A Imaculada Conceição

Logo que o Papa voltou à sua sede, chegaram-lhe de todas as partes do mundo os votos dos bispos atestando a crença geral de que Maria sempre tinha sido preservada do pecado original, e que era uma das maiores aspirações de seus diocesanos que se definisse dogmaticamente esta verdade. O pontífice estabeleceu então uma comissão de doutos teólogos e cardeais; mais tarde concedeu um jubileu de três meses, para excitar aos fiéis a dirigir a Deus ardentes votos, e convidou finalmente que fossem a Roma todos os bispos, que facilmente pudessem ir. Depois de uma discussão esmerada e profunda, se achou que era doutrina conforme às sagradas escrituras, constantemente manifestada pela tradição, isto é, na sagrada liturgia, nos escritos dos santos padres, nos decretos dos sumos pontífices, e no sentimento geral de todos os cristãos, que Maria tinha sido concebida sem mancha original, e que era coisa muito conveniente que se definisse essa doutrina como artigo de fé. Pio IX depois de novas súplicas, julgou que já tinha chegado o tempo de proceder à tão anelada definição; e assistido pelos cardeais, pelos patriarcas e por um grande número de arcebispos e bispos em presença de multidão imensa de sacerdotes e leigos, a 8 de dezembro de 1854, dia consagra­do a Maria Imaculada, antes de celebrar a santa Missa, pronunciou este decreto na basílica vaticana:

“É doutrina revelada por Deus que a Bem-aventurada Virgem Maria desde o primeiro instante de sua Conceição foi preservada de toda mancha da culpa original por singular graça e privilégio de Deus onipotente, em consideração aos méritos de Jesus Cristo. Salvador do gênero humano; e por isso todos os fiéis devem crer nela firme e constante­mente”

Em virtude desta definição desapareceu toda a dúvida acerca deste privilégio da Mãe de Deus. Com esta definição não introduziu o pontífice uma nova crença; só declarou dogmaticamente uma verdade revelada por Deus e acreditada já desde os primeiros tempos da Igreja.

A Obra da Propagação da Fé

Entre as maravilhosas instituições deste século conta-se a obra da Propagação da fé. Tendo Napoleão I suprimido os conventos e os mosteiros, despojado as igrejas e se apropriado dos bens sagrados, faltavam os meios para ajudar àqueles animosos sacerdotes, que, levados pelo desejo de salvar almas, iam a longínquos países. Pois bem, Deus para prover a uma coisa tão necessária como as missões, inspirou um meio eficaz que já produziu assombrosos efeitos. No mês de maio de 1822 uma jovenzinha de Lion convidara a alguns amigos e parentes seus a reunirem para fazerem pequenas ofertas semanais e juntar assim algum subsídio em proveito das missões. A obra era mui simples, santo o seu fim e por isso, Deus a abençoou. A oferta que se devia fazer não era e não é mais de cinco centésimos (um vintém) semanais; o que a faz se obriga a rezar um Pai Nosso e uma Ave Maria. De cada dez associados, um recebe o óbulo semanal e em troco se lhes oferece a leitura dos Anais das Missões que se imprimem de dois em dois meses. Sendo tão pequenas as ofertas, todos podem fazê-las. Por isso, ricos e pobres, patrões e criados, homens e meninos se inscreveram imediatamente na nova obra. Como já se disse, Pio VII a recomendou com sua autoridade apostólica, e os outros sumos pontífices a enriqueceram com muitas indulgências.

Gregório XVI e Pio IX foram mui zelosos promotores desta obra, que com a bênção do Vigário de Jesus Cristo cresceu maravilhosamente e se difundiu por toda a terra. Imprimem-se os anais em grande quantidade e em todos os idiomas, e se recolhem todos os anos mais de cinco milhões de francos. Com este socorro já se converteram à fé muitos milhões de idólatras.

Espécie de apêndice da obra da propagação da fé é a Santa Infância, chamada assim porque foi posta sob a especial proteção do Menino Jesus, e tem por fim resgatar as crianças pobres naqueles países em que como na China, são barbaramente vendidos e com frequência atirados no meio das praças para servir de pasto aos animais imundos. Obrigam-se todos os associados a pagar cinco centésimos por mês e rezar uma Ave Maria e uma jaculatória a Maria Santíssima e a São José. O sumo pontífice Pio IX, considerando a grande utilidade que a nova obra traria à religião, aprovou-a em cartas apostólicas de 16 de julho de 1856 e a enriqueceu com muitos privilégios e indulgências.

O Padre João de Triora

Deus, senhor do coração dos homens, ao passo que inspira em uns o zelo para promover sua glória em nossos países, infunde em outros o valor heroico de abandonar a pátria, parentes e amigos para empreender longas e perigosas viagens, cujo termo é geralmente o martírio. Somente a Itália conta uns dois mil destes obreiros evangélicos que presentemente trabalham sem descanso pela fé. Daremos a este respeito algumas breves notícias.

Começaremos pelo Padre João Francisco, natural de Triora, perto das costas da Ligúria. Depois de ter cursado seus estudos em Roma, partiu para as missões estrangeiras. No ano de 1800, depois de ter padecido grandes trabalhos, sofrimentos e perigos, chegava a Macau, cidade das fronteiras da China. No ano seguinte passou as fronteiras do Celeste Império, ainda que houvesse ameaça de morte para quem pregasse ou professasse naquele império a religião cristã. Não obstante isto, pode durante 15 anos pregar, catequi­zar, administrar os santos sacramentos, batizar as crianças e assistir os moribundos espalhados naquelas vastas regiões sem chegar a ser reconhecido pelas autoridades civis. Porém depois de ter sofrido fome, sede, fadigas de toda espécie, foi finalmente descoberto e denunciado aos mandarins. Arrastaram-no enquanto celebrava a santa Missa vestido com os hábitos sagrados; levaram-no em presença de diferentes tribunais, e o ameaçaram com tormentos e a morte, se não renunciasse a sua fé. Ele, porém, confessou com denodo que era cristão e que estava pronto a morrer mil vezes antes que dizer ou fazer coisa alguma contraria à fé de que era ministro. Queriam obrigá-lo entre outras coisas, a pisar o Crucifixo; porém não podendo os verdugos induzi-lo a tornar-se réu de tão horrível sacrilégio, punham eles mesmos por meio da força os pés da vítima sobre a imagem adorável de nosso Redentor. Em vista desse ato de violência horrorizado o santo exclamou:

“Não sou eu quem pisa este santo crucifixo, porém vós que com a violência me arrastais sobre ele”

Fizeram-­no padecer vários tormentos e finalmente depois de atarem-no a um pau, o enforcaram. Na sentença proferida contra ele se dizia que ia ser condenado à morte porque tinha pregado a fé católica. Não se podia pronunciar mais gloriosa sentença contra este animoso missionário. Seu martírio deu-se no dia 15 de agosto de 1815. (V. Museu das Missões, ano V).

Carlos Corney e Gabriel Perboire

Assinala-se a França entre as nações católicas em ministrar pregadores às missões estrangeiras e aumentar as fileiras dos mártires da idade moderna. Indicaremos alguns. O venerável Carlos Corney, sacerdote da missão de Vicente de Paulo, saiu de Paris no ano de 1830 e no seguinte unia-se a seus companheiros na China. Trabalhou para a conversão daqueles idólatras até o ano de 1837, em que foi descoberto e condenado à morte. Seu martírio foi bastante cruel. Estendido em terra, cinco verdugos ligaram estreitamente suas mãos e pés em quatro paus e puseram sua cabeça entre duas estacas fincadas na terra. A um sinal dado, um verdugo corta com um só golpe a cabeça do santo mártir, ao passo que os outros fazem o mesmo com os braços e os pés, dividindo-o em quatro partes. Este martírio deu-se a 20 de setembro tendo Corney apenas 28 anos de idade.

Gabriel Perboire, seu irmão em religião, depois de seis anos de trabalhos e fadigas, foi acusado porque pregava o Evangelho e por isso condenado à morte. Fizeram-no padecer prisão penosíssima, submetendo-o ao tormento das varas e a degradantes interrogatórios, seguidos de mil espantosas ameaças e sedutoras promessas. Ele, porém, venceu com intrepidez todos estes males e coroou seus sofrimentos com a crucifixão, suplício que padeceu contente e com coragem por amor de Jesus Cristo morto por ele na cruz. 11 de setembro de 1840.

Liberdade Cristã na China*

Os cristãos da China continuaram ainda sendo perseguidos por vários anos; porém a perseguição de nenhum modo entibiava o zelo dos missionários, posto que ir pregar o Evangelho equivalia a expor-se ao martírio. Finalmente teve Deus piedade daquela infeliz nação e dispôs que a Europa fosse por termo a tanta barbaridade. No ano de 1858, depois de muitas fadigas, despesas e guerras, a França e a Inglaterra conseguiram passar os limites do Celeste Império. Este fato demonstra a todas as luzes, de quanto a civilização europeia, que é fruto do cristianismo, sobrepuja à da China, produzida pelo paganismo, porque poucos milhares de Franceses e Ingleses alcançaram vitória e ditaram leis a um império de 400 milhões de habitantes. A França e a Inglaterra vitoriosas contra a China concluíram um tratado que contém, entre outros os seguintes artigos:

Todos os portos do império Chinês se abrirão ao comércio livre dos estrangeiros, que habitando em ditos portos, poderão gozar dos mesmos direitos que os Chineses, submetendo-se às leis do pais, sob a proteção de seus respectivos cônsules.

A religião cristã poderá ser exercitada em todo o Celeste Império.

Residirão em Pequim embaixadores europeus, ao passo que se mandará um embaixador chinês a Paris e outro a Londres.

Desta maneira depois de trezentos anos de perseguição, o sangue dos mártires, com produzir novos cristãos finalizou naquele imenso império a perseguição legal contra a Igreja Cristã. Os missionários puderam sair dos lugares escondidos, mostrar-se publicamente, reunir os cristãos dispersos, levantar igrejas, abrir escolas, casas de órfãos e hospitais. Diariamente acodem em seu auxílio novos missionários. Estabeleceram-se já ali muitos bispados, e na própria cidade de Pequim, capital do império, reside um bispo católico, que exerce com a maior solenidade e publicamente, e às vezes com assistência das autoridades civis, as augustas cerimônias de nossa Santa Religião.

*(Com a Revolução Comunista na China, processo que se iniciou em 1927 e culminou com a instauração do comunismo neste pais, a perseguição religiosa reiniciou e persiste até os dias de hoje).

Ordens Religiosas

Depois de queda de Napoleão I puderam os religiosos voltar a seus antigos domicílios e trabalhar de novo no campo evangélico, e ir às missões estrangeiras tanto na Europa como nas demais partes do mundo. Mas como por outra parte as antigas ordens não podiam voltar a seu primitivo rigor, suscitou Deus novas ordens e novas congregações que as suprissem em parte e satisfizessem às necessidades a que aquelas já não podiam acudir. Leão XII aprovou, no ano de 1826, a Congregação dos Oblatos de Maria, fundada por dois piedosos e doutos sacerdotes, Lanteri de Cuneo e Reinaudi de Carignano. No ano de 1836 foram aprovadas as religiosas chamadas Fiéis Companheiras de Jesus, cujo fim era a educação religiosa e civil das meninas; entre o grande número de suas casas, havia uma mui florescente em Turim.

O Instituto de caridade fundado pelo douto escritor Pe. Antonio Rosmini foi aprovado como ordem religiosa pelo Papa Gregório XVI no ano de 1839.

O mesmo Gregório, nos últimos anos de seu pontificado, aprovou o instituto de Sant’Ana e o das Penitentes de Santa Maria Madalena, fundados pela marquesa Júlia Barolo, muito célebre em Turim por suas obras de caridade.

Os seguintes institutos foram aprovados pelo sumo pontífice Pio IX:

1º As Filhas da Imaculada Conceição.

2º As Irmãs da Bem-aventurada Virgem Maria do Retiro.

3º As Irmãs de Santa Marta.

4º As Irmãs do SS. Salvador.

5º As Irmãs da Bem-aventurada Virgem do Bom Conselho.

6º E finalmente (1º de Março de 1869) a Congregação de São Francisco de Sales (ou Salesianos), fundada em Turim com o fim de promover a educação cristã, científica e literária da juventude, especialmente por meio dos oratórios festivos e das casas de beneficência.