Residência dos Papas em Avignon

A antiga sede do romano pontífice, onde São Pedro, divinamente inspirado, colocou o centro de toda a Igreja e do orbe católico, é Roma. Desde São Pedro até o ano 1305 nun­ca saíram dela os Papas, senão obrigados pela violência ou pela perseguição. E nesse caso logo que se viam livres, voltavam à cidade que, pelos seus monumentos religiosos, pelos mártires nela sacrificados pelos santos que a ilustraram, e pelos milagres de que foi testemunha em todos os tempos, com justo título adquiriu o direito de ser a capital do mundo cristão. Neste ano (1305), porém, uma série de tristes acontecimentos obrigou ao Papa a se retirar de Itália e fixar sua residência em Avignon, cidade que se acha na parte da França, chamada condado Venosino. Foi causa principal disto o rei de França e de Nápoles, chamado Filipe o Belo, que muito bem merece o nome de açoite da Igreja. Este queria, como fica dito, imiscuir-se nas coisas da religião, mas como o pontífice se opunha a seus perversos desígnios, a fez sair de Roma. Queria que o Papa fixasse sua morada em França para depender dele, fazendo-se assim Filipe, de certo modo, dono da Igreja. A morte de Benedito XI a Santa Sé esteve vacante quase um ano, sendo depois eleito Clemente V, francês, que foi coroado em Lion no ano 1305. Como continuassem em Roma as discórdias e prepotências, e não estivesse ali segura a liberdade, nem a vida dos Papas e dos concidadãos, o novo pontífice julgou conveniente estabelecer sua residência em Avignon.

Os Papas em Avignon

Avignon foi, pois, a sede dos romanos pontífices durante setenta anos. Compara-se este tempo com a escravidão que padeceram, por igual número de anos, os judeus em Babilônia, conhecida sob o nome de escravidão babilônica. A Itália, com efeito, não tendo já o Papa, perdeu seu esplendor, e Roma chegou ao cúmulo da desventura. Guerras civis, matanças, saques, violação das Igrejas, monumentos preciosos arruinados, queimados ou vendidos por preço vil, todas as obras de arte abandonadas, morta a indústria, paralisado o comércio, pobreza, fome e trabalhos nos dão uma ideia vaga do que foi Roma sem os Papas. Os habitantes, para salvarem suas vidas e não morrerem de fome, imigravam para outros países em busca de refúgio mais seguro. assim pois a gloriosa cidade dos Cesares quase se transformou em deserto; nas ruas e nas formosas praças dos Romanos brotava a erva como nos campos. Então se sentiu a necessidade de voltarem os Papas a Roma, não só para o bem da cidade como também para a tranquilidade e paz do mundo. Por isso, de todas as partes se dirigiam ardentes súplicas aos Papas, para que tornassem a fixar sua regular residência em Roma. O célebre Petrarca e mais ainda santa Catarina de Sena, tiveram grande parte nesse extraordinário acontecimento. Finalmente o pontífice Gregório XI, deu por cumprido o desejo de todos os bons e voltou para o antigo domicilio dos Papas. Esta gloriosa volta foi acolhida com aplauso universal e celebrada com grande festa. Ano 1377.

Grande cisma do Ocidente

Haviam já passado quatorze séculos sem que a Igreja fosse perturbada por algum rompimento religioso, quando infelizmente estalou o chamado cisma do Ocidente. Este durante quarenta anos, trouxe os povos e reinos católicos divididos entre si, pois reconheciam a um Papa uns e o outro Papa outros; donde se pode coligir quantos males se seguiram para a Religião. Deu origem a este cisma o fato seguinte:

Gregório XI, o animoso pontífice que tornara a estabelecer a sede apostólica na cidade eterna, cessou de viver no ano 1378. Ao eleger o pontífice que lhe devia suceder, uma multidão de descontentes, receosa de que o novo Papa voltasse à França, amotinou-se ante o conclave, pedindo que por nenhum motivo se elegesse um Papa francês, e que o eleito prometesse estabelecer sua sede em Roma. Os cardeais congregados responderam que nada podiam prometer, porque em assuntos de tal importância não se devia buscar mais do que a vontade de Deus. A eleição recaiu sobre o arcebispo de Bari, chamado Bartolomeu Prignano, que se chamou Urbano VI. Mas os inimigos da paz fizeram desordens e, ameaçando de morte ao Papa e aos cardeais, os obrigaram a se refugiarem na fortaleza de Castel Sant’Angelo, e em casas particulares, ou a fugir de Roma. Apaziguados aqueles tumultos, já tinha o novo pontífice começado a ocupar-se do bem da Igreja, quando doze cardeais franceses e outros quatro de diferentes nacionalidades, proclamaram outro Papa, francês de nação, que sob o nome de Clemente XIII estabeleceu sua residência em Avignon. A morte destes dois pontífices foram eleitos sucessores para ambos, e até chegou a haver três Papas ao mesmo tempo, isto é, Gregório XII, João XXIII e Benedito XIII.

Muitos males sobrevieram à Igreja neste cisma, porque, conquanto um grande número de católicos reconhecesse como Papa o que fora eleito em Roma, contudo, elegendo-se outro em Avignon, o mundo católico achava-se dividido em duas partes. Os soberanos arrogavam-se, além disso, o direito de declarar a qual dos dois seus súditos deviam considerar como Papa; e frequentemente impediam-lhes de conhecer qual era o Papa legítimo. Para remediar a tantos males foram convocados os concílios de Pisa, de Basiléia, de Constança e de Florença.

Permitiu Deus que este cisma afligisse a Igreja, como se disse, por quarenta anos, isto é, até que no concílio de Constança renunciando ao pontificado Gregório XII João XXIII e Benedito XIII, foi eleito o cardeal Othon Colonna que tomou o nome de Martinho V. Este fato aconteceu no ano 1417.

Ainda que este cisma tenha sido uma calamidade gravíssima para a Igreja, contudo a Divina Providência cuidou de que nenhum destes pontífices ensinasse coisa contrária à fé ou aos costumes. Deste cisma, nada se pode deduzir, pois, contra a infalibilidade do romano Pontífice, e não constitui senão uma prova de que a Igreja Católica é obra de Deus, não dos homens.

Wicleff

Enquanto o cisma dividia a Igreja, esforçava-se a heresia por aniquilá-la. João Wicleff, assim chamado pelo nome da cidade da Inglaterra onde nasceu, foi o corifeu dos hereges daqueles tempos. Ornado de não mediano talento, porém cheio de vanglória, abraçou o estado eclesiástico, confiado em que o sagrariam bispo. Vendo, porém, desvanecidas suas esperanças, rebelou-se contra a Igreja. O bispo de Cantuária e os outros bispos ingleses combateram e condenaram logo a impiedade do heresiarca e de seus sectários. Gregório XI aprovou a sentença destes contra Wicleff, e pouco depois o condenaram de novo no concílio de Constança. Porém Wicleff seguindo o exemplo dos outros hereges, em vez de humilhar-se, inflamou-se em cólera, e deu-se a vomitar blasfêmias contra o Papa, os bispos e particularmente contra o arcebispo de Cantuária, que em consequência disso foi barbaramente assassinado.

Deus porém não deixou impunes aos que se atreveram a ultrajar seus ministros, pois dos que assassinaram ao prelado, alguns ficaram loucos e outros foram condenados à morte pelas autoridades civis. O mesmo Wicleff, enquanto se achava pregando sarcasticamente contra São Tomas de Cantuária, foi surpreendido por uma terrível paralisia, que, ocasionando-lhe mortais con­vulsões, o deformou e retorceu-lhe a boca que fora instrumento de tantas blasfêmias. Enraivecido por não poder já falar, morreu desesperado no ano 1385.

Hussitas

Os erros de Wicleff passaram da Inglaterra para a Boêmia e originaram a heresia de João Huss. Chamava-se assim pelo nome da cidade da Boêmia onde nascera. Tendo concluído seus estudos em Praga, começou a espalhar os erros de Wicleff, pelos quais se combatiam as leis da Igreja, a autoridade do Papa, e outros artigos da fé. Citado a comparecer ante o concílio de Constança concordou com isso, e declarou por escrito que queria que o castigassem sempre que pudesse ser convencido de que havia caído em erro. O imperador Sigismundo, com o fim de facilitar os meios para se desculpar, deu lhe um salvo-conduto. Logo que chegou a Constança, mui longe de acatar o juízo da Igreja, recusou retratar-se. Não houve herege com quem se usassem maiores contemplações. Os padres do concílio, o imperador, e todos enfim, pública e privadamente empregaram toda sorte de meios para convencê-lo. Mas como se mostrasse cada vez mais obstinado no erro, conduziram-no à praça pública, e ali o despojaram de seus vestidos sacerdotais e o degradaram. O duque o entregou em seguida aos ministros da justiça, que, conforme às leis do império fizeram-no perecer entre as chamas. Ano 1414.

Discípulo de Wicleff e colega de João Huss na heresia, foi também Jerônimo de Praga, que como se obstinasse também na impiedade, foi como ele condenado às chamas pelo poder secular. Ano 1415.

Os Hussitas, depois da morte de seus corifeus, ainda causaram algumas leves turbulências; porém passado algum tempo, muitos deles reconhecendo-se culpados, abjuraram a heresia e prometeram obedecer ao Papa, que, em vista disso, os absolveu das censuras em que tinham incorrido. Ano 1436.

O imperador Wenceslau e São João Nepomuceno

Naquele mesmo tempo viu-se ocupar um dos tronos da Alemanha, a crueldade confraternizada com a prepotência, com o fim de tornar a um santo sacerdote traidor de seu ministério. Mas alentado este pela divina graça, resistiu heroicamente àquele cruel monarca, e foi o primeiro a receber a palma do martírio por ter guardado o sigilo da confissão sacramental. Reinava na Boemia Wenceslau IV, homem feroz, a quem sempre acompanhava um verdugo, para que se chegasse a ter sede de sangue, pudesse logo acalmá-la matando ao primeiro que encontrasse. Dispusera de tal modo de um aposento que, embora parecesse estar firme ao dar um golpe com o pé, se afundava em um rio. Serviu-se deste meio para matar a muitos e insígnes personagens. Escreveram um dia em seu aposento: Wenceslau, segundo Nero, porém ele em vez de envergonhar-se, escreveu a lápis mais abaixo: Se não fui, sê-lo-ei. Certo dia, porque não lhe agradou uma comida que lhe apresentaram na mesa, mandou que assassem logo ao cozinheiro naquele mesmo lugar onde tinha feito cozinhar aquela comida. Em suas ímpias extravagâncias chegou até a pretender que São João Nepomuceno lhe fizesse conhecer os pecados que lhe revelara em confissão a rainha. O fiel ministro de Jesus Cristo respondeu-lhe que, ainda que o ameaçasse de morte, de nenhum modo o induziria a violar no mínimo o sigilo sacramental. O rei, por algum tempo, tentou-o com blandícias, porém um dia como se mostrasse mais decidido que nunca em obrigá-lo a revelar-lhe os segredos de sua esposa, e como achasse o santo firme em sua negativa, o fez encerrar em uma das salas do palácio real e aí o submeteu ocultamente aos mais horríveis tormentos. Saindo o santo mui maltratado do palácio, preparou-se para a morte e com este fim foi a um santuário da Santíssima Virgem para implorar seu socorro. Ao voltar a Praga, vendo-o o rei de sua janela, o fez vir à sua presença e o intimou de novo lhe revelasse o segredo; porém permanecendo ele firme em sua negativa, mandou-o atirar imediatamente ao rio Moldava. Enquanto o corpo do mártir era levado pelas ondas, foi visto com uma coroa de estrelas ao redor da cabeça. Por isso os cônegos da catedral deram-lhe honrosa e solene sepultura. Assistiu a seu enterro grande multidão de povo. Muitos milagres foram operados sobre seu túmulo, e o Papa Benedito XIII colocou-o no número dos santos. Pouco tempo depois morreu Wenceslau e foi dar conta a Deus de suas crueldades e sacrilégios.

Décimo Sétimo Concílio Ecumênico

Os orientais, que no segundo concilio de Lion tinham entrado de novo no seio da Igreja católica, e dela tinham tornado a separar-se, deixavam entrever novamente vivos desejos de restabelecer a união, porque sentiam outra vez a necessidade do socorro do Papa contra os Turcos. Foi este um dos motivos que determinaram a convocação do concílio geral de Florença, que é o XVII ecumênico. Convocou-o Martinho V, no ano de 1431, na Cidade de Basiléia mais tarde, seu sucessor Eugênio IV o transladou para Ferrara, e dali, por motivo da peste, no ano 1493 foi transladado para Florença.

Assistiram a ele pessoalmente o imperador João Leólogo, o patriarca de Constantinopla e outros prelados, contando-se entre latinos e gregos, mais de 140 bispos e muitas outras personagens, presididas pelo próprio Pontífice. Foram tratados os pontos da controvérsia e os padres latinos e gregos de pleno acordo declararam que era doutrina revelada nos livros santos e contida na tradição, que o Espírito Santo procede do Pai e do Filho; que é válida a consagração da Santíssima Eucaristia com pão ázimo; que as almas dos que morrem estando na graça de Deus e livres de toda dívida vão imediatamente ao paraíso, e que ao contrário vão logo para o inferno, se estão manchadas de pecado mortal; que se estão em graça de Deus, porém ainda não acabaram de pagar suas dívidas à divina justiça, vão para o purgatório; que é o Papa o vigário de Jesus Cristo e sucessor de São Pedro, o chefe de toda a Igreja, o pai, e mestre de todos os cristãos, e que a ele deu Jesus Cristo na pessoa de São Pedro, pleno poder de apascentar reger e governar a Igreja universal. Por isso, no dia 6 de Junho, depois do Papa Eugênio celebrar a santa Missa, foi lido o decreto da União, firmado pelo Papa, pelos cardeais, pelos bispos e prelados gregos e latinos, e pelo próprio imperador, que o fez, todavia, debaixo de outra fórmula. Tudo deixava esperar que a união estabelecida com tanta solenidade tivesse de durar para sempre. Vã esperança! De volta a Constantinopla os gregos desdisseram-se de tudo o que tinham feito em Florença e seu cisma ainda continua em nossos dias. Deus porém não deixou sem castigo tão culpável cegueira porque no ano 1453, treze anos depois de ter violado a união, o grande Sultão Maomé II sitiou a cidade de Constantinopla e apoderou-se dela de assalto. Durou três dias o saque, durante os quais foram cometidas as mais horríveis crueldades. Os soldados matavam quantas pessoas encontravam, demoliam as igrejas, destruíam os altares, profanavam os mosteiros e tudo passavam a sangue e fogo. assim aquela igreja que não quis reconhecer a São Pedro que a tratara como pai, caiu sob o sucessor de Maomé, que a tratou como tirano.