Novas Ordens Religiosas

Enquanto os hereges se esforçavam para destruir a Igreja, a Divina Providência suscitava novas sociedades de religiosos e uma multidão de doutores, que com suas fadigas apostólicas, com sua santidade e com suas obras cheias de erudição cristã fizeram­-na florescer em todas as partes do mundo. A Ordem dos Teatinos, a dos Barnabitas, dos Capuchinhos, dos Somascos, dos Fate-bene fratelli, e muitas outras congregações religiosas, a instituição das quarenta horas, a celebração do Concílio de Trento, São Caetano, São Jerônimo Emiliano, São João de Deus, São Tomas de Vilanova, Santo Inácio de Loiola, São Francisco Xavier, São Pedro de Alcântara, São Filipe Neri, São Pio V, Santa Teresa, São Carlos Borromeu, São Francisco de Sales e muitos outros repararam gloriosamente os danos causados a religião.

Os Barnabitas

A congregação dos Clérigos Regulares de São Paulo, chamados também Barnabitas, foi instituída no ano 1530 por Santo Antonio Maria Macarias, sacerdote de Cremona e pelo venerável Bartolomeu Ferraria e Tiago Antonio Morigia, nobres cidadãos de Milão. Seu fim era promover com o exemplo e com toda a espécie de obras, próprias do ministério eclesiástico, a reforma dos costumes no clero e no povo. Foram chamados Clérigos Regulares de São Paulo porque escolheram a este grande apóstolo por patrono especial, cujas virtudes e zelo em conseguir a salvação das almas tratavam de imitar. Foram chamados mais tarde Barnabitas, por causa da igreja de São Barnabé em Milão, que eles estavam encarregados de oficiar. Sua congregação foi aprovada por Clemente VII, no ano 1533.

A princípio, não tencionavam estabelecer-se a não ser em Milão; porém logo, por conselho e obra de São Carlos Borromeu, seu grande protetor, começaram a se estabelecer em Monza, em Vercelli e em muitas outras cidades da Itália. Até princípios do século XVII os Barnabitas limitaram-se às obras que mais de perto pertencem ao ministério eclesiástico, como seja a reza do ofício em coro, a pregação e a administração dos Sacramentos; porém mais tarde, dedicaram-se também à instrução e educação da mocidade, abrindo escolas públicas e colégios em muitas cidades da Itália e França. Animou-os a dar este passo, São Francisco de Sales, que no ano 1612, os chamou de Milão onde estavam, para dirigir o colégio de Anecy. O bem-aventurado Alexandre Sauli, bispo de Pavia, o venerável Carlos Pescapé bispo de Novara, o venerável Cosme Dossana, bispo de Tortona, Guerini, amigo e sucessor de São Francisco no bispado de Genebra, Recrósio, bispo de Niza, Gattinara, arcebispo de Turim, pertencem à ordem dos Barnabitas. Pertenceram ainda a ela os cardeais: Morigia, arcebispo de Florença; o célebre Gerdil, Fontana, Lambruschini, arcebispo de Gênova, Cadolini bispo de Ancona, elevado depois à sagrada púrpura pelo sumo pontífice Pio IX, no ano 1866.

Os Capuchinhos

A ordem dos capuchinhos que é um ramo da grande ordem Franciscana foi fundada pelo venerável padre Mateus de Bassi chamado assim por causa do castelo deste nome no ducado de Urbino.

Desejava este ardentemente ver florescer na ordem de São Francisco aquela perfeita ob­servância da regra professada e estabelecida pelo fundador. Rezava muito com este fim; até que apareceu-lhe reiteradas vezes São Francisco, com um hábito grosseiro, com um capuz acabado em ponta e unido com o hábito, e um escapulário, intimou-o que observasse a regra vestido daquela maneira. assim o fez Mateus; mas, para estar isento de toda a ilusão, resolveu ir a Roma para obter a aprovação do Vigário de Jesus Cristo que era Clemente VII.

“Beatíssimo Padre, disse-lhe ele, sou um pobre sacerdote pertencente à ordem dos Frades Menores, e nada me interessa tanto como o cumprimento daquela regra que um dia, com voto solene, prometi a Deus observar, e imitar em quanto for possível a minhas fracas forças, a vida de nosso seráfico padre, muito descuidada hoje em dia. Depois de muitas orações compreendi ser vontade de Deus que, com este modo de vestir, me submetesse eu mesmo à observância regular do hábito e da vida perfeita de meu seráfico padre”

A franqueza e o candor destas palavras persuadiram ao Papa do verdadeiro zelo do padre Mateus e da divina inspiração que o guiava; por isso outorgou-lhe benignamente o que pedia, e fez extensiva a mesma faculdade a todos os que quisessem observar com mais perfeição a regra, vivendo daquele modo, e habitando em lugares solitários. Ano 1524.

Finalmente, no ano 1528, o mesmo Clemente VII, erigiu a nova instituição em congregação religiosa, sob o nome de Frades Menores eremitas; nome, que muito prontamente, a voz pública mudou pelo de capuchinhos, devido a forma do capuz que traziam. Mateus foi primeiro geral da ordem; porém, pouco depois quis abandonar o cargo para preparar-se melhor para a morte. Concluiu seus dias em Veneza, com fama de santidade e mi­lagres. Em vista do hábito grosseiro dos capuchinhos, de sua austeridade, de sua pobreza, e de sua pregação popular, cheia de espírito evangélico; vista abnegação e desprendimento com que publicamente se consagravam ao serviço dos enfermos nos hospitais, especialmente em tempos de epidemia granjearam a estima e o apreço universal, e em pouco tempo seus conventos multiplicaram-se em toda Europa. O Piemonte deve a seu zelo e trabalhos a volta à fé católica de várias povoações dos Alpes, que foram infeccionados pela heresia calvinista.

São Caetano e os Teatinos

Vicenza, cidade do território Veneziano, é a pátria de São Caetano, fundador dos Teatinos. Logo que nasceu, sua mãe o ofereceu à Santíssima Virgem Maria, à qual muito agra­dou a oferta. Caetano, por sua parte, mostrou-se digno de sua Augusta protetora. Nada admirava tanto nele como a ternura para com os pobres, aos quais distribuiu as riquezas que recebera de seus pais. Como, porém, não bastassem estas para as necessidades daqueles, ele mesmo ia pedindo de porta em porta para provê-los do quanto necessitassem. Sua vida angélica foi motivo para que todos o apontassem com o nome de Santo. Gra­duado em Pavia em ambos os direitos, foi a Roma, onde o Papa confiou-lhe o cargo de protonotário apostólico. Ordenado sacerdote, tornou-se um serafim por seu amor a Deus. Para preparar-se a celebrar a Santa Missa, empregava horas inteiras de meditação; às vezes passava até oito horas rezando. Fundou, à custa própria, vários hospitais, servindo ele mesmo com grande zelo aos enfermos e administrando-lhes com suas próprias mãos quanto lhes era necessário, ainda que sua enfermidade fosse contagiosa. Por seu zelo ardente em cuidar da salvação de seu próximo, foi chamado o caçador de almas. Não podendo só ele cumprir com todas as obras que constituíam o objeto constante de sua caridade, uniu-se a alguns zelosos companheiros com quem começou a levar vida comum. Dai teve princípio a ordem dos clérigos regulares, aos quais mandou São Caetano, que abandonassem todo terreno, que não tivessem rendas, nem andassem mendigando subsídios, senão que só vivessem de esmolas espontaneamente oferecidas. Clemente VII, tendo examinado as regras do novo instituto, incluiu-o no número das ordens religiosas. São Caetano, Pedro Caraffa e mais dois companheiros, pronunciaram seus votos solenes diante do altar mor de São Pedro, no Vaticano dando assim princípio à congregação dos clérigos regulares que, por terem escolhido como primeiro superior ao bispo de Teane, foram chamados Teatinos. No saque de Roma, que se deu no ano 1527 pelo exército de Carlos V, sob o comando do condestável de Bourbon, a nascente ordem correu perigo de perecer. O próprio Caetano foi cruelmente tratado, com o fim de obrigá-lo a entregar os tesouros, que já tinha repartido entre os pobres. Posto que atormentado e encarcerado, perseverou em seu teor de vida, confiando somente em Deus, que nunca abandona a ninguém. Promoveu muito especialmente São Caetano o respeito para com as coisas santas, a observância das cerimônias do culto divino a comunhão frequente, a assistência aos enfermos e a instrução do povo. Pelo grande fervor com que orava, com frequência era arrebatado em êxtases; tinha o dom da profecia e o de penetrar os corações. Em Roma, na noite de Natal, mereceu receber em suas mãos ao Menino Jesus, que lhe foi entregue pela mesma Virgem. Indo depois a Nápoles, ficou tão aflito pelas ofensas que se faziam a Deus em uma sedição, que caiu mortalmente enfermo. Consolado por uma visão celestial, voou ao céu no ano 1547. Seu corpo ainda se venera, com grande concurso de fiéis, em Nápoles, na Igreja de São Paulo.

São João de Deus e os Fate-bene Fratelli

São João de Deus nasceu em Monte Maior, em Portugal, de pais pobres, vendo-se obrigado por isto, des­de jovem, a ganhar o pão com o trabalho de suas mãos. Por boa ventura tendo ouvido um dia pregar o Padre Ávila sobre as vaidades da terra, ficou tão penetrado de suas palavras, que se fingiu louco para fazer-se desprezar, e como tal foi levado a uma casa de saúde. Mas conhecido seu fingimento e tendo saído dali, dedicou-se a recolher pobres enfermos, estabelecendo para isto um hospital em Granada. Carecendo de meios para mantê-los, ocupava-se de dia em prover a sua assistência, e de noite, com dois sacos ao ombro, andava pedindo esmolas e gritava em voz alta:

“Fazei o bem, irmãos, a vós mesmos”

Daí tomou o nome de Fate-bene fratelli sua ordem hospitaleira. Cheio de méritos descansou João no Senhor no dia 8 de março do ano 1550. Poucos anos depois, São Pio V expediu uma bula, em que punha a congregação entre as ordens religiosas. Pelo grande benefício que faziam aos enfermos e moribundos, os Fate­-bene fratelli foram chamados à Espanha, à Itália, à Alemanha e até à América. Este instituto religioso, depois de 254 anos de existência contava já sob sua direção, mais de 295 hospitais, com 9208 camas, cuidados por não menos de 3469 irmãos. Porém o feliz desenvolvimento desta ordem foi desgraçadamente interrompido pelos transtornos políticos que se produziram no princípio deste século, ao suprirem-se todas as ordens regulares. Ainda que a ordem dos Fate-bene fratelli ainda exista, e faça muito bem, sempre em vista do fim que lhe deu seu fundador, contudo, seu número diminuiu muito. Apesar disto, eles tem sido e serão sempre verdadeiros benfeitores da parte abandonada da humanidade. Seu fim único é o que lhes deu seu santo fundador, isto é, cuidar dos enfermos, e, em quanto é compatível com seu estado de leigos, ao passo que socorrem o corpo, nada esquecem para que seus doentes se disponham da melhor maneira possível para receber os últimos auxílios de nossa santa religião.

São Jerônimo Emiliano e os Somascos

São Jerônimo Emiliano, fundador dos Somascos, foi amigo e contemporâneo de São Caetano de Tiene. Nascido em Veneza, de nobre família, mostrou desde seus primeiros anos inclinação para a virtude, mas como no terceiro lustro de sua vida, se dedicasse à milícia, desgraçadamente deixou-se levar pela dissipação. Em tempos aziagos para a República de Veneza, encarregaram-no da defesa de Castello Nuovo, perto de Treviso; porém, tendo o inimigo tomado a fortaleza, feito prisioneiro, meteram-no em prisão, cumulando-o de ultrajes. Privado de socorros humanos, e esperando a morte daí a momentos, dirigiu-se a Deus chorando amargamente suas faltas, e fez promessa à Rainha do Céu que faria eficaz reparação delas logo que conseguisse a liberdade. Ouviu-o esta Mãe de misericórdia, apareceu-lhe, livrou-o das cadeias e o levou são e salvo a Treviso, fazendo-o passar por entre seus inimigos, enquanto estes se esmeravam em impedir toda comunicação externa.

Vendo-se tão prodigiosamente solto, correu logo a uma igreja da Bem-aventurada Virgem Maria, suspendeu numa parede as cadeias que ainda trazia ao pescoço, e voltando para Veneza, renunciou a todas as doçuras e comodidades da vida para ganhar almas a Deus. Domava seu corpo com jejuns e cilícios; e em uma carestia que afligiu a Itália, no ano 1548, vendeu até os móveis de sua casa para socorrer aos pobres. Sucedendo à carestia a peste, transformou sua casa em hospital. Atacado ele mesmo pela doença fatal, pediu a Deus saúde para poder fazer maior penitência de seus pecados; acedeu o Senhor a seu pedido, e melhorou. Vendo por toda parte crianças órfãs e reduzidas aos últimos extremos da miséria, fez-se pai de todas; recebeu-os em sua casa, e ele mesmo os educou. O mundo se admirava de ver a um nobre senador, a um capitão, vestido tão miseravelmente e feito pai dos órfãos. Mas sua caridade não se limitou a Veneza somente, senão que também fundou casas e hospícios em Brescia, Bérgamo, Como, Milão, e em outras muitas cidades. Chegado a Somasco, pequeno povoado a curta distância de Bérgamo, fixou ali residência para si e para os seus, daí o nome de Somasco que tem a congregação por ele fundada. Crescendo e propagando-se, encarregou-se a congregação também, para maior utilidade da Igreja, da instrução da mocidade nos seminários e colégios. Em seguida tendo encontrado Jerônimo uma cova no cume de um monte perto de Somasco escondeu-se ali; e lacerando seu corpo com disciplinas, passava dias inteiros sem tomar alimentos; fazia sua oração durante quase toda a noite e somente tomava algum descanso sobre uma pedra nua. No lugar mais escondido daquela cova, brotou, de uma pedra dura, graças às suas orações, uma fonte que ainda existe, cuja água levada a diferentes regiões, as mais das vezes restitui a saúde aos enfermos. Finalmente, em uma epidemia que infestou aqueles lugares, achando-se ele servindo aos enfermos e carregando sobre seus próprios ombros os cadáveres para lhes dar sepultura, foi surpreendido por aquele mesmo mal e expirou no ósculo do Senhor, no ano de 1557, aos cinquenta e seis de idade.

Santo Inácio de Loyola

Santo Inácio, espanhol, seguiu até a idade de vinte e um anos a carreira das armas. Fraturando uma perna no sítio de Pamplona, e sendo muito longa sua cura, pediu algum livro de cavalaria para passar o tempo. Como, porém, não se encontrasse nenhum desse gênero no lugar em que se achava, deram-lhe a vida de Jesus Cristo e dos santos. Começou a folhear o livro com má vontade, porém como trabalhasse nele a graça, encontrou nos exemplos que ali se narravam, coisas maiores que todos os heroísmos dos conquistadores, dos cavaleiros, e dos capitães, contados nas histórias de cavalaria. Depois de algumas lutas entre o espírito e a carne, tomou a resolução de imitá-los e de se fazer santo. Foi desde então sua vida um conjunto de feitos maravilhosos pela constância, zelo e atos heroicos de virtude. No ano 1534 fundou a Companhia de Jesus, justamente considerada como um dos baluartes levantados por Deus para resistir aos ataques dos novos hereges, e dos mais poderosos exércitos espirituais para propagar a fé nos países estrangeiros. Santo Inácio estabeleceu sua principal residência em Roma, e ali empregou o resto da vida em consolidar sua instituição. Teve a consolação de vê-la aprovada pelos Sumos Pontífices, e seus filhos, levarem frutos de graças e de bênçãos, a todas as partes do mundo. Cheio de méritos, esclarecido por virtudes e milagres, descansou no Senhor do ano 1556, sexagésimo quinto de sua idade.

Entre os mais célebres discípulos de Santo Inácio assinala-se São Francisco Xavier, que, pelos grandes trabalhos sofridos, pelos muitos milagres operados pelo prodigioso número de infiéis convertidos, mereceu o glorioso título de Apóstolo das Índias.

Adoração das Quarenta Horas – Esta prática, à qual se deve a conversão de grande número de pecadores e o progresso na virtude de muitos santos, teve princípio, segundo se pensa, em Milão, no ano 1534. Por causa das discórdias que apareceram entre Francisco I, rei da França, e o imperador Carlos V, os dois exércitos inimigos tinham convertido as planícies de Milão em campo de batalha, faltando pouco para que a mesma cidade e as demais povoações circunvizinhas, fossem miseravelmente expostas à licença, rapinas, incêndios e estragos dos soldados franceses, espanhóis, e alemães. Naqueles calamitosos tempos o Padre José de Fermo, capuchinho, divinamente inspirado, exortou os Milaneses a expor sobre o altar, pelo espaço de quarenta horas consecutivas, o Santíssimo Sacramento, em memória do tempo que Nosso Senhor Jesus Cristo esteve no sepulcro, assegurando­-lhes que se assim o fizessem, ver-se-iam livres da invasão inimiga. Foi ouvida a palavra do piedoso pregador, e tudo se deu como havia predito. Reconciliaram-se os dois monarcas e a paz tão suspirada voltou àquelas devastadas regiões dos Milaneses. Os sumos pontífices enriqueceram esta devoção com muitas indulgências, e em curto espaço de tempo, se propagou em todo o mundo católico, de tal sorte, que em muitas cidades populosas, foi instituída a adoração perpétua, isto é, a exposição do Santíssimo Sacramento, distribuída de tal maneira, que, todos os dias do ano, há em alguma igreja da mesma cidade, exposição das Quarenta horas. (Ben. XIV, Bov.)

Fim de Lutero

Este miserável apóstata depois de ter desprezado todo argumento e toda autoridade, e depois de ter queimado a bula do Papa que o condenara, não cessou de pregar a rebelião contra a Igreja e contra os príncipes. Refutado em repetidas ocasiões por palavra e por escrito, não sabendo já como se defender, apelou para um concílio geral. Convidado para assistir a ele, negou-se a princípio, porém logo respondeu enfurecido:

“Irei ao concílio, e que me cortem a cabeça se não souber defender minhas opiniões contra todo o mundo”

Mas o infeliz teve de ir defendê-las em presença do juiz divino. Certo dia depois de uma ceia opípara, acometeram-no fortes dores de estômago; levaram-no logo para a cama, porém as dores se tornavam cada vez mais atrozes. Cheio de cólera e vomitando horríveis blasfêmias, acabou miseravelmente a vida. Diz-se que, momentos antes de expirar, exclamou, olhando para o céu através de uma janela:

“Tudo está acabado para mim, pois, formoso céu, jamais te tornarei a ver!”

Morte semelhante a esta foi no nosso tempo a do infeliz apóstata Luiz Desanctis. Resolvera pregar em Florença, durante o concílio do Vaticano, uma série de conferências contra os dogmas da Igreja católica; deviam estas começar a 17 de janeiro de 1870. À tarde, do dia 31 de dezembro de 1869, enquanto se achava exaltando com seus amigos, depois de uma ceia suculenta, o êxito que esperava alcançar, foi surpreendido por fortes dores dos intestinos, seguidas de hemorragia de sangue. Levado à cama, ainda pode dizer:

“Empreendi um mau trabalho; temos de nos separar”

E dito isto, compareceu ante o tribunal de Deus.

Carlostádio

Carlostádio, professor de teologia em Wittemberg, era um dos mais zelosos partidários de Lutero; como, porém, se opusesse a algumas inovações deste, foi obrigado a abandonar sua pátria e refugiar-se em Ormeionda, cidade da Saxônia. Ali começou a censurar acremente a conduta de Lutero, o que deu motivos a escândalos e sublevações populares, de maneira que, o Eleitor de Saxônia, viu-se obrigado a enviar ali a Lutero para restabelecer a paz. Pelo caminho Lutero pregou em Jena, em presença de Carlostádio, a quem não deixou de chamar de ignorante e sedicioso. Ao sair do sermão foi Carlostádio vê-lo no hotel do Urso Negro, onde se hospedara. Ali, depois de ter-se defendido relativamente ao qualificativo de sedicioso, que lhe dera, declarou-lhe que não podia concordar com ele em relação à doutrina da presença real. Lutero então, com ar de desagrado, desafiou-o a que o refutasse por escrito, e prometeu-lhe um florim de ouro sempre que o fizesse. Carlostádio aceitou o desafio e ambos beberam, brindando um à saúde do outro. assim se declarou a guerra entre os dois apóstolos da reforma. Carlostádio ao separar-se de Lutero disse-lhe:

“Oxalá pudesse eu ver-te enforcado”

“Pois eu, respondeu-lhe Lutero, desejaria que quebrasses a cabeça antes de sair da cidade!”

Lutero foi muito mal recebido em Ormeionda, e pouco faltou, para que por instigação de Carlostádio, não o matassem. Lutero queixou-se disto ao Eleitor, e Carlostádio viu-se obrigado a refugiar-se na Suíça, onde Zuinglio e Ecolampádio tomaram sua defesa. Dali teve origem à seita dos sacramentários, assim chamada porque, contra Lutero, negavam a presença real.

A memória de homens de tão infames costumes, tais como Lutero e Calvino, devera-se sepultar no esquecimento como se faz com a dos homens abomináveis; porém como sua doutrina dá livre expansão às paixões, tiveram e ainda tem muitos sectários que a professam.

O Imperador Carlos V

Carlos V, depois de ter satisfeito sua desenfreada ambição com quarenta anos de esplêndidas vitórias, quis finalmente ir em busca de um reino em que pudesse achar a paz do coração, que buscara em vão até então nas riquezas mundanas. Com esta intenção renunciou à dignidade real e outros títulos e, desejando reparar as culpas graves que tinha cometido, retirou-­se para um convento dos padres Jerônimos, na Espanha, e ali passou o resto de sua vida no retiro e nos exercícios de piedade. Assistia aos ofícios divinos, comungava com frequência, e disciplinava-se com os monges. Às vezes, por estranho capricho; fazia celebrar seus funerais como se tivesse falecido, com o fim de ter mais viva a lembrança de que estava morto para o mundo. Depois de ter passado dois anos no retiro e na penitência, morreu no ano de 1558, e foi dar contas a Deus da frieza com que se opôs ao protestantismo que teria podido sufocar em seu nascimento; como também do sacrílego escândalo que deu ao mundo, saqueando Roma e encarcerando a Clemente VII.