Morte de Pio IX

Os transportes de alegria dos católicos pela ocorrência do XXV aniversário de pontificado de Pio IX, renovaram-se ao festejarem o quinquagésimo da celebração de sua primeira missa; porém o de seu Jubileu Episcopal excedeu a todos os demais acontecimentos da História Eclesiástica, e a tudo o que é possível legar à posteridade. Basta dizer que no ano de 1877, fiéis cristãos de toda idade e condição, partiam das mais longínquas regiões de terra para irem venerar ao chefe da Igreja e levar a seus pés quanto possuíam de mais precioso em trabalhos de arte, em ouro, em prata ou em trabalhos científicos.

Mas a vida do homem é limitada. Pio IX, pela firmeza de sua fé, por sua caridade, por sua benevolência, por seus conselhos e por sua mansidão, tinha-se tornado a delícia do mundo, e dos corações. Os próprios heterodoxos o consideravam qual amigo, pai, irmão, e benfeitor.

Já corria o ano octogésimo sexto de sua idade e ainda conservava grande lucidez de espírito e seu ânimo viril. No mês de novembro do dito ano enfermou gravemente, porém pode melhorar e tornar a atender às audiências do costume, e dirigir aquelas pequenas práticas, que formaram sempre uma das glórias do seu pontificado. Porém à tarde de 6 de fevereiro de 1878 manifestaram-se vários sintomas de febre no venerando Pontífice. Agravou-se o mal durante a noite, na manhã seguinte administraram-lhe os consolos da Religião, que recebeu com os sinais de santo fervor, que todos podem imaginar. Ao anoitecer de 7 de fevereiro, entregou Pio IX sua formosa alma ao Criador. Voou a receber a merecida coroa dos justos e a gozar de presença da Imaculada Rainha do céu que tanto tinha honrado no curso de sua vida.

Eleição de Leão XIII

Quando se espalhou a notícia da morte de Pio IX comoveram-se todos os cristãos. A dor foi imensa e geral em todos os países, pode-se dizer, em todas as famílias. Somente a eleição de um digno sucessor pode consolar o coração dos católicos. Experimentou-se este consolo na eleição de Leão XIII ao trono pontifício. Concluídos os funerais do falecido Pontífice, os cardeais em número de 64 reuniram-se em conclave no palácio Vaticano, e 36 horas depois estava feita a eleição de uma maneira inesperada, recaindo ela no cardeal Joaquim Pecci, já notoriamente conhecido por sua grande ciência e virtude, e por sua prudência singular no manejo dos grandes negócios.

Nascido na pequena povoação de Carpineto, perto de Anagni, a 2 de março de 1810, da nobre família Pecci, fez a esplêndida carreira nos estudos e ocupou honrosos cargos na Igreja. Gregório XVI preconizou-o Arcebispo de Perugia em janeiro de 1846 e Pio IX o criou cardeal no consistório de 19 de dezembro de 1853. A 21 de setembro de 1877 o mesmo Pio IX o chamou a Roma para exercer o ofício de Camerlengo. Achava-se no conclave revestido com esta dignidade, quando todos os cardeais, vendo nele todas as virtudes necessárias para um grande Pontífice, proclamaram-no sucessor de Pio IX a 20 de fevereiro de 1878. Êmulo de seu predecessor, na firmeza, na afabilidade, na caridade e na prudência, seguiu inalteravelmente seus princípios e nobres exemplos. Entabulou relações com as potências estrangeiras, obtendo vantagens para a religião.

As missões estrangeiras formaram um dos maiores objetos de seu paternal zelo. Dão prova disto a hierarquia e o episcopado ereto na República Oriental do Uruguai. A república do Paraguai que desde muitos anos se achava aflita por sanguinolentos desastres e pela guerra civil, ouviu fielmente a voz do Pontífice de Roma e recebeu seu Núncio, preparando assim um campo vasto e uma copiosa messe aos obreiros evangélicos. Todos os católicos aplaudiram a eleição do novo Vigário de Jesus Cristo e unânimes rogaram a Deus que lhe concedesse longos anos de vida; aplanasse as dificuldades que encontrasse e o ajudasse a carregar a cruz inseparável do universal governo da Igreja. Oxalá pudessem vê-lo triunfar em todas as nações, em todos os povos! Teve este pontífice a consolação de ver o mundo em paz, e todos crentes permanecerem fiéis aos divinos preceitos e formarem um só rebanho ao redor de um só pastor na terra, para que todos juntos um dia chegassem a gozar da imensa felicidade do Céu.

Ensinamentos da História Eclesiástica

Apresenta-nos a História Eclesiástica alguns ensinamentos, que nos servem de consolo em nossa carreira mortal.

Que a Igreja Católica é filha de Deus Pai, esposa de Jesus Cristo e o templo do Espírito Santo; pois somente com o auxílio de Deus pode se sustentar, propagar e crescer no meio de tantos e tão grandes contrastes, que durante dezenove séculos se tem suscitado contra ela.

Que não nos devemos maravilhar das guerras dirigidas contra a Igreja. Uma só é a causa de todas estas guerras: o ódio do espírito das trevas contra Jesus Cristo.

Prova evidente da divindade da Igreja Católica, é que nunca se viu que um católico para levar vida mais perfeita, abandonasse sua crença para se fazer Judeu, mulçumano, herege; e os incrédulos abraçaram a fé católica para assegurar sua salvação.

Constitui outra prova da divindade da Igreja católica, que no ponto de morte muitos infiéis hereges e incrédulos fizeram instâncias para entrar no seio da Igreja, ao passo que naquele instante fatal nenhum católico tratou de fazer-se herege. mulçumano, ou incrédulo para salvar sua alma.

Que a Igreja Católica está fundada na autoridade do Sumo Pontífice, se conserva e propaga somente em virtude da fé e reverência que se professa a esta autoridade; e que, por conseguinte, é coisa de suma importância propagar e aumentar a submissão e o respeito ao Papa, cuja autoridade é infalível.

Que todos os cismáticos, os hereges e os protestantes, encontram, examinando a história, o dia em que tiveram princípio seus erros e em que começou a série de seus mestres; entre eles e o tempo em que viveu Jesus Cristo na terra passa uma distância mais ou menos longa; de sorte que nenhum deles pode ter recebido de Jesus Cristo sua doutrina, nem ter sucedido aos apóstolos. A história, pelo contrário, nos demonstra que o Pontífice Leão XIII, chefe da Igreja Católica, por uma série não interrupta de Papas, remonta de um a outro antecessor, até chegar a São Pedro, príncipe dos Apóstolos, constituído Pastor supremo pelo próprio Salvador. Por isso só a Igreja Católica é a Igreja de Jesus Cristo cuja doutrina foi pregada pelos apóstolos. Quanto às demais crenças, ainda que se arroguem o nome de Igrejas cristãs, não são Igrejas de Jesus Cristo, porém Igrejas do heresiarca ou chefe da seita, de quem cada uma delas se originou.

Finalmente, ainda que vejamos a Igreja perseguida, devemos permanecer firmes na fé e nos ensinos desse supremo Pastor. Procuremos, pois, conservar e aumentar em nós o espírito de fé, de esperança e de caridade na terra para merecermos um dia participar da glória, que Deus reserva aos verdadeiros católicos na bem-aventurada eternidade.

(Dom Bosco, o autor, morreu no dia 31 de janeiro de 1888, ainda no pontificado de Leão XIII. Foi canonizado pelo Papa Pio XI em 1º de abril de 1934).