Papa São Urbano

São Urbano e Santa Cecilia

A São Calixto sucedeu São Urbano que pertencia a uma rica e nobre família romana. Desde simples sacerdote tinha trabalhado com zelo pela fé durante o pontificado de seus três antecessores. Acusaram-no várias vezes como cristão; levaram-no ao cárcere e perante os juízes; porém sempre venceu todos os sofrimentos, confessando intrepidamente a Jesus Cristo. Sua eleição para o pontificado teve lugar no ano 227. Enquanto se achava empenhado em ordenar a disciplina da Igreja, voltou a tomar vulto a perseguição de Alexandre Severo. Urbano prevendo o grave perigo que corria se continuasse cumprindo publicamente o sagrado ministério, escondeu-se nas catacumbas onde viveu ignorado dos perseguidores, porém conhecido dos Cristãos, que podiam recorrer a ele em todas as suas necessidades.

Entre os que instruiu na fé achava-se uma dama romana, chamada Cecilia, que desde o momento em que recebeu o Batismo, concebeu tal amor à virtude, que fez voto a Deus de sua virgindade. Para guardar dignamente esta virtude, recomendava-se com frequência ao seu Anjo da Guarda que muitas vezes aparecia-lhe visivelmente. Na idade de vinte anos, seus pais quiseram obrigá-la a casar-se com um jovem muito rico chamado Valeriano; porém chegando o dia das bodas, Cecilia chamou ao jovem a quem tinha sido prometida e disse-lhe: .

– Valeriano; eu tenho um anjo que zela por meu corpo, porque está consagrado a Deus; ai de ti se te atreves a profaná-lo!

Valeriano que desejava ver o anjo, respondeu-lhe:

– Só acredito no que me dizes, se eu vir o anjo de que me falas.

– Para ver este anjo tens de purificar-te, e acreditar que há um só Deus vivo e verdadeiro.

– O que devo fazer para purificar-me?

– Há um homem que sabe purificar os outros fazê-los capazes de ver os anjos. Vai à via Apia a três milhas desta cidade, ali encontraras uma reunião de pobres, pergunta-lhes onde vive o velho Urbano; ele te purificará por meio de uma água misteriosa, e depois verás o anjo.

Valeriano foi no mesmo instante procurar São Urbano e lhe expôs tudo o que Cecilia lhe dissera. O Pontífice o recebeu com bondade, e deu graças a Deus com as seguintes palavras:

“ó Senhor Jesus, verdadeiro Pastor e Redentor das almas! Abençoai vossa serva Cecilia que, qual abelha industriosa trabalha para vos servir, pois que seu prometido de leão furioso transformou-se em manso cordeiro. Agora dignai-vos, Senhor, completar vossa obra e fazer que seu coração se abra à graça, e Vos conheça a vós sumo Criador, renuncie ao demônio, às pompas e aos ídolos.”

Enquanto o Papa assim falava, apareceu São Paulo Apóstolo sob o aspecto de um venerando ancião, e disse a Valeriano:

“lê o livro que te entrego e se tiveres fé serás purificado e verás o anjo de que te falou Cecilia.”

Valeriano abriu o livro tremendo e leu estas palavras: “Há um só Deus Pai de todas as coisas, Senhor de tudo, que a todos nós governa.”

– Acreditas no que leste? Perguntou-lhe São Paulo.

– Sim, e o creio firmemente.

Dizendo estas palavras, desapareceu o ancião. Então Urbano animou Valeriano, instruiu-o nos mistérios da Religião, administrou-lhe em seguida o batismo, e depois de ter passado com ele a noite em oração, disse-lhe que voltasse para ver Cecilia. Foi Valeriano e a encontrou rezando, tendo a seu lado o anjo do Senhor em forma humana. Trazia em suas mãos duas coroas entrelaçadas com rosas e assucenas, pôs uma delas sobre a cabeça de Cecilia e a outra sobre de Valeriano, dizendo-lhes:

– Trabalhai, jovens, para conservar estas coroas com pureza de coração e santidade de vida. Trouxe-as do jardim do Paraiso: estas flores jamais murcharão. Agora, Valeriano, venho da parte de Jesus para te conceder tudo o que pedires.

– Anjo de Deus! Exclamou Valeriano, não te peço mais do que a conversão de meu irmão Tibúrcio.

– Ser-te-a concedido o que pedes, respondeu­lhe o anjo; da mesma maneira que Cecilia te con­verteu a fé, tu converterás teu irmão Tibúrcio e ambos alcançareis a palma do martírio; e assim di­zendo, desapareceu.

Valeriano contou a seu irmão Tibúrcio as maravilhas que tinha visto, e depois o conduziu ao Papa Urbano que o instruiu na fé e administrou-lhe batismo.

Santa Cecília, padroeira dos Músicos

Santa Cecília, padroeira dos Músicos


Martírio de Santa Cecilia e de seus companheiros

Quando chegaram aos ouvidos de Almáquio, prefeito de Roma, as novas da conversão e do zelo de Valeriano e Tibúrcio, chamou-os a sua presença e fez-lhes um sem número de perguntas; porém, confundido com suas sabias respostas e não sabendo que partido tomar, disse-lhe um de seus assessores para tira-lo das dificuldades. “Condenai-os ambos à morte e ficai com seus bens.” Seguindo este conselho, Almáquio os mandou levar ao templo de Júpiter, para serem ali decapitados se não oferecessem incenso a uma divindade. Maximo, secretário do prefeito, acompanhava-os ao lugar do suplício com uma escolta de soldados; contemplando, porém, aqueles nobres jovens indo à morte como se fossem para um grande festim, sentiu-se também ele com desejos de abraçar a fé. Com o fim, pois, de que o instruíssem na Religião, levou-os à sua casa, onde a graça de Deus o venceu de tal modo que ele, sua família e outros acreditaram em Jesus Cristo. Tendo ido ali durante a noite o Papa Urbano com outros sacerdotes e Santa Cecilia, e encontrando-os suficientemente instruídos, lhes administrou logo o batismo. Poucos minutos depois chegou o verdugo, que com transporte de furor cortou a cabeça aos dois irmãos Valeriano e Tiburcio, cujas almas voaram a habitar eternamente o Céu. Nesse mesmo dia recebia Máximo a coroa do martírio.

O prefeito, não encontrando dinheiro algum na casa de Tiburcio e Valeriano, voltou seu furor contra Urbano e Cecilia; e não podendo encontrar Urbano, enviou seus esbirros à casa de Cecilia.

Esta, porém, que se tinha transformado em apóstola de Jesus Cristo, falou-lhes de tal modo, que os converteu a fé: em seguida mandou chamar Urbano que lhes administrou os sacramentos do batismo e da confirmação. Quase chega a quatrocentos o número das pessoas que se batizaram nessa ocasião, entre soldados e outra gente. Ao chegar ao conhecimento de Almáquio a conversão dos seus próprios emissários, mandou que conduzissem Cecilia ao seu tribunal, e começou por convida-la a que não se obstinasse, a Santa, porém, respondeu-lhe:

– Eu me considero ditosa em confessar Jesus Cristo em qualquer lugar e a despeito de todos os perigos: não tenho medo de poder algum contrário as leis do meu Deus .

– Ignoras acaso que nossos invictos imperadores e nossas leis castigam com a morte aos que se declaram cristãos, ao passo que premiam com muita liberalidade aos que renegam sua Religião?

– Vós e vossos imperadores cometeis um erro indizível; e a lei que proclamais não prova mais do que uma só coisa, é e que vós sois cruéis e nós inocentes, porque se o nome do cristão fosse um crime, nós mesmos faríamos o que pudéssemos para nega-lo.

– Vamos, donzela miserável, não sabes que nossos invictos príncipes puseram em minhas mãos o poder de vida e morte? Como te atreves a falar-­me com tanta arrogância?

– Falei-te com firmeza e não com arrogância; além disso disseste que teus príncipes deram­-te o poder da vida e morte; isto é falso. Tu não tens mais do que o poder de dar a morte; podes tirar a vida aos vivos, porém não a podes dar aos mortos.

– Acaba; deixa teu atrevimento; sacrifica aos deuses e salva tua vida. Ali tens no pretório as estátuas que deves incensar.

– Como é isto, prefeito? Até falta-te o sentido da vista? Eu não vejo aqui mais do que pedras, bronzes e algum outro metal; estes por certo são divindades. Apalpa essas estátuas se e que as vês, e sentirás que são corpos, porém não espíritos, que não merecem mais honra do que a de serem atiradas ao fogo. Quanta a mim, creio que somente Jesus Cristo é o que pode livrar minha alma do fogo eterno.

Almáquio para evitar tumultos no povo que amava muito Cecilia por suas obras de caridade, mandou que se the desse a morte ocultamente em sua casa. Os verdugos atiram-na dentro de uma estufa, que era uma espécie de aposento para tomar banhos a vapor, e aqueceram-na bastante para faze-la morrer sufocada; Cecilia, porém, não só saiu ilesa se não que Deus a confortou com sua prodigiosa presença como já o tinha feito com os três meninos no fogo de Babilônia. Ao saber isto, Almáquio ordenou que imediatamente lhe cortassem a cabeça; porém, como não pudesse o verdugo nem ao terceiro golpe separa-la do tronco ficou ali Cecilia três dias agonizando e nadando em seu próprio sangue. Os pobres que tinham gozado de seus benefícios, com muitos outros cristãos, sem se importarem com o perigo a que se expunham iam valorosamente visita-la, e ela os exortava a que fossem constantes na fé. São Urbano também correu pressuroso a assisti-la durante aqueles prolongados sofrimentos, e ela vendo junto a si o Vigário de Jesus Cristo exclamou:

“Beatíssimo Padre, dou graças a Deus, que em sua grande misericórdia dignou-se ouvir minha oração. Eu lhe tinha pedido que me desse ainda três dias de vida para que pudesse ser consolada com vossa presença e recomendar-vos ao mesmo tempo algumas coisas. Peço-vos, pois, que cuideis de meus pobrezinhos, dai-lhes tudo que encontrardes em minha casa; esta transformai em Igreja para que possa servir para sempre aos fiéis, que ali se queiram reunir para cantar as glórias do Senhor.”

Dizendo estas palavras, sua alma voou ao céu a 22 de Novembro do ano 232, poucos meses antes da morte de São Urbano. A casa de Cecilia converteu-se realmente em capela, onde se vê ainda a estufa dentro da qual se queria sufocar esta santa virgem.

Martírio de São Urbano e de seus companheiros – Depois do martírio de Santa Cecilia, São Urbano voltou as catacumbas; mas tendo sido descoberto pelos perseguidores, foi conduzido também ao tribunal de Almáquio, juntamente com três diáconos e dois sacerdotes. Sendo vãos todos os esforços que aquele fez para convence-los a incensar Júpiter, ordenou que os metessem em um escuro calabouço. Tiraram-os dai quatro vezes para os levar ante o tribunal do prefeito, onde foram interrogados e atormentados. 0 carcereiro Anolino, comovido pela firmeza de Urbano em suportar os tormentos, converteu-se, recebeu o batismo das mãos de São Urbano e pouco depois cortaram-lhe a cabeça.

Cansado, Almáquio disse a Carpásio seu emissário:

“Conduzam estes pela última vez ao templo de Júpiter e se não oferecerem incenso, corte-se-lhes logo a cabeça.”

O mesmo quis acompanha-los com uma multidão de soldados. Os santos confessores, para manifestar a alegria que inundava seus corações, puseram-se a cantar:

“Ó Senhor! Temos sido inundados de consolação confessando publicamente vossa santa lei; nossos corações estão cheios de alegria qual não estariam gozando de todas as riquezas do mundo.”

Assim que Urbano viu a estátua de Júpiter, apoderou-se dele uma dor profunda, pelas abominações que diante dela se cometiam, e disse em voz alta: “Destrua-te o poder de nosso Deus”; e ao pronunciar estas palavras, caiu por terra a estátua, como ferida por um raio, e se reduziu a pó. Ao mesmo tempo caíram mortos os sacerdotes, que em número de vinte e dois, ministravam o fogo para o sacrifício.

Ao ver esse espetáculo, fugiram os soldados, e o próprio Almáquio espantado foi esconder-se em sua casa. Depois de algum tempo, ao considerar o fato, não sabia dar-se-lhe a razão de como sua ciência, com seu poder, com suas ameaças e suplícios não tinha podido induzir Urbano a que oferecesse incenso aos deuses. Para isso mandou-os trazer pela última vez ante seu tribunal e lhes disse:

– Ate quando abusarei de minha paciência, seguindo essa arte mágica? Acreditais talvez que ela sirva para vos livrar de minhas mãos?

Eles responderam-lhe: Sabemos que nosso Deus é poderoso. Se Ele quiser, pode livrar-nos de ti como livrou os meninos hebreus das mãos de Nabucodonosor e do fogo ardente. E se nos acha dignos d’Ele, e não quer nos livrar, garantimos-te que para nós será uma glória o dar a vida pelo nosso Criador; porém nunca obedeceremos as tuas ordens injustas.

Tendo perdido Almáquio toda esperança de os poder persuadir, mandou que os estendessem por’ terra e os açoitassem por muito tempo. Foi tão cruel este castigo que um dos diáconos morreu entre os tormentos. São Urbano os animava e exortava a que não se assustassem com as penas passageiras, pois ver-se-lam livres das penas do inferno que nunca acabam e ganhariam a glória eterna do céu. Vendo Almáquio que os açoites não produziam efeito algum, ordenou que os esfolassem com afiados garfos de ferros, de modo que suas cames caiam em pedaços. Entretanto os verdugos tiraram com tal furor do tribunal a dias depois Almáquio mandou levar Urbano e seu clero ao templo de Diana, para que fossem ali decapitados. Conhecendo que finalmente iam terminar seus sofrimentos, disse a seus companheiros:

– Coragem, meus filhos, o Senhor nos chama dizendo-nos: “Vinde a mim todos os que estais atribulados e oprimidos, que eu vos aliviarei.” Até agora nós o temos visto somente como num espelho, porém já estamos próximos de vê-lo face a face.

Ao chegar ao lugar do suplício, estando impacientes para sofrer o martírio, disseram todos a uma voz aos seus verdugos: “Fazei logo o que quiserdes.” O santo Pontífice deu-lhes a bênção apostólica, e depois de terem feito todos o sinal da cruz, ofereceram a Deus suas vidas rogando desta maneira:

“ó Senhor dignai-vos receber-nos segundo vossas promessas, para que possamos viver por Vós, e com vosso adjuntório possamos chegar à posse daquela glória que em vosso reino se goza por todos os séculos.”

Dizendo estas palavras, ajoelharam-se e lhes foi cortada a cabeça. Este fato teve lugar a 25 de Maio do ano 233.