Pio VII

Quando se deu a morte de Pio VI, os repuplicanos franceses tinham-se assenhoreado de Roma e de toda a Itália. O chefe da Igreja morrera no desterro, os membros do sacro Colégio achavam-se encarcerados ou dispersos; como se poderia eleger um pontífice? Não temamos; Deus que governa sua Igreja, saberá inutilizar os esforços dos homens. Efetivamente dali a pouco um exército austríaco ataca os franceses, expulsa-os de Roma e da Itália e os encerra em um estreito desfiladeiro entre a Ligúria e o Piemonte. Postos então em liberdade os cardeais, se reúnem em Veneza e elegem para ocupar o trono de São Pedro ao cardeal Chiaramonti de Cesena, que tomou o nome de Pio VII. Dirige-se este a Roma e toma de novo, com a maior solenidade, posse do poder temporal que lhe dera Deus para conservar a independência de seu ministério, entre as homenagens e as felicitações dos soberanos. Logo que os Austríacos cumpriram sua missão, travou-se a batalha de Marengo, e apesar de seu número e valor, são derrotados e desaparecem da cena. Prova evidente de que Deus lhes deu no primeiro encontro a vitória somente para o bem da Igreja, isto é, para que se pudesse eleger o novo Papa e tomasse novamente posse de Roma. Ano 1800.

Desavenças entre Pio VII e Napoleão

Cansada já a França de seus tiranos nomeou cônsul a Napoleão Bonaparte, que manifestava vontade e valor suficientes para restabelecer a ordem naquele reino mergulhado em tanta confusão. Cessa então a guilhotina, mitiga-se muito a perseguição, extingue-se o cisma constitucional e a França entra de novo na unidade católica. Bonaparte, porém, estimava talvez a religião somente enquanto servia a suas ambições. Firmou efetivamente uma concordata com o romano pontífice, que foi violada no ato mesmo de sua publicação, pois a acompanhou de certos artigos, chamados orgânicos, que contrastam com a própria concordata. Tendo-se feito proclamar imperador, pediu ao Papa que fosse a Paris para sagrá-lo. Pio VII titubeou longo tempo, e não se resolveu a ir senão abrigando a esperança de reprimir graves desordens e impedir muitos males que ameaçavam a Igreja. Por esse motivo saiu de Roma no ano 1804 e depois de ter atravessado a França, entre grandíssimas honras e aplausos, entrou em Paris e pôs a coroa imperial sobre a cabeça de Napoleão. Este correspondeu à condescendência do Papa com monstruosa ingratidão. Para conseguir que o Papa o coroasse, protestou que queria ser filho obedientíssimo da Santa Sé; porém assim que foi coroado escreveu cartas injuriosas ao Papa, e poucos anos mais tarde fez marchar suas tropas sobre Roma.

Depois da paz dada à Igreja por Constantino o Grande, Constante II protetor dos hereges monotelitas, foi o primeiro dos imperadores que, usando da violência, tirou de Roma ao sumo Pontífice, Napoleão quis ser o segundo. Pretendia este que o Papa lhe outorgasse coisas contrárias aos direitos da Igreja e ao bem da religião. Tendo-se recusado a isto o Papa, o imperador assalta Roma, apodera-se dela, rouba as obras principais de maior preço, entra à viva força no palácio Papal, desterra ou faz encarcerar a seus ministros, bispos ou cardeais, e encarrega ao general Radet da empresa sacrílega de se apoderar do Papa. Durante a noite um corpo de soldados escala, quais ladrões noturnos, o palácio pontifício, derrubam a machadas as portas, quebram as janelas e penetram no aposento do sucessor de São Pedro. Radet rodeado dos seus, ordena ao pontífice que saia imediatamente de Roma. Pio VII levanta os olhos para o céu e cheio de confiança n’Aquele que assiste a Igreja, entrega-se assim como estava nas mãos de seus inimigos, que o prendem com chave em um coche entre guardas, como se costuma fazer com os malfeitores. Ano 1809.

Prisão de Pio VII

O mortal Pio VII, durante seus cinco anos de cativeiro, mostrou-se sempre intrépido confessor da fé. Durante a via­gem aconteceram vários acidentes. Perto de Florença, por inexperiência dos cocheiros, virou com ímpeto o coche ao passar sobre uma elevação de terra e o Santo Padre caiu debaixo das rodas e teria sido esmagado, se Deus não o protegesse. Ficou três anos prisioneiro em Savona, e depois (1812) ordenaram-lhe que partisse para Fontainebleau, em França. Trataram-no durante o caminho com os modos mais bárbaros, obrigando-o a viajar dia e noite sem lhe permitir sair do veículo. Isto foi causa de arruinar sua saúde e estar a ponto de morrer. Ao aproximar-se de Turim, parecia que tinha chegado o fim de sua viagem, e no Monte Cenis lhe administraram a extrema unção, não obstante isto, não pode gozar de um momento de descanso. Chegado a Fontainebleau, separado dos seus conselheiros, rodeado por pessoas que tinham sacrificado sua fé e seu pudor ao despotismo de Napoleão, oprimido por ameaças, e segundo contam, até pelos golpes do ambicioso Imperador, assinou um escrito pelo qual deixava a nomeação dos bispos, isto é, dos pastores das almas, em mãos do poder civil. Mas arrependido logo do feito, revogou valorosamente o que firmara, e triunfou a fé.

Sua volta a Roma

Não podendo Napoleão seduzir o Papa a fim de secundar seus malvados propósitos, e como começassem de outra parte a sair-lhe mal suas empresas militares, achou conveniente restituir à liberdade àquele que de maneira alguma tinha podido vencer. O intrépido pontífice Pio VII, depois de cinco anos de prisão, de trabalhos, de ultrajes e de insultos, saiu finalmente de Fontainebleau para voltar à sua Sé de a 23 de janeiro de 1814. Ao passar uma ponte sobre o Rodano entre Beaucoure e Tarascon, ensurdecido pelos gritos de alegria com que o povo saudava ao Santo Padre em sua passagem, o coronel Lagone perguntou:

“Que faríeis se passasse por aqui o imperador?”

– Dar-lhe-iamos de beber”

Responderam a uma voz, mostrando o rio que corria a seus pés. Depois de quatro meses de viagem, entrou Pio VII solenemente na cidade eterna, com indizível alegria de Roma e de todos os bons.