Maomé e sua religião

Nasceu este famoso impostor em Meca, cidade da Arábia, de família pobre, de pai gentio e mãe judia. Errando em busca de fortuna, encontrou-se com uma viúva negociante em Damasco, que o nomeou seu procurador e mais tarde casou-se com ele. Como era epilético, soube aproveitar-se desta enfermidade para provar a religião que tinha inventado e afirmava que suas quedas eram outros tantos êxtases, durante os quais falava com o arcanjo Gabriel.

A religião que pregava era uma mistura de paganismo, judaísmo e cristianismo. Ainda que admita um só Deus, não reconhece a Jesus Cristo como filho de Deus, mas como seu profeta. Como dissesse com jactância que era superior ao divino Salvador, instavam com ele para que fizesse milagres como Jesus fazia; porém ele respondia que não tinha sido suscitado por Deus para fazer milagres, mas para restabelecer a verdadeira religião mediante a força.

Ditou suas crenças em árabe e com elas compilou um livro que chamou Alcorão, isto é, livro por excelência; narrou nele o seguinte milagre, ridículo em sumo grau. Disse que tendo caído um pedaço da lua em sua manga, ele soube fazê-la voltar a seu lugar; por isso os maometanos tomaram por insígnia a meia lua. Sendo conhecido por homem perturbador, seus concidadãos trataram de dar-lhe morte; sabendo disto o astuto Maomé fugiu e retirou-se para Medina com muitos aventureiros que o ajudaram a apoderar-se da cidade. Esta fuga de Maomé se chamou Egira, isto é, perseguição; e desde então começou a era muçulmana, correspondente ao ano 622 de nossa era. O Alcorão está cheio de contradições, repetições e absurdos. Não sabendo Maomé escrever, ajudaram-no em sua obra um judeu e um monge apóstata da Pérsia chamado Sérgio. Como o maometismo favorecesse a libertinagem teve prontamente muitos sequazes; e como pouco depois se visse seu autor à frente de um formidável exército de bandidos, pode com suas palavras e ainda mais com suas armas introduzi-lo em quase todo o Oriente. Maomé depois de ter reinado nove anos tiranicamente, morreu na cidade de Medina no ano 632.

Milagre da Santa Cruz

Tendo Santa Helena encontrado o Santo madeiro da cruz fez depositar uma parte dele na igreja da Anastásia, isto é, na Ressurreição, levantada no monte Calvário. Ali ficou cerca de trezentos anos, até que Cósroes, rei da Pérsia, indo a Jerusalém, despojou a cidade de todos os ornamentos preciosos. Quando, porém, o imperador Heráclito venceu os Persas obrigou-os entre outras coisas a que restituíssem essa preciosa relíquia que fora roubada quatorze anos antes. Cheio de alegria o imperador, por ter voltado a recuperar tão valioso tesouro, ordenou uma grande festa na qual quis ele mesmo revestido com as insígnias reais levar a Santa Cruz ao Calvário; mas ao chegar ao pé do monte, foi detido por força invisível que crescia à medida que fazia esforços para caminhar para diante. Todos os que se achavam presentes admiravam com assombro o fato, quando o bispo de Jerusalém falou ao rei do modo seguinte:

“Atendei bem, ó príncipe! Que com vossas reais vestimentas talvez mui pouco imiteis a pobreza e humildade de Cristo quando carregava com essa mesma cruz”

Ouvindo isto se despojou o imperador das insígnias de sua dignidade e humildemente vestido, com a cabeça descoberta e pés descalços, voltou a por sobre seus ombros a sagrada carga, que sem a menor dificuldade levou então até o cume do Calvário e depositou no lugar mesmo onde a tinham levantado quando crucificaram o Salvador. Este fato aconteceu no ano 629, a 14 de setembro.

Costumava-se celebrar nesse mesmo dia uma festa em honra da Santa Cruz, talvez por ter sido esse o dia em que tão augusto sinal apareceu a Constantino. Em memória do novo milagre tornou-se esta festa muito mais solene e chamou-se Exaltação da Santa Cruz.

São Isidoro de Sevilha

Entre os gloriosos heróis, que com sua doutrina e santidade sustentaram a fé na Espanha é digno de menção São Isidoro, bispo e doutor da Santa Igreja. Nascera ele em Cartago de família ilustre por sua nobreza e piedade; com efeito, pelo sangue era unido aos monarcas de Espanha ao passo que dois de seus irmãos, Leandro, bispo de Sevilha e Fulgêncio, bis­po de Cartagena e sua irmã Florentina, mereceram a honra dos altares. Educado por seus santos irmãos em mui breve tempo foi um modelo das mais altas virtudes; tornou-se célebre também por seus conhecimentos nas letras latinas, gregas e hebraicas.

Como os Godos, senhores da Espanha, se achavam contaminados pelo arianismo, aplicou-se o santo com tal ardor em combater essa heresia que pouco faltou para que lhe não dessem a morte.

Falecido Leandro, seu irmão, apesar das oposições feitas, foi eleito para seu sucessor. São Gregório Magno, além de confirmar a sua eleição honrou-o ainda com o pálio, nomeando-o Vigário Apostólico de toda a Espanha. Exerceu o seu apostólico ministério levando uma vida mais angélica que humana. Era humilde, paciente e misericordioso com todos; Solícito em revigorar a disciplina eclesiástica e incansável em pregar. Promoveu as instituições monásticas, dando-lhes excelentes regras; construiu muitos mosteiros, edificando vários colégios, onde ele mesmo ensinava, reunindo assim muitos discípulos, que imitaram suas heroicas virtudes.

Entre estes se contam São Ildefonso, bispo de Toledo e São Bráulio, de Saragoza, ambos luminares da igreja espanhola.

Presidiu ainda o IV Concílio de Toledo, o mais célebre da Espanha; convocou outro em Sevilha, onde foram condenados os acéfalos, que ameaçavam infestar aquelas regiões. Depois de quarenta anos de episcopado, em que quase extinguira o arianismo, e depois de ter predito publicamente a sua morte e a invasão dos Sarracenos, na Espanha, foi para o céu, aos oitenta anos de idade, no ano 636.

Ganhou tal fama de santidade e doutrina que dezesseis anos após sua morte mereceu ser proclamado pelos 50 bispos do Concílio que se reunira então em Toledo, doutor egrégio e novo lustre da Santa Igreja.

Compara-se a São Gregório o Grande por suas virtudes, iguala-se a Santo Agostinho e São Jerônimo por seus escritos e diz-se que foi enviado do céu para instruir a Espanha, em lugar de São Tiago apóstolo que foi o primeiro pregador do Evangelho naquelas regiões. Femando I, rei de Castela, edificou um magnífico templo em sua honra e fez depositar nele seu corpo, glorificado por milagres e venerado com grande devoção.

Os Monotelitas e o Papa São Martinho I

A heresia de Montano foi um dos erros de Êutiques, isto é, daqueles que sustentavam que em Jesus Cristo há uma só vontade e uma só operação, ao passo que a Igreja Católica sempre ensinou que em Jesus Cristo há uma só pessoa e duas naturezas, a divina e a humana, tendo cada uma sua vontade e sua operação própria; de sorte que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, isto é, a vontade e a operação divina, a vontade e a operação humana. Chefes dos monotelitas foram Sérgio e Pirro, patriarcas ambos, o primeiro de Constantinopla e o segundo de Alexandria. Estes hereges empregaram toda a sorte de meios para arrastar o Papa Honório I a seu erro, pois os favorecia o imperador Constante. Para este fim escreveu Sérgio uma carta ao Papa em que lhe dizia que, em vista da efervescência de opiniões, seria coisa muito prudente proibir que se afirmasse, haver em Jesus Cristo uma só vontade e operação ou duas, e que se impusesse silêncio a respeito. Respondeu-lhe o Papa com duas cartas em que expunha claramente a doutrina católica; porém, não tendo advertido o laço que lhe havia armado Sérgio, aprovou como prudente o silêncio aconselhado por este. Não há dúvidas que o Papa teria condenado expressamente estes hereges, se antes de sua morte tivesse podido ver os progressos de seus erros e a maldade com que se interpretaram as cartas que ele tinha escrito. Isto o fizeram seus sucessores, e São Martinho I, especialmente, que desejando por um dique à difusão destes erros, os condenou definitivamente, dando nisto prova de grande valor, porque irritado o imperador, mandou a Roma um capitão para matar o Papa ou levá-lo preso a Constantinopla. O ímpio capitão, chegando a Roma, manda a um seu escudeiro que entre na Igreja de Santa Maria maior e mate ao pontífice, enquanto se achava celebrando o Santo Sacrifício. Obedece o sicário; porém ao por os pés nos umbrais do templo, perdeu repentinamente a visão. Não obstante isto, apoderaram-se do Papa, arrastaram-no vergonhosamente para Constantinopla, e este concluiu seus dias desterrado no Quersoneso, no ano 655, mártir da fé de Jesus Cristo. Pouco tempo depois, Constante recebeu o castigo que merecia, sendo assassinado por um seu criado enquanto o servia num banho. Sucedeu-lhe seu filho Constantino chamado Pugonato, bom príncipe e sinceramente católico.

Sexto Concílio Ecumênico

Desejando o novo imperador reparar de algum modo os graves males ocasionados por seu pai à religião, escreveu uma carta ao Papa santo Agatão, pedindo-lhe que, no uso de sua autoridade, se dignasse convocar um Concílio em Constantinopla. O Papa, que não desejava outra coisa, reuniu no ano 680, o sexto Concílio Ecumênico, terceiro Constantinopolitano. A abertura teve lugar a 7 de novembro desse mesmo ano a ele concorreram mais de 160 bispos, presididos pelos legados do Papa. Depois de um maduro exame foram condenados os erros dos Monotelitas, e se definiu, como tinha ensinado constantemente a Igreja, que se devia crer como verdade de fé, que há em Jesus Cristo duas vontades e duas operações, a vontade e a operação divina e a vontade e a operação humana. Escreveram logo ao Papa o que se tinha feito no Concílio, pedindo-lhe sua aprovação e confirmação. É bom saber que este Concílio de que se servem os adversários dos Papas para combater a infalibilidade Pontifícia, nos oferece ao contrário uma prova luminosa do acatamento à autoridade e superioridade do romano Pontífice nos Concílios. Com efeito, nessa ocasião, chamava-se a Agatão, santíssimo arcebispo da Apostólica e suprema Sé de Roma. Suas cartas foram recebidas e acatadas pelos padres do Concílio, como ditadas pelo Espírito Santo por boca do bem-aventurado Pedro. O que mais se pode exigir? Até a mesma definição de fé foi por eles feita inteiramente conforme às cartas de Santo Agatão e com suas mesmas palavras, afirmando que eles não tinham feito mais do que seguir a doutrina do Papa que era a mesma dos Apóstolos. Na carta sinodal que lhe dirigiram depois de se ter encerrado o Concílio, para que desse sua aprovação, falam-lhe nestes termos:

“A ti como primeira sede da Igreja universal, fundada sobre a pedra firme da fé, remetemos o que se há de fazer… pedimos à tua paternal santidade, confirme nossa definição de fé com teus veneráveis rescritos”