trindade
Por Dom Henrique Soares da Costa
O Deus dos cristãos é diferente de todos os outros: é único, original. Nossa fé professa que Ele é uno e trino – Triuno -, um só Deus na Trindade das Pessoas divinas. E, no entanto, na prática, os cristãos não compreendem bem o que isto significa nem percebem o quanto isto é importante, fundamental, para a nossa fé.

Basta dizer que sem a Trindade, se Deus não fosse trino, a criação não seria possível, a salvação não existiria e não haveria esperança para a história humana nem para o universo!Como?” – perguntam os cristãos, admirados com tais afirmações… Todas estas assertivas podem parecer exageradas. Se for assim, se para você tais afirmações são muito radicais, então é porque você é um desses, que não compreenderam ainda o quanto é fundamental, essencial mesmo, que Deus seja uno e trino. É para que, juntos, possamos aprofundar nossa compreensão deste que é o Mistério central da fé cristã, vou apresentar algumas meditações sobre a Santa Trindade.

E vou logo afirmando que nosso encontro com a Trindade Santa começou num Primeiro Dia da semana, que chamamos agora de Domingo. Isto mesmo: tudo começou num Domingo!

Mas, vamos por ordem, começando com uma primeira questão: Onde a Igreja foi buscar essa fé trinitária? Não seria mais fácil dizer, como os judeus e os muçulmanos, que Deus é um só, com um monoteísmo absoluto, e basta? Não seria mais simples dizer, como os antigos arianos cristãos e os espíritas atuais, que Jesus é somente um profeta de Deus, alguém especial, mas que é criatura de Deus? Não seria menos complicado afirmar, como as testemunhas de Jeová, que o Espírito Santo é apenas uma força de Deus? Por que complicar? Onde os cristãos foram buscar esta certeza de que Deus é uno e trino?

Para encontrar a resposta a esta questão, é necessário voltar ao Dia da Ressurreição: foi ali que tudo começou: “primeiro dia depois do sábado” (Jo 20,19), provavelmente dia 9 de abril do ano 30!

Primeiramente, vamos deixar claro uma coisa: o Antigo Testamento não ensina que Deus é trino, não fala diretamente da Trindade! Os judeus nem sonhavam que Deus é Pai, Filho e Santo Espírito. Eles acreditavam num Deus único, Javé, e acreditavam que este Deus grande e misericordioso enviaria um dia o Messias – alguém muito especial, o maior de todos os profetas, tão grande quanto Moisés: ele viria libertar o povo de Israel de todos os seus opressores, limpar o Povo eleito de seus pecados, restaurar o trono do Rei Davi e espalhar por toda a terra o juízo de Deus e o Seu santo Reinado. Esse Messias seria cheio do Espírito de Javé, quer dizer, da Sua força: o próprio nome “messias” quer dizer “ungido”… Ungido pelo Espírito de Javé. Era assim que os apóstolos acreditavam, assim que Maria pensava, assim que qualquer judeu piedoso do Antigo Testamento imaginava. Os judeus sempre repetiram e continuam a repetir com toda a piedade: “Ouve, ó Israel: Javé nosso Deus é o único Javé!” (Dt 6,4)

Veio Jesus; Ele dizia ser o Messias: no início do Seu ministério Ele fora ungido pela Força de Javé, quer dizer, pelo Seu Espírito. Quando Javé O ungiu no Jordão, apresentou-O assim: “Este é o Meu Filho amado, de Quem Eu Me agrado” (Mt 3,17). Isso mesmo: Jesus foi apresentado como Filho de Javé. Já na anunciação o Anjo tinha dito a Maria: “Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo” (Lc 1,32). Mas, atenção: isto não queria dizer ainda que Jesus era Deus! No Antigo Testamento os reis eram chamados “filho de Deus” (cf. Sl 2,6s; 2Sm 7,14), também o povo de Israel era chamado assim (cf. Is 1,2;Dt 32,20; Os 11,1). Mais ainda: os justos, os pobres, todos estes eram considerados “filhos de Deus”, quer dizer Seus protegidos, Seus amigos (cf. Sb 2,16.18). Assim, quando os judeus falavam em filho de Deus não pensavam que alguém fosse Deus, fosse igual a Javé! Isso, nem pensar: O Senhor é único: não tem filhos, não pode ser dividido, não pode ser multiplicado; nada há nem pode haver jamais ao Seu lado: Ele é Único, Ele é Um no céu e na terra; Ele, o Indizível, o Santo, o Incompreensível, o Infinito, o Eterno, “O Nome” – “Hashem“, como os judeus piedosos gostam de a Ele se referir!

Assim, nem Maria, nem os apóstolos, nem ninguém imaginaria jamais que Jesus fosse Deus! Mais uma vez: o povo de Israel tinha muito claro na mente as palavras solenes da Escritura: “Ouve, ó Israel! Javé nosso Deus, Javé é um só!” (Dt 6,4) No entanto, um coisa é certa: Jesus se dizia Filho de Deus e agia de um modo completamente novo, estranho em relação a Deus: Ele era íntimo demais de Javé; chegava mesmo a tratá-Lo de um modo que ninguém ousava tratar: chamava-O de “Meu Abbá”, quer dizer, “Meu painho”, ou “Meu papai”! Isto mesmo: abbá era o modo como as criancinhas pequenas chamavam os seus pais! Jesus nunca dizia “nosso Abbá”; dizia sempre “Meu Abbá”. Você deve estar pensando no Pai-nosso, o “Abbá nosso” que Jesus nos ensinou… Cuidado! Jesus diz assim: “(Vós) Orai desta maneira: Abbá nosso…” (Mt 6,9); “Quando (vós) orardes, dizei: Abbá…” (Lc 11,2) A ideia é clara: Jesus manda que nós digamos “Abbá nosso”; Ele não entra, não diz “nós”, diz “vós”! Ele Se considera o Filho de Javé de um modo todo especial: “Subo ao Meu Abbá e vosso Abbá, ao Meu Deus e vosso Deus!” (Jo 20,17). Mais uma vez aparece claramente: Javé é o Deus e Pai de Jesus de um modo único, exclusivo, diferente do modo de ser nosso Deus e nosso Pai! Por isso mesmo Jesus Se colocava numa intimidade com Javé que parecia aos judeus muito desrespeitosa e atrevida, até mesmo blasfema. E mais: Jesus agia com uma autoridade que parecia igual a de Javé; fazia coisas que somente Javé poderia fazer:

· perdoava os pecados (cf. Mc 2,1-12)

· dominava o mar (cf. Mc 4,35-41; Jo 6,16-21 – segundo o Antigo Testamento somente Javé poderia dominá-lo – cf. Pr 8,29; Jó 38,8-11; Sl 104,7-9)

· interpretava a Lei (a Torá) com uma autoridade espantosa: “ouvistes o que foi dito (na Lei) aos antigos… Eu, porém, vos digo” (cf. Mt 5,21-48)

· quando ensinava, já começava exigindo obediência, antes mesmo de falar: “Amém, amém Eu vos digo” (cf. Jo 8,34; 6,47; 12,24).

Assim, compreendamos bem: nada disso afirmava que Jesus era Deus, que era igual a Javé, mas uma coisa é certa: Ele agia de tal modo que Se colocava numa proximidade com Deus que ninguém neste mundo poderia imaginar. Tanto isto é verdade, que os judeus chegavam a reconhecer, indignados: “Sendo apenas homem, Tu Te fazes Deus! (Jo 10,33)

Mas, repito, nem os apóstolos, nem os discípulos de Jesus, nem ninguém, poderia sonhar que Ele era igual a Javé, que Ele era divino, que Ele era Deus!
Então, como, finalmente, a Igreja chegou a esta conclusão? Como os apóstolos chegaram a afirmar que Jesus é Deus, com o Pai e o Espírito Santo?
É na próxima parte que veremos isto! Por agora, seria tão bom repetir sempre com toda a certeza e com toda a devoção: “Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus, o Senhor é Único!” Pode repetir tais palavras santas com toda a convicção e certeza do Antigo Israel! O nosso Salvador nos ensinou que este é o primeiro fundamento da nossa fé: “O primeiro é: Ouve, ó Israel, o Senhor nosso Deus é o Único Senhor! Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, de toda tua alma, de todo o teu entendimento, e com toda a tua força!” (Mc 12,29s) O Senhor é Único: nada nem ninguém pode ser colocado ao Seu lado, nada pode ser amado e servido ao lado Dele: Ele é Único! “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos!” (1Jo 5,21)