pelo mundo inteiro, e se no turbilhão dos povos, das raças, das línguas e dos tempos, ela tem conservado intacta a sua unidade, é, em primeiro lugar, mérito do chefe supremo da Igreja, o papa.

***

Meus irmãos, dificilmente haverá um acontecimento capaz de empolgar tanto o mundo como a eleição dum novo papa. Os cardiais que elegem o papa dirigem-se a Roma, mas de todos os cantos do universo uma multidão de jornalistas precipita-se também para Roma e assedia dos postos telegráficos e telefônicos da cidade eterna. Na praça São Pedro, multidão enorme se comprime, e, como no primeiro Pentecostes, podem-se ali ouvir todas as línguas. Os olhos da multidão observam durante horas a chaminé do Vaticano, para observar o aparecimento da fumaça e a sua cor. Efetivamente se o voto é sem resultado, queimam, com as cédulas de voto, um punhado de palha, e os observadores reconhecem pela fumaça negra, que ainda não há novo papa. E postam-se lá durante horas, durante dias, e ainda a fumaça preta… Até que da chaminé sobe uma tênue fumaça branca; não há palha com as cédulas, a votação teve resultado. Então a multidão exclama em todas as línguas do mundo: Evviva il papa! Vive le pape! Hoch der Papst! Eljen! Zsivio! Aparece um cardeal no balcão, e de novo ressoam as palavras pronunciadas, a primeira vez, pelos anjos da noite de Natal: “Annuntio vobis gaudium Magnum: Habemos papam” – “Anuncio-vos uma grande alegria: temos papa”… E a multidão vibra de entusiasmo, e as repartições do correio, as redações de jornais trabalham, mais do que depois duma batalha ganha: a noticia voa através do mundo inteiro: Habemos papam. Sim, o mundo inteiro interessa-se por esse acontecimento – uns por amor, outros por ódio.

Meus irmãos, não é verdade que nós adoremos, divinizemos o papa; não é verdade que vejamos nele um ente sobrenatural. Não, é um homem, um homem frágil e capaz de cair, como nós. Mas um homem que Cristo instalou em seu lugar para ser o chefe visível da Igreja, para excitar mais segura, e mais eficazmente, o nosso amor para com o nosso chefe invisível, Nosso Senhor Jesus Cristo. “Segue-me” (Jo 21, 19), disse um dia o Senhor a Pedro, e logo ele seguiu a Cristo. “Segui-me” – disse depois São Pedro e dizem-nos os seus sucessores. E aquele que segue a São Pedro está absolutamente seguro de seguir o próprio Salvador.

 

“Apascenta meus cordeiros” – disse Nosso Senhor a São Pedro. E assim, Pedro conduz o rebanho de Cristo. E aquele que se acha no rebanho de Pedro está absolutamente seguro de estar entre os cordeiros do Senhor.

 

Faço-te pescador de homens – disse Nosso Senhor a Pedro. E Pedro, há 19 séculos, pesca pela força de Cristo. E aquele que lhe cai na rede está inteiramente certo de cair nas mãos de Deus. Amém.

Últimos três Romanos Pontífices: João Paulo II, Bento XVI e Francisco

Últimos três Romanos Pontífices: João Paulo II, Bento XVI e Francisco

(Toth, Mons. Tihamer. A Igreja Católica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1942, p. 71-84)