São Marcelo

Foi eleito este Papa para suceder a São Marcelino, e governou com muito zelo a Igreja, durante cinco anos. Sagrou vários bispos, entre os quais figura São Emígdio, a quem enviou a pregar em Ascoli, Piceno, e foi o primeiro bispo daquela cidade, onde coroou seu apostolado com o martírio. Maxêncio, filho de Maximiano, que estava de acordo com Galério para perseguir os cristãos, logo que soube que Marcelo era seu chefe, o mandou prender, e o ameaçou com a morte se não renunciasse a sua dignidade e não sacrificasse aos ídolos. Recusando-se com grande constância a obedecer foi Marcelo condenado a servir nas cavalariças imperiais; porém o homem de Deus, ainda no desempenho de tão baixo ofício, não deixava de prover a manutenção da fé. Depois de nove meses de cárcere, foram de noite seus clerigos, e tirando-o daquele lugar, o conduziram a uma casa dos cristãos onde havia um oratório secreto. Achava-se este oratório em Roma, no lugar onde se levanta hoje a formosa Igreja de São Marcelo. Ao saber disto, Maxêneio transformou a Igreja em estrebaria e tendo feito levar ali vários animais, condenou o Papa a servi-los. Ali, consumido pelos trabalhos e sofrimentos, morreu pela fé no ano 309.

Morte de Galério

Galério morava glorioso na cidade de Sardes, quando, pouco depois do martírio de São Marcelo, cobriu todo seu corpo uma dolorosa chaga, aplicaram-lhe remédios, porém o mal se resolveu numa vergonhosa gangrena. Chamaram-se médicos, e puseram-se em prática todos os recursos da medicina, mas sem chegar a resultado algum. Enfurecido com isto, condenava a morte os próprios médicos. Ninguém podia se aproximar dele pelo cheiro desagradável que exalavam seus membros; finalmente um médico cristão teve bastante coragem para falar-lhe nestes termos:

“Recorda-te, ó príncipe, de tudo quanto fizeste contra os cristãos, e procura o remédio para teus males no que foi sua causa”

Vencido pelo excesso de suas doenças, aquele príncipe soberbo confessou como verdadeiro o Deus dos cristãos, reconheceu a santidade de sua religião, que tinha até então sido odiada pelos imperadores romanos; e em seguida fez publicar um decreto que já não se devia perseguir os cristãos. Como porém não fazia isto por se achar arrependido do mal que tinha feito, mas apenas pela atrocidade de suas dores, a mão do Senhor continuou pesando sobre ele e depois de um ano de horrorosa enfermidade, morreu miseravelmente, caindo-lhe as carnes aos pedaços. (V. Bar. ano 311).

Princípios de paz no Oriente

Ainda que Galério o tivesse promulgado contra a vontade, aquele famoso decreto não deixou de produzir bons resultados. Ao ser promulgado nas províncias do Oriente, foi como a primeira lei das autoridades romanas, que proibia perseguir os cristãos. E impossível significar com quanta alegria foi recebido pelos fiéis, que puderam assim professar publicamente sua religião. Os desterrados voltaram a sua pátria, os presos saíram dos cárceres, os que tinham sido despojados de seus bens, foram reintegrados em todos ou em parte, restituíram-se os cargos aos empregados, e deixaram-se todos em plena liberdade de levantar igrejas e participar dos ritos públicos da religião.

Mas na Itália e especialmente em Roma onde governava Maxêncio, continuou a perseguição até que aprouve a divina Providência dar paz a sua Igreja e fazê-la resplandecer e triunfar por meio de Constantino o Grande. É este o primeiro imperador romano que publicamente se declarou cristão e que com suas leis civis promoveu o estabelecimento e a autoridade de nossa santa religião. Este acontecimento glorioso abre a Segunda Época da história eclesiástica.

Disciplina da Primeira Época

Século Primeiro

No Concílio de Jerusalém aboliu-se a circuncisão e as demais cerimônias da lei mosaica. Os fiéis de Jesus Cristo começaram a chamar-se cristãos na cidade de Antioquia. Atribui-se a São Pedro a instituição da tonsura clerical; porém esta ainda não se usava nos três primeiros séculos, pois sendo perseguidos os eclesiásticos, ela os teria descoberto. Esta instituição não se pode generalizar até os tempos de Constantino.

A observância do domingo, em vez do sábado, e das festas do Natal, da Epifania, da Páscoa, da Ascensão, e de Pentecostes; o jejum da Quaresma, e das quatro temporas, o uso da água benta, o sinal da cruz, os ágapes ou banquetes comuns de caridade, tudo isto foi atribuído a São Pedro.

São Lino renovou o preceito de São Paulo, ordenando que as mulheres entrassem na igreja com a cabeça coberta. Diz-se que o Papa São Cleto instituiu a fórmula Saúde e bênção apostólica, o Pax obis e o Dominus vobiscum, na santa Missa. São Clemente dividiu a cidade de Roma em sete seções ou paróquias, e em cada uma delas estabeleceu um notário ou escrivão encarregado de recolher as atas dos mártires. Também atribui-se­-lhe o Canon da Missa, isto é, as regras que a Igreja romana observa nas orações e cerimônias do Santo Sacrifício, bem como a bênção dos frutos da terra.

Século Segundo

O Papa São Vitor estabeleceu que somente se administrasse o Batismo nas solenidades da Páscoa e de Pentecostes, e com água expressamente benta. Ordenou também várias orações e o jejum das sextas-feiras em honra da paixão do Salvador.

São Urbano, Papa, declarou que só os bispos são ministros ordinários do sacramento da confirmação, e que os bens eclesiásticos são de propriedade da Igreja por direito divino.

O Papa São Ponciano estabeleceu que se cantassem os salmos na Igreja e que se rezasse o Confiteor no princípio da Missa.

O Papa São Fabiano designou um diácono em cada uma das sete paróquias de Roma para o cuidado dos pobres, e instituiu outros tantos subdiáconos para recolher as atas dos mártires redigidas pelos notários de que já se fez menção, os quais assistiam aos interrogatórios e a morte dos campeões da fé.

Século Terceiro

O Papa São Calixto estabeleceu três dias de jejum durante cada uma das quatro estações do ano, chamadas quatro têmporas.

O Papa São Lúcio introduziu o costume de vestir a dalmática e a tunicela durante os ofícios divino. Declarou excomungados os que usurpavam ou delapidavam os bens da Igreja; decreto que confirmaram outros Pontífices e o Concílio de Trento.

O Papa São Estevão decretou que se benzessem, antes de usá-los, os sagrados hábitos e proibiu aos leigos o uso deles.

São Felix estabeleceu que, em quanto fosse possível, se celebrasse o santo sacrifício da Missa sobre os sepulcros e as relíquias dos mártires. Conserva-se ainda este costume; pois põe-se sempre alguma relíquia dentro da pedra sagrada sobre a qual se celebra o santo sacrifício.

O Papa São Eutiquiano ordenou que se fizesse o Ofertório na Missa; e a bênção do trigo, dos legumes e dos comestíveis. Também decretou que os cadáveres dos mártires se enfeitassem o melhor que fosse possível com um vestido chamado colóbio, ou dalmática de cor encarnada.