Nono Concílio Ecumênico

O nono Concílio Ecumênico foi celebrado também em Roma, na Igreja de São João de Latrão; por isso chamou-se Lateranense. Convocou-o Calixto II no ano 1123 e intervieram nele mais de 300 bispos e mais de 600 abades, sob a presidência do mesmo pontífice. O fim principal deste concílio era restabelecer a paz e concórdia entre o sacerdócio e o império, perturbada pelas chamadas investiduras. Os imperadores da Alemanha pretendiam imiscuir-se nos assuntos religiosos, especialmente na eleição dos bispos e abades, e na adjudicação da dignidade episcopal ou abacial, o que se chamava investir. Acontecia frequentemente que, pela usurpação destes direitos, elegiam-se pessoas indignas e às vezes indigníssimas por sua ignorância e péssima conduta, com grande escândalo dos fieis. Os Papas tinham levantado várias vezes a voz contra estes abusos, porém em vão, pois os mesmos imperadores tomaram as armas e passaram a cometer violências contra eles. O Papa Calixto, cheio de zelo e valor, querendo a todo custo remediar tamanho mal, depois de ter trazido Henrique V a melhores sentimentos, reuniu o dito concílio.

Ali conseguiu o imperador ser absolvido da excomunhão em que tinha incorrido, e submeteu-se humildemente à Igreja jurando que já não tomaria parte nas investidas deixando assim livre a Igreja na eleição de seus ministros. Condenaram-se igualmente as ordenações feitas pelo herege Bordino, que se proclamara anti-Papa. O concílio convidou por último os cristãos a expulsarem de Jerusalém aos Sarracenos, que tinham voltado novamente, e da Espanha aos Mouros, ferozes inimigos do cristianismo, que se tinham apoderado daquele reino.

Décimo Concílio Ecumênico

Ainda não tinham passado dezesseis anos da celebração do mencionado concílio, quando o Papa Inocêncio II julgou conveniente reunir outro no mesmo palácio de Latrão. Abriu-se em 1º de Abril do ano 1139. Assistiram a ele mil bispos e outros tantos abades presididos pelo mesmo pontífice, que, como escreve um historiador daqueles tempos, compareceu entre aqueles santos prelados como o mais venerável de todos, tanto pela majestade que Resplandecia em seu rosto e pelos oráculos que saiam de sua boca, como por sua suprema autoridade. O concílio foi celebrado para por um remédio às desordens causadas pelo anti-Papa Anacleto, chamado Pedro de Leão, e condenar vários erros que tinham surgido contra a fé. Entre estes merece mencionar a heresia de Tanquelino, leigo muito astuto, que fingindo santos costumes, soube enganar os simples e levá-los à prática das mais vergonhosas obscenidades. Considerava-se igual a Jesus Cristo; negava os sacramentos e ensinava que os bispos nada eram mais do que os leigos.

Foram condenados também os erros de Pedro de Bruis e Arnaldo de Brescia, os quais, além de levarem vida escandalosa, desprezavam o santo sacrifício da Missa, a invocação dos santos, o batismo das crianças, a tradição e os escritos dos santos Padres. A justiça de Deus confirmou visivelmente a condenação destes hereges. Com efeito: Pedro de Bruis, depois de cinco anos de roubos e delitos, foi vítima do furor do povo, que, horrorizado por suas blasfêmias, o atirou dentro das chamas que ele próprio preparara para queimar um monte de cruzes que tinha derribado. Arnaldo, inimigo acérrimo do poder temporal dos Papas, não cessando de vomitar calúnias contra a igreja, atreveu-se a ir a Roma onde por ódio ao pontífice tentou fazer assassinar a um cardeal. Temendo em seguida a pena que merecia seu crime, fugiu de Roma; ao chegar porém a Toscana, foi preso e condenado às chamas pelo poder civil. São Bernardo em carta escrita ao Papa sobre Arnaldo de Brescia e Abelardo seu mestre, disse que estes se uniram e se puseram de acordo para uma conjuração secreta contra Jesus Cristo e contra sua Igreja; em seguida relata-lhe seus erros. Arnaldo morreu obstinado no erro; mas Pedro Abelardo foi a Roma e submeteu-se à santa Sé. Dali voltou à França, reconciliou-se com São Bernardo, e para tratar melhor da salvação de sua alma, encerrou­se em um convento dependente de Cluny, onde depois de passar alguns anos fazendo penitência, com edificação daqueles religiosos, morreu no Senhor no ano 1142, aos 63 de idade.

São Bernardo, abade e doutor

São Bernardo, abade de Claraval, é certamente um dos astros mais luminosos da Igreja. Nasceu em Fontainas na Borgonha. Ainda pequeno, sentia tal ternura para com a Santíssima Virgem, que só ao ouvir pronunciar seu nome, dava sinais de prazer e alegria. Tudo fazia com gosto contanto que se lhe dissesse: “Isto agrada a Maria” e desejava fazer o contrário quando se lhe dizia: “Isto desagrada a Maria”. Embora as raras e nobres qualidades de sua pessoa e as ainda mais seu engenho surpreendente lhe abrissem caminho para as mais altas dignidades, a tudo renunciou para abraçar o estado religioso no mosteiro de Cister. Seu exemplo suscitou-lhe tantos discípulos, que tiveram de fundar outros mosteiros entre os quais se achava o de Assêncio. Era este lugar uma espantosa guarida de ladrões, e pelo nome e celebridade de Bernardo se chamou em seguida Claraval. Poucos eram os jovens com quem falava o santo, que não se alistassem na sua milícia Espiritual. Muitos nobres mancebos seguiram os incentivos de sua extraordinária santidade. Um seu tio, sua Irmã, seus cinco irmãos, e seu próprio pai fizeram-se religiosos e morreram como santos.

Milagres e morte

A santidade de Bernardo achava-se confirmada por frequentes e ruidosos milagres. Com o sinal da cruz curou um bispo que estava prestes a morrer; também curou, em presença de grande multidão, a uma mulher, um menino e uma menina aleijados. Dava por todas as partes a vista aos cegos e o ouvido aos surdos, a palavra aos mudos, a saúde aos enfermos e conhecia os segredos mais íntimos do coração. E ainda que suas rígidas penitências debilitassem sua saúde, estava, não obstante, sempre pronto para confessar, pregar e empreender viagens a fim de cumprir difíceis missões, e pacificar príncipes e nações. No meio destes vários e gravíssimos negócios nunca deixava as orações e meditações de costume. Estando um dia na Igreja catedral de Spira, arrebatado em êxtase, pôs-se a cantar no meio do povo e do clero: o clemens, o pia, o dulcis Virgo Maria. Estas palavras agradaram tanto, que a Igreja acrescentou-as à Salve Regina, com que costuma honrar a augusta Mãe do Salvador.

Quando se espalhou a notícia da perigosa enfermidade de São Bernardo, de todas as partes acudiam pessoas a Claraval unicamente com o fim de ver pela última vez esse portento de sabedoria. Bispos e abades tinham-se reunido em redor dele para receber sua bênção e assistir à sua ditosa morte. Dormiu Bernardo no Senhor, nos braços de seus religiosos, no ano 1153, aos sessenta e três de idade. Por causa dos muitos milagres que se operavam sobre seu sepulcro, apenas vinte anos depois de sua morte, Alexandre II o inscreveu no número dos santos, e o sumo Pontífice Pio VIII no ano 1830 o contou entre os doutores da santa Igreja.

São Tomás de Cantuária

A Inglaterra, terra fecunda em santos, contou neste século, entre os muitos luminares da fé, a Santo Tomás, arcebispo de Cantuária. Nascido em Londres de nobres e piedosos pais, demonstrou, desde menino, tanto amor para com a verdade, que não podia sofrer que se faltasse a ela nem por gracejo. Seus talentos e suas virtudes o tornaram mui querido a Teobaldo, arcebispo de Cantuária, que o ordenou sacerdote e mais tarde arcediago de sua catedral. Sua aptidão para manejo dos grandes negócios lhe mereceu o cargo de conselheiro, ou primeiro ministro de estado. São Tomás exerceu este cargo com plena satisfação de todo o reino, e muito em particular, do rei, que o favoreceu de tal modo que nada queria que se fizesse sem ordem sua. Morto o arcebispo, elegeram a Tomás para lhe suceder. Não podendo subtrair-se a este cargo tão pesado, abandonou todas as pompas, cingiu um grande cilício em suas desnudadas carnes e vestiu o hábito monástico. Costumava passar as noites em oração e na leitura dos livros santos ao passo que de dia dedicava-se a obras de beneficência e a reformar os costumes do clero e do povo. Exemplar no ofício de chanceler, mostrou-se firme e invicto no ministério episcopal, e com ânimo varonil resistiu ao próprio rei, que de diferentes modos o perseguia cruelmente. Tomás teve de experimentar por muitos anos os rigores do desterro, até que, acalmando-se as iras do príncipe, voltou a sua sede episcopal.

Como continuasse, porém, sempre pregando contra as desordens públicas e privadas, acusaram-no perante o rei, o qual não cessou de armar­-lhe insídias; e queixava-se a seus cortesãos de que já não podia ter paz enquanto vivesse o arcebispo. Ouvindo isto alguns de seus satélites, pensando fazer coisa agradável ao soberano, foram às escondidas a Cantuária, e acometeram ao bispo enquanto se achava na igreja rezando vésperas. Querendo seus clérigos fechar as portas do templo, impediu-os dizendo-lhes: “A Igreja de Deus não se deve guardar como as fortalezas das cidades; eu de bom grado morrerei pela causa de Deus e da sua Igreja. Não peço senão esta graça, que meu sangue lhe restitua a paz e a liberdade que lhe querem tirar”. Pondo-se logo em oração e encomendando a Deus sua igreja, ofereceu sua cabeça ao ferro do verdugo com a mesma firmeza e constância com que tinha resistido às iníquas leis do rei. Morreu mártir no ano 1171. Tendo-se operado mais tarde muitos milagres mediante sua intercessão, o pontífice Alexandre III, três anos depois de sua morte, o colocou no cânon dos santos.

Heresia dos Valdenses

Os hereges chamados Valdenses começaram neste século a perturbar a Igreja. Devem nome e origem a Pedro Valdo, comerciante de Lion. Achando-se este em um banquete (Ano 1160), um seu amigo caiu morto a seu lado. Horrorizado com o fato, começou a exortar seus companheiros à pobreza voluntária; porém deixando-se levar pela imaginação, excedeu os limites e deu-se a pregar contra as riquezas que possui a Igreja, afirmando que o clero está obrigado a viver pobre e que não pode possuir bens sem cometer pecado. Deste erro extravagante passou a reprovar o culto das sagradas imagens, a confissão auricular, a extrema unção, as indulgências e o purgatório. Ameaçado em sua pátria saiu dela, e foi à Sabóia em companhia de alguns vagabundos; passou dali para Lucerna, perto de Pinerolo, onde ele e seus sectários tomaram o nome de Barbudinhos. Tendo sido refutados várias vezes seus erros, tornaram-se mais orgulhosos e por isso foram condenados no undécimo concílio ecumênico. Estes, contudo, até o século dezesseis ficaram mais ocultos; não tinham igrejas próprias, porém frequentavam as dos católicos e, quando podiam confundir-se com eles, pediam e recebiam todos os sacramentos da Igreja católica. Mas surgindo em Genebra a heresia de Calvino, pensou este homem astuto que ganharia muito mais se unindo aos Valdenses, que, cedendo a seu convite, abraçaram seus erros e desde então Valdenses identificaram-se com Calvinistas sendo eles, portanto muito diferentes dos primitivos Valdenses, sectários de Pedro Valdo.

Undécimo Concílio Ecumênico

Convocou este concílio o Papa Alexandre III no ano 1179 com o fim de condenar as Valdenses e outros hereges, e tratar também de alguns assuntos concernentes ao bem da Igreja. Foi este o undécimo Concílio Geral e o terceiro de Latrão; tomaram parte nele 302 bispos. Seu fim principal foi estabele­cer um meio conveniente para evitar toda sorte de desordens e cismas na eleição dos Papas. O Papa Nicolau II no ano 1059 a fim de obviar estes perigos, tinha reservado o direito de eleger o Papa somente aos cardeais; mas estes não concordando às vezes sobre a pessoa que tinham de nomear, acontecia que se elegiam ao mesmo tempo vários anti-Papas. Em vista disto, o concílio presidido pelo mesmo Alexandre, decretou que, dado o caso em que os cardeais não se achassem de acordo na eleição do pontífice, se reconheceria por legítimo o que tivesse obtido as duas terças partes de votos, e que se aquele que obtivesse a outra terça parte quisesse se declarar Papa, ficaria excomungado juntamente com seus instigadores. Este concílio condenou, como ficou dito, os Valdenses juntamente com os Cátaros, os Patarinos e outros hereges.