Origenes

Origenes

O célebre Origenes nasceu em Alexandria do Egito. Leonidas seu pai, cristão muito fervoroso, o educou com solicitude no santo temor de Deus, e desde a mais tenra idade o iniciou no estudo das divinas Escrituras. Tinha talvez dezessete anos quando seu pai, no império de Sétimio Severo, foi preso pela fé. Sabendo-o Origenes, queria a todo o custo ir ao martírio com ele, e era tal seu ardor, que sua mãe para impedir viu-se obrigada a esconder suas roupas, pondo-o assim na necessidade de desistir de seu propósito. Escreveu, não obstante, a seu pai uma carta formosíssima exortando-o a dar de bom grado sua vida pela fé, sem se deixar intimidar nem afligir-se por coisa alguma. Morto Leonidas, foram confiscados seus bens conforme costume, deixando sua família na miséria. Então Origenes, jovem como era, começou a dar lições de gramática e de literatura, para sustentar sua mãe e seus irmãos. Mais tarde o bispo de Alexandria ofereceu um campo vasto ao seu grande engenho, confiando-lhe a cadeira de Catequista naquela famosa escola do cristianismo, contando ele apenas dezoito anos.

Desejoso de compreender quanto melhor pudesse a doutrina de Jesus Cristo, fez uma viajem , a Roma, no ano 221, para observar atentamente os ensinos e costumes daquela Igreja, que ele chamava principal e mestra das outras Igrejas. De volta a sua pátria, continuou a dar lições e fez tais progressos nas ciências, que, conforme narra, a história, parece-nos um portento. Não se compreende, por exemplo, como pudesse um só homem ditar, durante várias horas consecutivas de dia e de noite, para sete copistas ao mesmo tempo, coisas diversas e da mais alta e sublime teologia; nem como pudesse compor tantos livros de erudição bíblica e eclesiástica, enquanto conferenciava ao mesmo tempo com uma turba de doutos e literatos, que recorriam a ele pedindo luzes e conselhos. Sua fama se tinha estendido tanto, que ninguém ia a Alexandria, cristão ou pagão, sem que fosse visitá-lo. Os bispos o convidavam, e posto que não estivesse investido do caráter sacerdotal, faziam-no pregar; finalmente o bispo de Jerusalém o ordenou sacerdote. Maméia, mãe de Alexandre Severo, que se pensa ter recebido o batismo, serviu-se muito de seus conselhos e de suas luzes. O imperador Filipe e sua esposa Severa tiveram relações com Origenes, que dirigiu a cada um deles uma carta cheia de conselhos sublimes e de sentimentos de piedade.

Fim de Origenes

Não obstante estar no fim da vida, teve de padecer graves tribulações, motivadas por certas doutrinas errôneas, que lhe escaparam talvez inadvertidamente ao ditar suas obras.

Tais são: os Comentários sobre as Santas Escrituras, os livros contra o filósofo Celso, e muito especialmente o que tem por título Periárcon, isto é, dos Princípios. Por outra parte quase não se pode por em dúvida que os hereges tivessem falsificado aqui e acolá alguns pontos dos seus escritos, e que a falsificação teve lugar ainda em vida de Origenes, pois que ele mesmo se queixava disto. O certo é que ele entendia viver e morrer como católico, e que por isso dirigiu uma carta ao Papa São Fabiano, a qual não chegou até nós; porém sabemos conforme o testemunho de São Jerônimo (Ep. 74) que ainda a pode ler, que nela dava a conhecer seu arrependimento pelos erros em que tinha caído. Quanto aos dogmas da Unidade e Trindade de Deus, da Encanação de nosso divino Salvador, do sacrifício da santa Missa, do sacramento da Confissão, da invocação dos Santos, e da hierarquia da Igreja. Origenes foi um testemunho de muita importância para a doutrina cristã no terceiro século. Este insigne doutor sofreu muito na perseguição de Décio em que foi carregado de cadeias, encerrado em um cárcere, e sujeito a graves tormentos. Mas mesmo no cárcere não cessava de escrever cartas a seus discípulos, recomendando-lhes que perseverassem na fé. Morreu na cidade de Tiro aos 69 anos de idade no ano 253.

Alguns bispos, ainda em vida de Origenes, iniciaram contra ele uma perseguição, por que se deixara ordenar pelo bispo de Jerusalém sem ter conseguido antes licença do seu próprio bispo, que era o de Alexandria; e também porque tinha compreendido e praticado mal as palavras de Jesus Cristo relativamente à castidade perfeita (Mt 19). São Jerônimo, conquanto combata acerbamente os erros de Origenes, fala muito sobre suas virtudes, e deixa entrever grande esperança em relação a sua eterna salvação.

Sede Romana Vacante

O assanhamento contra os cristãos durante a perseguição de Décio, foi a dolorosa causa de não se poder eleger o novo Papa senão dezesseis meses depois da morte de São Fabiano; e isso porque o imperador preferia, conforme diz São Cipriano, ter antes um competidor no império, do que ter em Roma um sacerdote de Deus. Isto nos demonstra como já conhecia Décio quão grande era a autoridade que tinha o bispo de Roma sobre toda a Igreja. Esse espaço de tempo chamou-se Sede vacante, porque não havia nenhum Papa. Quase se pode dizer que é o tempo mais longo da história eclesiástica, durante o qual faltou Pontífice à Santa Sé. Representava então o Chefe visível da Igreja o clero romano, que, como observa São Cipriano, tomou temporariamente as rédeas do governo; e com efeito os diversos países da cristandade, em suas graves necessidades espirituais, continuaram a recorrer a Igreja de Roma, ainda em tempo de Sede Vacante.

Os inauditos tormentos que se puseram em prática durante esta perseguição fizeram prevaricar muitos fiéis, e São Cipriano nos diz os motivos dessas deploráveis defecções. Muitos fiéis eram demasiado apegados aos bens da terra e as riquezas lhes ataram de tal modo os pés, que quando chegou o tempo de correr valorosamente para o martírio, acharam-se enlaçados e calram miseravelmente negando a Jesus Cristo.

Lapsos

Aos que prevaricavam davam-se vários nomes. Chamavam-se lapsos em geral os que de qualquer maneira tivessem negado a fé, porque do estado de filhos de Deus, a que tinham sido elevados pelo batismo, tinham caído miseravelmente para ser escravos de satanás, perdendo todo o direito a felicidade do céu.

Sacrificados

Os lapsos costumavam chamar-se sacrificados, quando tinham sacrificado aos ídolos, ou comido alguma coisa oferecida aos mesmos; pois que naquele infortunado tempo de prevaricação somente o comer essas coisas era considerado pelos gentios como sinal de ter negada a fé.

Turijicados

Chamavam-se os que para fugir os tormentos, consentiam em queimar incenso aos ídolos ainda que sem fazer ato algum de idolatria.

Idólatras

Eram os que por meio de sacrifícios ou de palavra declaravam ter renegado a fé católica para adorar os deuses.

Libeláticos

Compreendiam-se debaixo deste nome aqueles que tinham em seu poder uma carta dos magistrados; bastando-lhes mostrá-la para que fossem postos em liberdade. Os libeláticos se dividiam em duas classes: uns eram os que, entregando certa quantia de dinheiro, conseguiam uma carta em que se declarava que tinham sacrificado aos ídolos, ainda que não fosse verdade; e os outros eram os que pagavam para obter um certificado em que nada se dizia do que tinham feito ou dito e somente se notificava aos soldados e juízes que não os incomodassem. A conduta dos libeláticos da primeira classe foi altamente reprovada pela Igreja, pois ainda que fosse verdade que eles nada dissessem ou fizessem contrário a fé, contudo fazia crer aos pagãos que a haviam negado. Tinham feito escrever além disso naquela carta uma mentira injuriosa a Nosso Senhor Jesus Cristo, que disse:

“Aquele que se envergonhar de confessar-me diante dos homens, me envergonharei eu de confessá-lo diante de meu Pai celeste”. (Luc., 9-26).

Mas os da segunda categoria não foram condenados pela Igreja, porque não faziam mais do que comprar com dinheiro o privilégio de não se lhes molestar.

Mártires

Assim como aos que abandonaram a fé davam-se vários nomes que indicavam sua fraqueza e culpa, também aos que com animo varonil padeciam por Jesus Cristo davam-se títulos gloriosos, conforme o modo e o tempo em que confessavam a fé, e suportavam os trabalhos das perseguições. Chamavam-se mártires os que constantemente toleravam os suplícios pela fé ainda que não morressem nos tormentos. Por isto costuma-se chamar mártir a São João Evangelista, porque, para confessar sua fé, foi arrojado, em Roma, numa caldeira de azeite fervendo, da qual saiu milagrosamente intacto. Morreu muitos anos depois na paz do Senhor. Do mesmo modo chama-se mártir a Santa Técia pelos muitos e atrozes suplícios que padeceu por Jesus, ainda que não morresse neles; pois terminou sua vida pacificamente. Também merece o nome de mártir aquele que padece pela fé, ainda que não morra no suplício; porque a palavra mártir significa testemunha e os mártires, confessando fé entre os sofrimentos do cárcere, das cadeias e dos suplícios, dão público testemunho da verdade da religião católica.

Confessores

Chamavam-se assim os que confessavam em presença dos juízes seu caráter de cristãos, com perigo próximo de serem atormentados e mandados à morte, ainda que às vezes não sofressem mais do que o cárcere.

Extorres

Extorres é uma palavra latina que significa imigrado, nome que se dava aos que temendo não suportar os tormentos abandonavam suas riquezas, sua pátria, seus pais e amigos e iam estabelecer-se em países estrangeiros. Estes davam testemunho de sua fé antes com fatos do que com palavras, seguindo o conselho de Jesus Cristo que disse:

“Quando fordes perseguidos numa cidade, fugi para outra”.

Assim o fizeram São Paulo, primeiro eremita, São Atanasio bispo de Alexandria e outros.

Professores

Eram estes os que levados pelo amor de Deus animados pelo desejo de morrer pela fé, ofereciam-se espontaneamente aos verdugos e arrostavam todo gênero de tormentos. Entre estes tão somente são dignos de admiração e glória os que chegavam a este excesso de heroísmo, guiados por uma graça especial do Espírito Santo; porém os que o fizeram levados unicamente por certo entusiasmo, ou por tal ímpeto da natureza, tonaram-se culpados; pelo que a Igreja mais os reprovou como audazes, de que os louvou como fervorosos.