São Gregório o Grande

São Gregório I, chamado o Grande por sua extraordinária santidade, eloquência e sabedoria, nasceu em Roma de pais nobres e ricos. Por seu admirável talento ocupou os principais cargos do Estado: conhecendo porém que as ocupações mundanas lhe roubavam os afetos do coração, renunciou a todas as suas dignidades, vendeu a todos os bens, distribuiu o total entre os pobres e outras obras de caridade abraçando a vida monástica. Era tão grande sua humildade, que foi necessário obrigá-lo, para se ordenar sacerdote. Tendo falecido em uma peste o Papa Pelágio II, os Romanos unânimes elegeram a Gregório para suceder-lhe. Espantado este ao ouvir tal noticia, fugiu e foi esconder-se em um bosque; mas uma coluna de fogo descobriu ao po­vo romano, e por último se viu obrigado a aceitar a dignidade pontifícia. Ano 590.

Missões na Inglaterra

Um dos primeiros pensamentos do novo pontífice foi o restabelecimento do cristianismo na ilha da Grã-Bretanha, chamada hoje com o nome de Inglaterra, pelos Anglos que se apoderaram dela em união com os Saxões pelo ano de 450. Como estes eram idólatras, aboliram completamente a religião e restabeleceram a idolatria. São Gregório enviou quarenta religiosos sob as ordens de seu discípulo Santo Agostinho, para pregarem a fé. Apenas os santos missionários começaram a pregação, converteu-se à fé grande número de idólatras. O rei de Kent (Cantuária), os magnatas de sua corte e quase todos seus súditos em breve abraçaram a fé. Querendo o pontífice dar forma estável àquela cristandade, criou ali uma hierarquia de doze bispos, nomeando arcebispo ao mesmo Santo Agostinho. A santidade dos missionários e os milagres que por todas as partes os acompanhavam multiplicaram de tal modo as conversões, que perto da cidade de Cantuária receberam o batismo no espaço de um só dia cerca de dez mil pessoas. Tomando-se, por conseguinte, sensível cada vez mais a falta de sagrados ministros que conhecessem bem o idioma e os costumes do país, quis o Papa que fosse enviados a Roma jovens ingleses, com o fim de se instruírem nas ciências sagradas e na piedade, e pudessem voltar a seu pais sagrados sacerdotes. assim no espaço de 80 anos foi convertida esta grande ilha a Jesus Cristo merecendo São Gregório o nome de apóstolo da Inglaterra. Igual solicitude empregou em benefício da Espanha e da Itália, esta última se achava então ocupada pelos Longobardos, em sua maior parte arianos ou idólatras.

Outros fatos memoráveis de São Gregório

Excede a toda ponderação o que este pontífice disse, escreveu, e fez em benefício da Igreja. Pode-se dizer obra dele o antifonário e o breviário que se usa hoje. Em uma epidemia que afligiu Roma, muitos morriam no ato de espirrar ou bocejar; São Gregório estabeleceu que se usasse a palavra Ave (Deus te salve) para os primeiros e que aos segundos se fizessem cruzes ,sobre a boca; estes sinais exteriores feitos com fé serviram de eficaz remédio para curar aos que eram molestados por aquela enfermidade. Instituiu as Ladainhas dos Santos, a procissão do dia de São Marcos e ordenou que não se dissesse a Aleluia desde Septuagésima até a Páscoa. Foram realizados por suas mãos vários milagres e, entre eles, o seguinte que tem relação com o SS. Sacramento:

Achava-se o santo celebrando, quando na ocasião de dar a comunhão a uma matrona que duvidava da verdade deste sacramento tomou a santa hóstia visivelmente a forma de carne. Finalmente depois de ter ocupado quase quatorze anos a Santa Sé, morreu no ano 604, aos 64 anos de idade.

Disciplina desta Segunda Época

Já no século quarto São Paulo; o eremita, costumava contar suas orações com três pedrinhas, assim como nós fazemos com as contas do Rosário. Observava-se grande rigor para com os pecadores que voltavam à penitência. Estes eram divididos em quatro classes, a saber: Gementes, Ouvintes, Prostrados e Consistentes. Os Gementes vestiam um saco e choravam seus pecados no átrio da Igreja, durante as sagradas funções, encomendando-se as orações dos que entravam; os ouvintes eram admitidos na Igreja perto da porta, e saiam com os catecúmenos depois de terem ouvido o sermão e o evangelho; os Prostrados ficavam ajoelhados e se lhes permitia receber várias bênçãos dos sacerdotes porém deviam sair ao ofertório; os Consistentes já podiam ouvir a Missa, mas não comungar.

Passava-se o tempo da penitência guardando rigoroso jejum; frequentemente consistia este em pão e água; rezavam sem cessar, ou dormiam sobre a terra nua. O pecador também devia submeter-se por muitos anos a esta disciplina antes que fosse admitido à sagrada comunhão; tamanho era o horror que se tinha ao pecado!

No quinto século São Zósimo, Papa, estabeleceu que se concedesse também às paróquias a faculdade de benzer o círio pascoal que não se podia acender então a não ser nas grandes Basílicas. São Felix II ordenou que somente os bispos pudessem sagrar as Igrejas novas. São Mamerto, bispo de Viena, na França, introduziu em suas dioceses as procissões, chamadas das Rogações, nos três dias que precedem a festa da Ascensão, durante os quais também se costumava jejuar; mais tarde São Leão III prescreveu esta prática para toda a Igreja.

No sexto século, São Gregório decretou que se começasse o jejum quaresmal pondo as sagradas cinzas sobre a cabeça dos fiéis. Os meninos que se julgavam aptos para os ofícios da Igreja, eram educados geralmente em colégios especiais ou nos mosteiros, vestidos com o hábito clerical. O Papa Sabiniano propagou na Igreja o uso dos sinos, já introduzido por São Paulino de Nola.

Todos os eclesiásticos e todas as Igrejas gozavam de imunidade; não estavam ligados ao juízo dos seculares, e dependiam tão somente do foro eclesiástico. Este direito que deriva do mesmo Jesus Cristo, tinha sido reconhecido por Constantino e pelos imperadores cristãos que lhe sucederam.

Estado da Igreja

O Estado da Igreja durante esta Segunda Época foi assaz glorioso. Os Papas dos três primeiros séculos coroaram seus trabalhos com o martírio; assim também seguiram seu exemplo uma multidão de cristãos que derramaram seu sangue pela fé. Quase todos os mesmos pontífices desta segunda época se contam no número dos santos já por trabalhos que tiveram de vencer e também pelas leis com que explicaram e defenderam a doutrina da Igreja. A par dos pontífices defenderam a fé contra os hereges muitos santos doutores, escritores eclesiásticos, monges, penitentes, virgens e confessores, os quais com sua ciência e santidade formaram uma das épocas mais luminosas da Igreja. Os Francos, que pareciam os mais apegados à superstição, também receberam o batismo, seguindo o exemplo de seu rei Clovis. Os Longobardos que se tinham estabelecido novamente no Piemonte e na Lombardia e deixavam entrever grande apego ao Arianismo e à idolatria, finalmente todos abraçaram a fé católica, levados a fazê-lo especialmente pela conversão de Agilulfo duque de Turim e mais tarde rei dos Longobardos. Este príncipe excitado por sua esposa Teodolinda, mulher piedosa e muito religiosa, rechaçou a heresia e abraçou a verdadeira fé, pondo em prática todos os meios a seu alcance para fazê-la florescer. Com o fim de garantir a paz em seus estados, expulsou deles os arianos e os pagãos que se tinham mostrado turbulentos; e de acordo com São Columbano, fundou o célebre mosteiro de Bóbio. Tendo devoção especial para com São João Batista, escolheu-o como padroeiro de seus estados e consagrou-lhe a catedral de Turim no mesmo lugar onde se levanta a basílica metropolitana. Agilulfo morreu no ano 615.