Altar da Igreja de Santa Maria sopra Minerva

Altar da Igreja de Santa Maria sopra Minerva

Igreja de Santa Maria em além do Tevere

Três coisas especialmente fazem glorioso o pontificado de São Calixto, sucessor de São Zeferino: a basílica de Santa Maria, o cemitério chamado de São Calixto e seu martírio. Comecemos pela basílica Transtiberina.

Conta uma antiga tradição, que em uma parte de Roma no dia do nascimento do Salvador, brotou prodigiosamente uma fonte de azeite, que continuou saindo todo aquele dia. Os cristãos que conservavam viva a lembrança daquele prodígio, costumavam reunir-se ali para fazer suas práticas de piedade; porém alguns homens maus em seguida levantaram naquele lugar uma casa de dissolução. Abriram também algumas tavemas, e para chamar o povo exerciam ali toda sorte de especulações. Os pagãos faziam isto com tanto maior ousadia, por quanto os fiéis eram ainda o alvo dos insultos de todos. Porém tendo morrido a imperador Heliogábalo, por felicidade sucedeu­-lhe outro chamado Alexandre Severo que não os perseguiu, antes porém em princípio de seu reinado os favoreceu de diferentes modos. Amava sua religião; até mandou colocar uma imagem de Jesus Cristo em seu palácio, e alguns pensam que reconheceu e professou ocultamente a fé.

Os cristãos, depois de terem pedido repetidas vezes àqueles tabemeiros que não continuassem molestando-os, contando com o favor do imperador, apresentaram-lhe mais queixa: o mesmo fizeram os pagãos. Ambos os partidos pretendiam que o imperador decidisse a quem deles devia entregar aquele lugar: os cristãos na defesa de sua religião, e os tabemeiros em proveito de seus interesses.

O imperador ouviu com atenção uns e outros e depois perguntou:

“Que Deus é que ali se quer adorar?”

Responderam-lhe:

“é o Deus dos cristãos.”

O imperador tomou:

“é melhor que esse lugar seja destinado ao culto de qualquer Deus, do que ficar em mãos de tabemeiros.”

Por causa destas palavras os tabemeiros retiraram-se e deixaram livres os cristãos. Esta nova consolou muito a São Calixto, que para demonstrar sua gratidão para com Deus por tão grande benefício, animou os fiéis a levantar naquele mesmo lugar uma Igreja que foi a primeira que se construiu publicamente em Roma em honra da Bem-aventurada Virgem Maria: e para conservar a memória do milagre do azeite, quis que se dedicasse ao nascimento de Jesus para honrar assim o nome de Jesus, o qual, a semelhança do azeite, comunica suas graças e bênção aos nossos corações. Esta Igreja se considerou em seguida como uma das primeiras basílicas de Roma, próximo do altar mór ainda se vê um pequeno furo revestido de mármore, que mostra o lugar do prodígio. (V. Baronio ano 224 Boll. 14 de Outubro.)

Cemitérios e Túmulos

Cemitério
A memória dos mortos sempre foi considerada sagrada por todos os povos antigos e modernos, quer bárbaros quer civilizados. Esse afã em respeitar e fazer respeitar as cinzas dos defuntos nasce da convicção que todos temos de que depois da morte aguarda à alma uma eternidade feliz ou desgraçada, conforme seu mérito, tendo também o corpo de ressuscitar um dia, para voltar a reunir-se à alma para juntos gozarem ou padecerem eternamente.

Antigamente havia uma lei, entre os Romanos, que proibia sepultar os cadáveres dentro da cidade; por isso os sepultavam no campo e mata, às vezes depois de terem sido queimados ou reduzidos a cinza. Os cristãos, que sempre abominaram este desumano costume de queimar com fogo os corpos de seus semelhantes, especialmente se eram seus irmãos pelo batismo, prepararam lugares nos arredores da cidade, que se chamaram cemitérios, túmulos, catacumbas e criptas onde sepultavam os cadáveres dos fiéis.

A palavra cemitério deriva-se do grego e significa dormitório: com este nome os cristãos dão a conhecer de uma maneira muito sensível sua fé na ressurreição universal de todos os corpos, no fim do mundo, para ir gozar de uma nova vida. Por isso eles não consideravam os cadáveres sepultados em tais lugares como mortos para sempre, porém tão somente como dormindo, devendo despertar um dia, ao som da trombeta dos anjos. Quão doce, quão consoladora e sublime é esta palavra cemitério, nome que damos ao lugar onde se sepultam os que morrem na paz de Jesus Cristo! Só esta palavra basta para mostrar a diferença que há entre a Igreja do Salvador, na qual tudo é vida e esperança de vida, e o paganismo e o protestantismo nos quais tudo é morte. Com a palavra túmulo, tão frequentemente usada na antiguidade, costumavam-se indicar os lugares onde se colocavam os corpos dos mártires, para os quais se faziam escavações particulares.

Catacumbas e Criptas

Catacumbas de São Calixto

Catacumbas de São Calixto

Catacumba também é uma palavra grega que entre nós quer dizer perto dos subterrâneos, porque os sepulcros dos cristãos em alguns lugares, e especialmente em Roma, foram estabelecidos em caminhos feitos de baixo da terra com o fim de receberem os corpos dos fiéis. Como frequentemente se faziam estas escavações próximas de certos lugares donde se extraia uma qualidade de areia, chamada porcelana, que servia para a composição do cimento, às vezes as catacumbas e os cemitérios chamavam-se também arenários. As catacumbas, porém ainda que estivessem por baixo ou por cima das escavações, contudo eram coisas mui diversas. A catacumba chamada de São Calixto, tomou o nome deste Papa pelas muitas obras que nela fez executar.

Sobre uma lápide de mármore colocada na entrada deste cemitério lê-se o seguinte:

“este é o cemitério do inclito pontífice São Calixto Papa e mártir. Todo aquele que confessado e arrependido de seus pecados entrar nele obterá inteira remissão de seus pecados; e isto pelos méritos dos cento e setenta mil gloriosos mártires, e quarenta e seis Pontífices cujos corpos aqui em paz descansam. Eles, sofrendo grandes tribulações neste mundo, fizeram-se herdeiros da glória do Senhor, em cujo nome aceitaram a morte.” (Boll. do dia 14 Outubro.)

Nestes subterrâneos encontram-se aposentos aos quais se dá o nome de Criptas, outra palavra grega que significa escondidas. Esses eram os oratórios dos primeiros cristãos, quando, por causa das perseguições, não podiam-se reunir publicamente, e eram obrigados a esconder-se. Em certos dias e horas marcadas reuniam-se ali para assistir a santa Missa, ouvir a palavra de Deus, receber o sacramento da penitência, receber a sagrada Eucaristia e fazer as demais práticas religiosas. 0 santo sacrifício oferecia-se geralmente sobre o túmulo de um mártir que fazia pouca tempo tinha morrido pela fé.

Martírio de São Calixto

Durante o pontificado de São Calixto a Igreja não teve de sofrer nenhuma perseguição geral, porque imperador Alexandre Severo se mostrava benévolo para com os cristãos. Segundo parece venerava a Jesus Cristo, como digno de honras divinas, e conservava sua imagem em um pequeno templo que tinha em seu palácio, e teria feito edificar um templo público ao Deus dos cristãos, se os pagãos não lhe tivessem feito observar que assim fazendo, ficariam desertos os templos dos deuses. Não obstante achando-se ele fora de Roma, pereceram muitos cristãos, entre os quais se conta São Calixto vítima de uma insurreição popular. Posto em prisão, como chefe dos cristãos, foi açoitado com varas, quase até receber a morte; atiraram-no depois por uma janela e com uma pedra ao pescoço afundaram-no em um poço. Este martírio teve lugar pelo ano de 227. Próximo da basílica de Santa Maria em além do Tevere, acha-se ainda o poço em que atiraram o nosso santo (V. Artaud em S Cal.)

São Calixto I, Papa