Cisma de Novaciano

Novaciano
O autor do primeiro cisma ou, o que significa a mesma coisa primeiro rompimento da unidade da Igreja Católica, foi Novaciano. Um tal Novato de Cartago, tinha semeado a discórdia naquela Igreja, enquanto São Cipriano se achava desterrado pelas perseguições. Cioso de gloria, Novato dirigiu-se a Roma para espalhar seus erros; ali se encontrou com Novaciano que desejava ser Papa em lugar de São Cornélio. Novaciano durante sua mocidade, sendo ainda idólatra, tinha sido possesso pelo demônio; porém livre já dele pelos exorcismos, determinou abraçar a fé. Enquanto era catecumeno e se fazia instruir no Evangelho, enfermou e se lhe administrou o Batismo estando na cama. Tendo melhorado, não recebeu sacramento da Confirmação, nem as demais cerimônias do Batismo, que tinham sido postergadas porque parecia muito inconstante na Religião. Conseguiu não obstante, fazer-se ordenar sacerdote, contra o costume de então de não ordenar aos que tinham sido batizados na cama por motivo de grave enfermidade.

Sobre vindo a perseguição, Novaciano ficou encerrado em sua casa. Os diáconos o convidavam para que saisse assistir a seus irmãos que perigavam, porém ele deixando-se arrastar pela cólera, separou-se deles dizendo que já não queria ser sacerdote. Novato, que não desejava mais do que encontrar um homem turbulento, juntou-se com ele e começou a ensinar o contrário do que até então tinha ensinado. Em Cartago tinha sustentado que se deviaa absolver aos apóstatas e agora em Roma se doía da demasiada facilidade com que se lhes permitia fazer penitência.

Primeiro anti-Papa

Cornélio foi eleito Papa a despeito das dificuldades de Novato e de seus amigos. Novaciano vendo burladas suas esperanças, protestou que não tinha ambicionado o pontificado; porém suas obras, prontamente, desmentiram sua asserção. Quando viu Cornélio na posse da Santa Sé, associou-se a Novato com o fim de excitar tumultos.

Querendo ser Papa a todo custo, reuniu em Roma alguns bispos, e tendo conseguido encerrá-los em sua casa, a altas horas da noite, com ameaças os obrigou a consagrá-lo, como se a Sede Romana se achasse vaga. Deste modo se efetuou a ordenação de Noviciano, primeiro anti-Papa e primeiro chefe do cisma, na Igreja Católica.

Ao cisma juntou a heresia, afirmando que a Igreja não podia dar a paz nem absolver aos que tinham caído em tempo de perseguição, ainda que fizessem penitência de seu pecado e suplicassem à Igreja que lhes perdoasse em nome de Jesus Cristo. Condenava também as segundas núpcias, motivo pelo qual seus discípulos foram chamados cátaros, isto é, puros ou puritanos, porque vestiam­-se de branco, afetando observar a virtude da continência, a qual por outra parte ultrajavam escandalosamente.

Novaciano para ligar mais seus setários no cisma, ao administrar-lhes a santa Eucaristia, tomava-os pelas duas mãos e os fazia jurar nestes termos: “Jura-me pelo corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo não abandonar-me jamais para voltar a Cornélio“; e tão somente aos desgraçados que respondiam: “Não voltarei a Cornélio“, dava sacrilegamente a santa hóstia e lhes permitia engoli-la.

Interrogatório de São Cornélio

A perseguição, que ainda continuava fazendo estragos, e as turbulências suscitadas por Noviciano, obrigaram ao Pontífice Cornélio a retirar-se de Roma e refugiar-se em Civitaveccia; onde eram tantas as cartas que diariamente escrevia, e a afluência de gente que de todas as partes a ele acudia, que parecia ter-se transladado Roma para ali. Foi este o motivo pelo qual o imperador mandou voltar Cornélio a capital afim de pedir-lhe contas das desordens que, seguindo dizia ele, diariamente suscitava. Mandou que comparecesse a sua presença durante a noite e 0 interrogava da maneira seguinte:

– Padece-te, ó Cornélio, que fazes o que deves? Qual a razão que te leva a não respeitar nossos deuses, e a não temer minhas ameaças, escrevendo, ao contrário cartas aos inimigos da república, em prejuízo da mesma?

Cornélio lhe respondeu com calma:

– As cartas que tenho escrito, e as respostas que recebi, em nada afetam os interesses da república; tão somente falam de Jesus Cristo meu Deus. Posso garantir-te que tudo o que tenho dito e feito não tem outro fim se não a salvação das almas.

O imperador mandou que se tirasse o Papa de sua presença e que se açoitasse seu rosto com um manojo de cordas, em cujas extremidades se haviam atado bolinhas de chumbo: ut os ejus plumbatis coederetur. (Acta mart. s. Com.).


Papa São Cornélio

Prisão e martírio de São Cornélio

Logo mandou o imperador que conduzissem Cornélio ao cárcere, onde a divina Providência dispôs que convertesse a fé o seu carcereiro chamado Cereal. Movido este pela santidade que o Vigário de Jesus Cristo manifestava em suas palavras e em suas obras pediu-lhe que fosse a sua casa para visitar sua mulher Salústia, que havia quinze anos jazia paralítica no leito. Consentiu Cornélio e foi a sua casa, acompanhado de seus sacerdotes e um leitor; e levantando os olhos para o céu, rezou da seguinte maneira:

“Senhor Deus, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis, vós que em vossa grande misericórdia tendes baixado do céu à terra para nos salvar a todos miseráveis pecadores, restitui sua primeira saúde a esta serva enferma, e tende misericórdia dela como tivestes do cego de nascimento de que nos fala o Evangelho, para dar a conhecer vossa glória e exaltar vosso santo nome”.

Em seguida tomando-a pela mão lhe disse: “Em nome de Jesus Nazareno levanta-te e caminha”; e assim como o cego de nascimento obteve a vista às palavras do Salvador, assim também Salústia, perfeitamente curada, se levantou exclamando em alta voz: “Verdadeiramente Jesus Cristo é Deus e Filho de Deus”. E iluminada pela graça do Senhor, disse a São Cornélio: “Peço-te por amor a Jesus Cristo que nos administres o batismo”; e dizendo isto, foi buscar água e a deu ao Pontífice para que a batizasse, dando então os primeiros passos depois de quinze anos de paralítica. Muitos soldados e os mesmos carcereiros, testemunhas deste milagre, pediram que se lhes administrasse o batismo. assim o fez Cornélio depois de tê-los iniciado suficientemente. e para agradecer dignamente ao Senhor, ofereceu por eles o sacrificium laudis, isto é, o santo sacrifício da Missa, e todos eles participaram do corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Tendo noticia o Imperador de tudo que tinha acontecido em casa de Cereal, encheu-se de indignação, e ordenou que se levassem todos aqueles cristãos à via Apia, para que fizessem um sacrifício a Marte sob pena de morte ao que se negasse fazê-lo.

Durante o caminho, encontrou São Cornélio o Arcediago Estevão e lhe recomendou que distribuísse aos pobres o pouco dinheiro que ainda ficava à disposição da Igreja. Ao chegar ao lugar designado, os guardas vendo que eram inúteis todos os seus esforços, cumpriram as ordens recebidas. Ao santo Pontífice cortaram a cabeça a 14 de setembro do ano 255, depois de ter governado a santa Sé cerca de dois anos. Cereal, Salústia e mais outros vinte, foram martirizados na mesma ocasião.