O que até agora, dissemos da Igreja Católica, nestas instruções, foi só elogio e glorificação. Como é bela a Igreja de Cristo! Como é cheia de solicitude nossa mãe a Igreja! Como é santa a Igreja! Que entusiasmo, que amor para com a Igreja!

Mas a imagem que pintamos da Igreja Católica nestas nossas instruções não seria completa se, ao lado dos acentos de gratidão e dos elogios, não se fizessem ouvir as censuras, as contradições, as dificuldades que surgem contra a Igreja, ora aqui, ora ali. Mormente para uma sociedade indiferente ou para as pessoas frívolas, um boato pouco edificante ou um escândalo, constituem a sobremesa picante que quotidianamente um editor hábil lhes deve apresentar.

Certas pessoas implicam com a hierarquia prodigiosamente desenvolvida da Igreja e com o dédalo complicado dos artigos do direito canônico. Outras não podem tolerar o modo de viver e de agir da Igreja.

Alguns são chocados pelo brilho exterior e pela pompa do papado. “Cristo era pobre e andava descalço. Vejam, porém, com que esplendor vive o seu representante!” – dizem eles. Outros – que não conhecem a História – criticam os papas que estiveram em luta com os reis, nomearam príncipes ou os depuseram do trono.

Um não para de falar sobre “os maus papas”. Outro acha muita coisa que repreender na vida dos católicos.

Que dizer disso, irmãos? Evitaremos essas perguntas embaraçosas? De modo algum.

Havemos de negar casos lastimáveis? Absolutamente. Nunca se tem o direito de negar a verdade, seja com que intuito for. Sim, é verdade que nos livros hostis, de intenção preconcebida, ou em sociedade, contam-se escândalos dos quais nem sequer um décimo representa a verdade. Mas, por outra parte, cumpre-nos francamente reconhecer que, na história da Igreja – infelizmente – houve, no passado, incidentes, e ainda há fatos, que são bem dolorosos, penosos e contristadores para o povo cristão.

É a isto que quero consagrar a presente instrução, e mesmo as duas seguintes, pois, quantas vezes, mesmo os melhores dos nossos fiéis, ficam embaraçados quando membros doutras religiões lhes insinuam ao ouvido, triunfalmente, tal ou tal fato escandaloso do passado ou do presente: “Veja! Aí está a sua religião católica! Aí está a sua santa Igreja! Aí está a sua bela Igreja!”. E nossos irmãos, desconcertados, ficam mudos; não sabem responder; não sabem o que dizer.

Mas tudo isso se explica se examinarmos a ideia de que me quero ocupar nesta instrução, a saber: 1. A Igreja tem um duplo semblante, não somente um semblante divino, mas também humano; não há, pois, razão para nos admirarmos se o semblante da Igreja, velho de dezenove séculos, apresenta rugas. E 2. Se também há páginas bem tristes na história da Igreja.

1. O duplo semblante da Igreja

Todas as objeções, todas as dificuldades, todos os incidentes dolorosos explicam-se pelo fato de ter a Igreja um duplo semblante. Tal como Cristo, que nela vive, e que é o Filho de Deus, mas também filho do homem; que viveu na glória e também na humilhação; que era o Verbo eterno, e também a criancinha de Belém; o mesmo se dá com a Igreja de Cristo. Corpo místico de Cristo, ela é um reino celeste e também um reino terrestre; leva ao céu, mas necessita também das formas e dos meios das sociedades terrestres; “ela não é deste mundo” (Jo 28, 36), mas vive no mundo; tem, portanto, um semblante divino e outro semblante humano. Daí resulta para a Igreja uma vantagem, mas, em compensação, também uma desvantagem.

A) Que vantagem resulta do fato de dois elementos exercerem sua atividade na Igreja?

Esses dois elementos não se encontram ao lado um do outro, mas estão unidos entre si, cresceram juntos, estão amalgamados, reunidos organicamente. Não se podem separar um do outro, um não pode prescindir do outro, e é justamente a existência desses dois elementos que introduz na vida da Igreja esse contraste particular, que assegura a atividade transbordante da Igreja, como, por exemplo, lei e liberdade, direito e caridade, individualidade e vida comum, tradição e progresso, cerimônias exteriores e recolhimento interior.

B) Mas, em compensação, a atividade desses dois elementos também tem uma desvantagem. Uma consequência lastimável que daí decorre é a que o próprio Nosso Senhor indicou numa de suas parábolas, a saber: que na Igreja há maus ao lado dos bons, e que, ao lado da luz, também há trevas.

a) Um cultivador semeara bom grão no seu campo, mas o inimigo, durante a noite, em segredo, semeou joio. Os servos perguntam-lhe com emoção: “Senhor, acaso não semeaste bom grão no campo? Donde vem então que se ache nele joio?” (Mt 13, 27).

Quantas vezes essa pergunta tem sido ouvida através dos tempos? É ouvida onde quer que se produza alguma coisa de triste entre os membros da Igreja. Fraqueza humana, falta, passo em falso, pecado… as pessoas perguntam com espanto: Será possível? E não dizem que a Igreja é santa? É possível, então, que tal ou tal dos seus membros leve semelhante vida, que a natureza humana corrompida tenha tanta força sobre ele? Que dizer de fulano, que desempenha um papel de chefe, na vida católica? De sicrano, que é tão devoto na igreja? De beltrano, ainda, que é até padre?… Como se pode compreender isso, meus irmãos?

b) O mais alto atributo do homem é a liberdade de sua vontade. É esta uma grande honra para nós, mas também um grande perigo. Deus não se imiscui no seu funcionamento, não a suprime, mesmo quando alguém se serve dela para o mal. Não a suprime, mesmo quando o homem deixa de ser “um homem”.

Infelizmente, na história da Igreja, as potências tenebrosas da natureza humana decaída, repontam: a sede de dinheiro, a sede do poder, o egoísmo, a sensualidade surgem às vezes, nos membros, e mesmo nos chefes da Igreja, nos leigos, como nos padres, e a consciência perpetuamente viva da Igreja não tem conseguido vencê-las. Aí! Há também tristes páginas na história da Igreja, quando os vagalhões das trevas têm assaltado as muralhas da Igreja, e as suas sombras se têm espalhado sobre ela.

A parábola do Salvador devia ter-nos preparado para compreendermos que no campo da Igreja, o joio brote ao lado do trigo: em toda família, em toda sociedade, em toda paróquia, também há joio. Choramos com isso, sofremos com isso, e devemos trabalhar para que o joio diminua cada vez mais, – a nossa fé porem não deve soçobrar. Acaso Nosso Senhor não disse: “Ai do homem por quem vem o escândalo!” (Mt 18, 7)? E não disse ainda: “No tempo da ceifa, direi aos ceifeiros: Ceifai primeiro o joio e atai-o em molhos para queimá-lo” (Mt 13, 30)?

C) E assim compreendemos muita coisa.
a) Compreendemos que na Igreja haja preces deliciosas, mas que também haja pessoas, cujas preces, sem alma, não passam de um movimento dos lábios. É nobre e emocionante a liturgia da Igreja, mas certos padres, pela sua precipitação, transformam-na em gestos ridículos. Segundo os desejos e no pensamento da igreja, os seus sacerdotes são os combatentes valorosos do pensamento de Cristo, mas há também entre eles almas fracas homens mesquinhos e grosseiros. Certos fiéis podem ser fervorosos, piedosos, conscienciosos, mas também ser ao mesmo tempo insuportáveis e cheios de caprichos.

Temos o direito de escandalizar-nos? Só tem esse direito quem não vê que a Igreja é eterna, mas que seus membros e seus sacerdotes nascem e morrem, que outros novos os substituem, e que é mister recomeçar tudo, desde o inicio: curar as novas fraquezas, as mesquinhezas rasteiras, os novos defeitos.

b) Sim, a Igreja permanece santa, imaculada e sem ruga, apesar de tudo isso, embora seus membros cometam faltas ou pecados. Porquanto, como o homem, a Igreja também é composta de corpo e alma. O corpo da Igreja somos nós, seus membros; a alma é o Espírito Santo. O homem não é responsável pelo que o corpo faz contra a vontade da alma, sem sua autorização; o homem só é responsável pelos atos em que houve consentimento da alma. Ora, o mesmo sucede com a Igreja. Ela não é responsável pelo que faz seu corpo, pelo que fazem seus membros, contra a vontade de sua alma, o Espírito Santo. É assim que a Igreja permanece pura e imaculada, mesmo nas épocas mais tristes. A impureza que nela achamos não vem dela, mas lhe foi trazida de fora.

Devemo-nos lembrar disso, quando lemos a história da Igreja e nela achamos páginas negras. Devemo-nos lembrar de que a Igreja tem duas histórias. Uma, a verdadeira história, mas que os olhos humanos não podem enxergar: a história da vida da graça que jorra dos sete sacramentos, história da santificação das almas. Outra, que se desenrola aos nossos olhos, a história do corpo da Igreja, onde certamente há faltas, passos em falso e pecados de toda espécie: mesmo a árvore mais sã tem algum fruto degenerado, e o melhor exército também tem desertores.

2. As páginas lamentáveis da História da Igreja

Se considerarmos sem opinião preconcebida isso que acabamos de dizer, a nossa fé não naufragará por causa das tristes páginas da história da Igreja, que os seus inimigos costumam apontar com ares de maldade triunfante.

A) Quem, por exemplo, ainda não teria ouvido falar dos “maus papas”? Que devemos pensar disto? Será verdade que também houve maus papas? E se os houve, qual deve ser sobre isso o nosso juízo?

a) Os católicos chamam ao papa “Santo Padre”. E, quando falam dele, dizem: “Sua Santidade”.

Essa expressão magnífica aplica-se porventura à pessoa ou à dignidade? Quereremos dizer por ela que, quando alguém vem a ser papa, já é um santo?

Não! O cargo, a dignidade que o reveste, é que é santa. E essa dignidade, de fato, obriga-o a se esforçar para atingir, também ele, a maior santidade de vida. E vemos, na realidade, que, entre os 262 papas, houve 81 santos canonizados, 33 mártires e 7 bem-aventurados, sem contar os que levaram vida verdadeiramente santa, mas ainda não foram canonizados, por exemplo um dos papas mais recentes, Pio X.

Coisa estranha: há homens que, nessa magnifica história de dezenove séculos, só enxergaram os poucos anos ou dezenas de anos cobertos de sombras. O sol também tem manchas. Mas haverá alguém que se choque com isso e vire as costas ao sol? E, por causa das poucas páginas sombrias e brumosas da história dos papas, havemos de esquecer as numerosas páginas luminosas e edificantes, percorrendo volume todo?

b) Mas, se é certo, e se podemos afirma com ufania, que ao maior número dos papas a expressão “Santíssimo Padre” não se aplica só à dignidade, mas também à sua pessoa, a verdade obriga-nos, todavia, a reconhecer com pesar que, assim como entre os doze apóstolos houve um Judas, assim também, entre os 262 papas houve alguns – que não foram dignos do cargo.

Por mais penosa que seja esta verificação, não pode, entretanto abalar a nossa fé. Os papas a cujos nomes se ligam tristes recordações, estiveram sobretudo em luta uns com os outros, sujeitos à influência de partidos poderosos e foram levados ao sólido pontifício pela ambição da sua família ou da sua nação.

Também houve, então, maus papas? Infelizmente sim.

Daí resulta, por isso, que Cristo não tenha fundado o papado? De modo algum.

Cristo predisse que o inferno desencadearia todos os ataques contra a Igreja. E poderia Ele ter pensado em ataque mais perigoso do que o que atingiria a Igreja em seu chefe?

Os maus papas são, pois, também uma prova da origem divina da Igreja. Porquanto, se a religião católica fosse criação humana, então teria sido irremediavelmente arruinada pelos maus papas.

B) Essa ideia abre justamente novos pontos de vista, que esclarecem ainda mais a questão. Põe em foco o papel da divina Providência na Igreja.

Quando Nosso Senhor Jesus Cristo colocou a sua Igreja no mundo, muniu-a deste viático: “Eis que estou convosco todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28, 20). E Nosso Senhor, realmente, sempre tem protegido sua Igreja e estado com ela em todas as lutas e provações que ela tem tido de sofrer até hoje.

a) Com que solicitude a Providência tem guiado a sua Igreja.

Primeiramente, houve três séculos de perseguições sangrentas. O seu fim era fazer amadurecer a Igreja de Cristo, visando a dominação espiritual, e demonstrar que a verdade não seria vencida por nenhum cruel terror.

Logo depois da vitória da verdade, a Igreja pôde empreender uma nova tarefa: a educação dos povos. Mas agora, ao lado do triunfo das forças da verdade, devia tomar lugar a vitória moral da conquista das nações bárbaras, por uma paciência e uma caridade sem exemplo, ou por uma severidade e uma disciplina paternais, ou mesmo pelo brilho das suas pompas exteriores.

Quantos se escandalizam hoje da severidade e das pompas da Igreja na idade média! Entretanto, se a Igreja – no interesse da salvação da alma de seus filhos – combateu, fulminou com a excomunhão, puniu os obstinados, só pode escandalizar-se disso quem ainda não viu uma mãe que castiga, ou os olhos carregados de ameaça de um pai, quando educam filhos indisciplinados ou procuram protege-los nos perigos. Não devemos encarar tudo isso do ponto de vista atual, mas conforme o modo de pensar daquela época.

E se os bispos da idade média galopavam em corcéis fogosos e desfilavam perante seus súditos seguidos duma escolta deslumbrante, se residiam em castelos, como “príncipes da Igreja”… Tudo isso, evidentemente, parece-nos atualmente inimaginável. Mas não nos choquemos com que assim fosse outrora. Com efeito, não teria sido possível, com monges andando de pés descalços, conquistar ao Cristo um povo habituado ao esplendor, às pompas exteriores e ao fausto: faziam-se mister príncipes da Igreja cavalgando corcéis espumantes, revestidos de ouro e prata.

E aí está porque, na idade média, os bispos andavam a cavalo e eram também ricos senhores… Somente…

b) Somente, a divina Providência bem sabe quando a Igreja precisa do poder exterior para realizar sua finalidade, e também quando não precisa. E quando não precisa, e quando é melhor que seja privada disso para a direção das almas, então Deus tem o cuidado de tirar isso das mãos da Igreja e de substituí-lo por outra coisa.

Para domar os povos bárbaros da idade média, a Igreja precisava também da força exterior, temporal. Mas hoje, parece que a divina Providência quer aproximar a Igreja das almas sem o poder político, sem os bens terrenos, fora da influência do Estado, unicamente pela força do amor e da caridade. Seja como for, tudo sucede como a Providência o quer. Mas é certo que, sejam quais forem as mudanças que o futuro reserve, a humanidade, nas suas instituições políticas e sociais, nunca poderá prescindir do amor dos representantes de Cristo, nem da força que prega a fidelidade ao dever e a pureza dos costumes.

Enquanto os filhos ainda estão em tenra idade, precisam frequentemente das advertências dos pais, e merecem até às vezes sérias punições. É por isso que, nos séculos remotos, saiam frequentemente dos lábios da Igreja palavras de censura, e, se isso não bastava, a excomunhão fulminava governantes e povos.

Hoje, os povos chegaram à maioridade. A Igreja, evidentemente, não deixa de persistir mãe deles, mas dirige-se a eles, como os pais falam a filhos já grandes; – ainda hoje ela lhes faz censuras, quando preciso, não com o tom severo de outrora, mas, com os acentos dum amor inquieto. Ainda hoje, vivem entre vós bispos e padres, mas eles não têm mais o direito de viver como senhores, por trás das janelas engradadas dos bispados; eles participam em sua alma dos sofrimentos de corpo e alma dos seus fiéis.

Mas, assim como Cristo estava com a Igreja quando era cercada desse brilho mundano, desse poder e desse esplendor, estará também com a Igreja, se um dia, talvez, ela for despojada de todo poder e de todo brilho exterior, continuando porém a sua santa missão de pregar aos fiéis a doutrina de Cristo.

São Pedro, o primeiro papa, tinha um báculo pastoral de pau, Pio XII, o 262º papa, tem um báculo de ouro e prata. De será o do último papa? Quem poderá dizê-lo?

a) Se Nosso Senhor Jesus Cristo viesse atualmente ao Vaticano, e ali recebesse as homenagens do papa descido do trono e prostrado diante dele no pó, certamente não mudaria nada ao seu poder, nem ao seu campo de atividade, como nada também ao seu ambiente de corte, à sua habitação, aos seus paramentos de ouro.

Com efeito, foi a divina Providência quem quis que, durante os três primeiros séculos, os papas não estivessem num trono, mas na prisão, e que, dos 32 primeiros papas, 30 morressem mártires. Foi a divina Providência quem quis que, na idade media, os papas e os bispos estivessem em tronos, cercados de esplendor e de fausto, para conduzirem o rebanho de Cristo. Mas, do mesmo modo, a divina Providência também poderia querer que um dia o vigário de Cristo fosse obrigado a descer de novo à nudez das catacumbas.

b) Não conhecemos o futuro. Não sabemos o que a Providência, reserva à Igreja.

Mas sabemos uma coisa. Sabemos que a Igreja tem duas faces, humano e divina. Sabemos que a atividade da Igreja é composta desses elementos humanos e divino, e só os que não pensam nisto, é que se escandalizam das faltas e das nódoas, que se prendem à Igreja.

Precisamente porque a Igreja é composta de homens, sempre penetrarão nela fraquezas humanas. Não nos envergonhemos de reconhecer, com o apóstolo São Tiago, que “todos pecamos em muitas coisas” (Tg 3, 2). Não nos envergonhemos de reconhecer que temos nossos defeitos, e que pesam sobre nós as imperfeições de milhões e milhões de cristãos, há dezenove séculos. Mas, ao lado das pequenezas humanas, devemos também pensar na grandeza divina. No semblante da Igreja, não devemos ver apenas os traços humanos, mas também os traços divinos; de maneira que é impossível não constatarmos nisso uma solicitude manifesta da divina Providência.

Quem olha a Igreja sem espírito preconcebido, tem que reconhecer mesmo por trás das rugas de dezenove séculos como, incessantemente, o Espírito Santo age sobre ela, com uma força que não decresce.

Quem vê isso, ainda hoje, é obrigado a exclamar, como Jacó quando acordou do seu sonho: “Certamente o Senhor está neste lugar, e eu não sabia” (Gn 28, 16). É obrigado a dar o testemunho que Nosso Senhor deu de si mesmo. “Os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam… Feliz aquele que não se escandalizar de mim” (Mt 11, 5-6).

***

E agora, irmãos, respondei a esta pergunta: Podeis considerar sempre a Igreja, com o entusiasmo duma piedade filial? Ou, quando numa praia ou num ambiente viciado pela fumaça dos cigarros, caluniam a nossa santa religião, vos juntais facilmente às zombarias e julgais tão mesquinhamente quanto o remendão de Veneza?

Que fazia esse remendão? Postava-se embasbacado diante do quadro de um célebre pintor italiano, e quando lhe perguntavam se o quadro lhe agradava, ele respondia dando de ombros: “É bonito, é bonito. Mas uma fivela do sapato de um dos personagens não foi pintada no lugar certo”.

Meus irmãos, a nossa Igreja segue o caminho da História há dezenove séculos. Esse caminho é certamente poeirento, pedregoso, – deverei então escandalizar-me de que seus pés também estejam cobertos de pó? Hei de escandalizar-me de que o ideal e a realidade nem sempre se ajustem exatamente, como jamais se ajustam onde quer que intervenha mão humana?

A Igreja tem duas faces. E amo-te, Igreja Católica, minha Mãe, apesar das rugas do teu semblante, amo-te apesar de alguns defeitos da tua vida exterior, porque amo o teu semblante interior, a tua alma, a fonte da tua vida íntima: amo a Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

(Toth, Mons. Tihamer. A Igreja Católica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1942, p. 135-146)