Concílio de Rimini

Constâncio filho e sucessor de Constantino no Oriente, favoreceu desgraçadamente o arianismo, e para fazê-lo triunfar, reuniu um concílio em Rimini: porém todos os bispos, a uma voz, pronunciaram anátema contra os arianos. Não satisfazendo isto ao imperador, mandou um oficial seu ao concílio, o qual com promessas e ameaças induziu a maior parte dos bispos a subscrever uma fórmula de fé, na qual não se achava a palavra consubstancial. Conquanto essa fórmula não fosse herética, não exprimia, entretanto, com suficiência, a fé de Nicéia. Os aranos se jactaram muito com isso, como se com essa fórmula se tivesse adotado sua heresia, porém os bispos que a tinham firmado quando conheceram o sentido perverso que lhe davam os hereges se opuseram a ela, e professaram seu apego à fé de Nicéia. O Papa Libério unido aos blspos de todo o mundo, levantou a voz contra este escândalo, não servindo desta maneira nem a violência, nem a astúcia para obscurecer a fé católica. Ano 359.

Santo Antão, monge

Santo Antão
O primeiro e o mais célebre entre os solitários foi, como já se disse, São Paulo, porém a este não se considera como fundador da vida monástica, porque não teve muitos discípulos, nem deu uma regra fixa para este gênero de vida cristã; por isso geralmente se venera Santo Antão o Egípcio como fundador do monaquismo. Observe-se que se chamavam monges ou solitários os religiosos que viviam separados um dos outros, e habitavam em celas ou cabanas e as vezes em cavernas, distantes umas das outras, reunindo-se somente em certas ocasiões para orar juntos, assistir aos divinos ofícios, e receber instruções e avisos, ao passo que chamavam­-se cenobitas os religiosos que viviam juntos, e dormiam debaixo do mesmo teto. Só com o correr dos tempos, monge e cenobita tiveram o mesmo significado.

Nasceu Antão no ano 252, de pais virtuosos e nobres, e passou sua primeira juventude na piedade mais exemplar. Na idade de dezoito anos, entrando certo dia na Igreja em momento em que se lia este texto do Evangelho: “Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá aos pobres, depois vem e segue-me e terás um tesouro no céu” , tomando estas palavras como ditas para si, deliberou segui-las fielmente, e dando tudo o que possuía aos pobres, abandonou seus pais e amigos, e retirou-se as solidões da Tebáida. Ali deu principio a um método de vida o mais austero que se possa imaginar: servia-lhe de cama uma esteira ou a terra nua; alimentava-se uma vez por dia depois do sol posto, e sua comida consistia em escasso pão e água, servindo-lhe de vestimenta, um cilício e um manto de couro. Depois de muitos anos de vida muito austera, Deus lhe concedeu o dom de milagres, e isto lhe atraiu tal séquito de discípulos, que com grande assombro do mundo, povoaram imensos desertos que pareciam inabitáveis, formando-se várias comunidades em algumas das quais se achavam até mil e mais monges. Estes valentes cristãos animados por tal mestre, formavam um espetáculo não menos maravilhoso do que o dos mártires. Cheio de méritos e esclarecido pelos seus milagres, passou Antão a melhor vida no ano 357 aos 105 de idade. Sua vida foi escrita por Santo Atanásio.

Vida Monástica

A vida solitária ou monástica tinha por objeto observar a pobreza, a obediência, a castidade em seu grau mais perfeito, e fazer morrer totalmente o homem às coisas do corpo para fazê-lo viver só para as do céu. Para consegui-lo empregava-se quatro meios: o trabalho, o jejum, a solidão e a oração. O trabalho era muito penoso, e por isso ocasião contínua de áspera mortificação, consisti geralmente em fazer esteiras e cestos de junco, ou de palma, os quais vendiam dando quase todo seu fruto aos pobres. Não comiam senão uma vez no dia e o faziam ao do sol, e isso durante todo o ano exceto os dia de domingo e o tempo pascal. Seu alimento regularmente, compunha-se de ervas sem tempero algum, exceto o sal, e o azeite às vezes; uma ou outra vez também comiam tâmaras ou figos secos. Vida tão austera em vez de debilitar suas forças, as aumentava de tal modo que muitos deles chegavam a uma avançada e florida velhice. Todos sabemos que São Paulo morreu aos 113 anos, São Antão viveu 105; São Macário de Nitra igualmente seu discípulo chegou aos 100 anos. Estes e outros exemplos de vigorosa velhice demonstram que a vida sóbria e temperante é fonte de saúde e conserva vigorosamente as faculdades mentais. Muitos deles reuniam-se duas vezes ao dia para rezarem em comum, rectando cada vez doze salmos, ao que seguia-se a leitura da História Sagrada; o resto do dia rezavam de per si, encerrados em uma cela. Outros, que v­iviam muito separados, não acudiam a reunião senão aos domingos e dias festivos; os demais dias oravam a sós. Todos prestavam a seus superiores uma obediência ilimitada e perfeita, vendo Deus na pessoa deles; por isso reinava entre eles a mais admirável união, concórdia e caridade.

Juliano Apóstata

Enfurecido Satanás pela queda da idolatria no império romano, tratou de voltar a ressuscitá-la por meio do imperador Juliano, chamado comumente apóstata porque abandonou a religião cristã em que se tinha educado, e pôs em campo todos os meios a seu alcance para destrui-la. Era Juliano filho de um irmão do grande Constantino, e na morte de Constâncio como herdara ele todo o império, fez tudo o que pode para restabelecer o culto dos ídolos. Tendo predito Jesus Cristo que não ficaria pedra sobre pedra do templo de Jerusalém, e tendo os fatos, como vimos, correspondido plenamente as suas palavras, propôs-se Juliano a desmenti-lo reedificando aquele templo célebre; porém a única coisa que conseguiu foi tirar a última pedra sem poder sequer lançar os alicerces. Logo que começou o edifício não se tinham ainda assentado as primeiras pedras, quando sobreveio um espantoso terremoto que as vomitou do seio da terra, e as lançou contra os operários, especialmente judeus. Muitos deles que tinham corrido para ali com frenético entusiasmo para ver se conseguiam reedificar seu antigo templo, morreram sepultados entre as ruínas, deixando outros gravemente feridos. Tornou-se a tentar mais de uma vez a temerária empresa, e não se abandonou até que turbilhões de vento espalharam a areia, o cal e os demais materiais. Mas o mais prodigioso e terrível a um tempo é que saiam dentre aquelas ruínas glóbulos de fogo que serpeando com a rapidez do relâmpago, deitavam por terra os trabalhadores e os arrastavam consumindo muitos até os ossos e carbonizando outros, até chegavam a alcançar a alguns judeus que estavam muito longe e os sufocavam ou consumiam. Em vista de tão extraordinário milagre, não se atrevendo já ninguém aproximar-se daquele lugar, desistiu-se da empresa. Ano 363.

Perseguição de Juliano aos Cristãos

Exasperado Juliano pelo mau êxito da reedificação do templo de Jerusalém, condensou todo o seu ódio contra os cristãos, aos quais teria querido aniquilar se possível lhe fosse. Com este fim ajudava os hereges e os cismáticos, dando-lhes toda sorte de liberdades ao passo que despojava o clero de todos os seus bens e privilégios, dizendo em tom de zombaria, que não fazia mais do que fazê-los praticar a pobreza evangélica. Obrigava-os a pagar crescida soma para reparar os templos dos ídolos e não confiava cargos públicos aos cristãos nem permitia que eles se defendessem perante os tribunais. “Vossa religião, dizia-lhes, proíbe os pleitos e as pendências. Proibiu finalmente aos cristãos que exercessem o ofício de mestres de escola ou de professores nas academias, dizendo que era inútil o estudo das ciências e das letras aos que tão somente devem crer sem raciocinar.

Morte de Juliano

Este gênero de perseguição teria sido muito mais funesto para a Igreja do que a crueldade de Nero e de Diocleciano, se Deus não tivesse derrubado por terra os planos de Juliano com uma morte prematura. Tinha esse ido combater contra o rei da Pérsia com propósito de exterminar os cristãos assim que alcançasse a vitória; porém a mão poderosa do Senhor desbaratou os atrevidos planos do apóstata, e quando ele contava já com a vitória, uma flexa, cuja procedência se ignorava, atravessou-lhe o coração. Ao fazer força para tira-la cortaram-se-lhe os dedos, e caiu desmaiado sobre seu cavalo.. Tlraram­no dentre a multidão para curar a ferida; porém tornando-se-lhe cada vez mais agudas as dores, dava gritos de desespero. Caindo em um paroxismo de raiva arrancava com a mão o sangue de sua ferida e atirando-o para o céu exclamava: “Venceste, Galileu… venceste, Galileu”, referindo-se com essas palavras a Jesus Cristo contra quem sempre tinha combatido. Obstinado na impiedade morreu no ano 365, aos 31 anos de idade. Com ele caiu para sempre a idolatria no império romano. Jesus Cristo conseguiu novo triunfo e a Igreja Católica nova e muito esplêndida vitória.