Donatistas e Santo Agostinho

Os Donatistas que tinham sido condenados solenemente no Concílio de Latrão, no pontificado de São Melquíades, sossegaram por algum tempo; porém pouco depois voltaram mais furiosos que antes. Apoderaram-se a mão armada das igrejas, saquearam e destruíram os altares e os demais objetos sagrados, e sua impiedade chegou até batizarem de novo, e à força a os que já tinham sido batizados, tratando cruelmente os que não queriam consentir nisso. A Providência, porém, suscitou, na pessoa de santo Agostinho, um bispo esclarecido por sua santidade e doutrina, que devia vencê-los juntamente com outros hereges.

Nasceu em Tagaste cidade da África no ano 354, e durante a juventude levou uma vida desregrada. Deus, porém, que o chamava para grandes coisas, ouviu as orações de sua mãe Santa Monica, e o atraiu a si de um modo extraordinário.

Tendo ido a Milão, chamado p~eo imperador para dar lições públicas de eloquência, ia com frequência, por mera curiosidade, ouvir Santo Ambrósio, que tinha fama de grande orador. Enquanto a graça divina ia abrindo caminho em seu coração um fato maravilhoso o resolveu a fazer-se definitivamente cristão. Passeava um dia em um jardim, quando ouviu uma voz que vinha do céu e que dizia:

“Agostinho, Agostinho, toma e lê” Admirado por estas palavras dirige-se maquinalmente para uma mesa, toma o primeiro livro que lhe cai à mão, abre-o e encontra aquelas palavras de São Paulo, que dizem: “Nem os impudicos, nem os gulosos alcançarão o Reino dos Céus.”

Desde esse momento mudou-se o coração de Agostinho, e convencido da vaidade das grandezas humanas, resolveu fazer-se cristão. Na idade de trinta anos recebeu em Milão o batismo das mãos de santo Ambrósio. Quando voltou a África se dedicou a oração e ao estudo, e progrediu tanto na ciência e na virtude, que foi ordenado sacerdote e depois bispo de Hipona. Trabalhou sem descanso para fazer voltar os donatistas para o seio da Igreja, e conseguiu converter grande número deles. Mas os que permaneceram no erro, mais enfurecidos que nunca, armaram insídias contra ele, e teria sido vítima de sua perfídia, se o não tivesse salvo uma especial proteção do céu. Os bispos católicos, aflitos por esses males, propuseram aos hereges uma conferência pública. Por isso todos os bispos da África, donatistas ou católicos, receberam a ordem de ir a Cartago. Para abreviar as discussões e deixar livre o campo a todos para que expusessem suas razões, escolheram sete bispos de ambas as partes, para que conferenciassem entre si em nome de todos. Santo Agostinho foi um dos eleitos para defender a causa dos católicos. Depois de estar inteirado da questão, apoiado na autoridade dos livros santos, provou à evidência que o bispo legítimo de Cartago era Ceciliano, que era válida sua ordenação e feita conforme todas as leis da Igreja, que por conseguinte não havia motivo algum para romper a unidade da Igreja, e que não restava outro recurso aos donatistas, para entrar no caminho da salvação, que o de voltar para o seio da Igreja Católica. Os bispos cismáticos nada tiveram a opor, e os povos que tinham confundido ate então o erro com a verdade, voltaram em grande parte, depois desta reunião, ao seio da Igreja. Ano 411.

Pelágio e seus erros

Já se tinham extinto quase completamente os donatistas, quando apareceu a heresia de Pelágio. Nascido na Grã-Bretanha de pais obscuros, abraçou hipocritamente a vida monástica na qualidade de leigo. Indo a Roma pode grangear a estima de algumas pessoas honradas. Seu erro principal consistia em negar o pecado original e a necessidade da graça para fazer obras dignas de recompensa. Esta novidade foi incontinente vigorosamente refutada por Santo Agostinho, a cujas instâncias se convocou um Concílio em Cartago, no qual se condenou a Pelágio, e seus sectários. Os bispos desse Concílio escreveram ao romano Pontífice Inocêncio I pedindo-lhe que se dignasse confirmar a sentença que eles tinham dado com a autoridade da Sé Apostólica o Papa lhes respondeu benignamente, elogiando-os porque tinham seguido a prática observada sempre e em todas as partes, isto é, não considerar por definida coisa alguma, ainda que se tratasse das províncias mais longínquas, antes de ter sido enviada a Santa Sé… Concluía confirmando com um decreto a sentença que estes tinham dado, excomungando os bispos pelagianos. Ano 417.

Os pelagianos, obstinando-se no erro foram condenados por outro Concílio, cujas atas igualmente se enviaram ao Papa para que as confirmasse, o qual assim o fez. Depois deste decreto, Santo Agostinho dava a causa por terminada e dizia:

“Relativamente a isto, já enviamos dois concílios a Sé Apostólica: esta respondeu; está pois concluída a causa; queira Deus que também se acabe o erro”

Não se cumpriu o desejo de Santo Agostinho. Pelágio e seus partidários tiraram a máscara e apelaram para um Concílio Geral; porém Santo Agostinho continuava afirmando, que para condenar um erro não era de absoluta necessidade um Concílio Ecumênico, pois bastava a sentença dos concílios particulares, confirmado pelo Sumo Pontífice. Por isso exprobrava energicamente aos pelagianos, que, por não terem conseguido infeccionar a Igreja com a pestilência de sua heresia, queriam ao menos perturbá-la, obrigando a que se reunissem os bispos em Concílio Geral. Deste modo foram rechaçados os hereges; Pelágio, porém, obstinado sempre em seu erro, andou errante por vários países, até que sem se saber onde, nem como, desapareceu no ano 420.

Morte de Santo Agostinho

Santo Agostinho não foi somente martelo dos donatistas e dos pelagianos, senão também dos hereges maniqueus. Esforçavam-se estes, naquele tempo, em corromper a Igreja. O Santo Doutor enquanto viveu, combateu-os vigorosamente com sua palavra e com escritos. Finalmente depois de ter consumido sua vida no cumprimento de seu sagrado ministério, na austeridade e nas penitências, chegou ao termo de seus dias em um tempo em que o mundo se achava muito agitado pelos transtornos políticos e religiosos.

Os Vândalos, depois de terem invadido e entregue a sangue e fogo a maior parte da África, sitiaram estreitamente a mesma cidade de Hipona. Reflexionando Santo Agostinho nos males que aguardavam as almas que lhe foram confiadas, se caísse a cidade em mãos dos bárbaros, pediu a Deus que a livrasse daquele sitio, ou que desse ao menos a seus cidadãos forças suficientes para suportar com paciência cristã tão grande flagelo e suas tristes consequências, aceitando sua própria vida em expiação de seus pecados e dos do povo. Deus o ouviu e dali a pouco apoderou-se dele grave enfermidade. Este grande varão, ao aproximar-se de seus últimos momentos, sentia profundo pesar pelos anos que tinha vivido ofendendo a Deus.

“Tenho-Vos conhecido demasiado tarde, Ó meu Deus, exclamava, demasiado tarde comecei a amar-vos, ó bondade suma de meu Deus.”

Mandou copiar. e colocar diante de si, na parede, os salmos penitenciais, e os lia muitas vezes na sua cama banhado em lágrimas; e para poder rezar e chorar seus pecados com maior liberdade durante os últimos dez dias pediu aos bispos, sacerdotes e aos demais amigos que se achavam presentes, que o deixassem só em seu quarto, e que ninguém entrasse nele senão para levar-lhe o alimento ou os médicos para visitá-lo. No último dia não podendo já ler nem rezar, chamou a seus amigos para que rezassem em voz alta ao redor de seu leito; repetia Agostinho as orações, e quando cessaram os lábios de rezar, sua alma já se achava no seio do Criador, gozando daquela felicidade, para cuja conquista havia empregado a maior parte da vida. Morreu aos 28 de agosto de 430 na idade de setenta e seis anos, tendo empregado quarenta no serviço da Igreja, primeiro como sacerdote e depois como Bispo. Com razão se chama luminar fulgentíssimo da Igreja, modelo dos teólogos, mestre de caridade, especial defensor da graça e martelo dos hereges.

Seu apego à Igreja Católica igualava a sua vasta ciência.

“Eu não acreditaria nem no Evangelho, escrevia, se a isso não me persuadisse a autoridade da Igreja Católica.”

Deplorando em outra parte, a desgraça dos que viviam fora do selo da Igreja Católica, exclamava:

“Aquele que se separa da Igreja Católica, ainda supondo que seja boa a sua vida, nunca possuirá a vida eterna; antes cairá sobre ele a cólera de Deus, unicamente pelo crime de se achar separado da unidade de Jesus Cristo. A bondade e a probidade que não respeitam a Igreja é refinada hipocrisia”

Terceiro Concílio Ecumênico – Nestório

O terceiro Concílio geral é o de Éfeso chamado assim porque reuniu-se na cidade desse nome chama-se também Concílio de Maria, porque nele se definiu que Maria é verdadeira Mãe de Deus e porque se reuniram os Padres em uma Igreja que a ela estava dedicada. Convocou-se este Concílio para condenar as impiedades e blasfêmias de Nestório, bispo de Constantinopla, que de pastor se transformou em lobo rapace, pregando e afirmando que se acham em Jesus Cristo duas pessoas, isto é, dois filhos, o Filho de Deus ou seja o Verbo, e o filho do homem, ou Cristo. Deste primeiro erro nascia outro, segundo o qual não se devia, nem absolutamente se podia chamar a Maria mãe de Deus senão mãe do Cristo que, na sua opinião não passava de um simples homem; não era pois Deípara senão Christípara. Estas blasfêmias causaram tal horror entre os cristãos, que ouvindo-as pela primeira vez na Catedral de Constantinopla fugiram da Igreja. Sabedor disto São Cirilo, patriarca de Alexandria, escreveu uma carta cheia de caridade a Nestório esmerando-se em persuadi-lo a que desistisse de erro tão ímpio; porém o soberbo Nestório respondeu-lhe com insolências. Então São Cirilo, seguindo o antigo costume das igrejas, como ele mesmo diz, denunciou a São Celestino I os erros de Nestório, pedindo-lhe que, valendo-se de sua autoridade, providenciasse com algum remédio contra aqueles males. O Papa examinou a questão, e achando falsa e contrária à fé da Igreja a doutrina de Nestório, primeiramente o admoestou e depois ameaçou com a excomunhão se não se retratasse. De nada serviram as súplicas nem as ameaças. O manso Pontífice quis tentar a última prova para convencer ao obstinado Nestório, convocou um Concílio Geral em Éfeso ao qual não podendo presidir em pessoa, delegou entre outros representantes, a São Cirilo.

Abriu-se o Concílio a 22 de junho do ano 431 achando-se presentes cerca de 200 bispos. Condenaram os erros de Nestório e com grande alegria dos fiéis, se definiu que em Jesus Cristo há uma só pessoa que é a divina, e que a Santíssima Virgem é verdadeiramente a Mãe de Deus, o que proporcionou grande alegria a todos os fiéis. Para propagar e conservar a memória desta definição, compuseram os Padres do Concílio a segunda parte da Ave Maria, oferecendo deste modo um meio fácil e simples de honrar e professar a divina Maternidade de Maria.

Fim de Nestório

Nestório não querendo emendar-se, nem cessar de levantar discórdias, foi excomungado, e logo desterrado para o Egito pelo Imperador Teodósio. Ali se apoderou dele horrível enfermidade que reduziu seu corpo a podridão, e a sua língua, que tinha blasfemado da Mãe de Deus, apodreceu, e vivendo ainda ele foi consumida pelos bichos. Objeto de maldição e espanto, morreu no ano 440.