São Vitor e Tertuliano

São Vitor I, Áfricano, sucedeu a São Eleutério no ano de 193. Em princípios de seu pontificado foi a Roma Tertuliano, homem de grande engenho, conhecido já pelos seus escritos cheios de profunda doutrina, benemérito da religião cristã por tê-la defendido vigorosamente contra os idólatras e os hereges, e por ter cientificamente exposto algumas de suas doutrinas. Porém quer porque São Vitor não lhe desse o bispado de Cartago, que segundo parece ele desejava, quer porque o mesmo romano pontífice condenasse, a heresia de Montano, para o qual ele já começava a inclinar-se, o certo é que saiu de Roma irritado, e voltando à sua pátria declarou-se abertamente contra a Igreja. Tremamos pela queda de Tertuliano, e nos persuadamos de que não é a ciência que faz os santos, porém sua humildade e submissão aos nossos legítimos superiores, especialmente ao vigário de Jesus Cristo. Achando-se Tertuliano despido destas duas virtudes, caiu em heresia e morreu, quanto é possível conjeturar, sem dar sinais de arrependimento.

Papa São Vitor I

Papa São Vitor I


Os dois Teódotos

Dois hereges, ambos chamados Teódoto, deram muito trabalho ao novo pontífice. Um deles se apelidava Teódoto. Nascera em Bizâncio, cidade que mais tarde chamou-se Constantinopla. Ainda que dedicado aos misteres de seu ofício, comerciante de peles, era, contudo, muito instruído nas Sagradas Escrituras. Tendo sido acusado como cristão na perseguição de Marco Aurélio, ofereceu-se denodadamente a sofrer o martírio; porém infelizmente não sentiu-se com ânimo bastante para sustentar com fatos o que afirmava com palavras, e negando sua fé, perdeu a coroa com que foram cingidos seus companheiros. Para fugir ao opróbrio em que tinha caído, foi a Roma, pensando que viveria ali desconhecido; porém o badão de sua ignomínia nunca abandono o culpado; reconhecido pelos romanos, todos fugiam e ninguém queria participar com ele nas coisas sagradas. Irritadíssimo por isto Teódoto, começou a pregar claramente o erro, ensinando que Jesus Cristo não era Deus, o que equivalia a negar o Evangelho e a todas as verdades. Uniu-se a este outro herege igualmente chamado Teódoto, ourives de profissão. Como é de supor-se, ó leitor, dois operários, peleiro um, e outro ourives, deviam ter poucos sectários! Porém não foi assim, porque a novidade, quando afaga as paixões, sempre atrai aos incautos e aos ignorantes; por isso foram muitos os sectários dos dois Teódotos, que se chamaram depois Teodocianos, devido ao nome de seus autores. São Vitor dirigiu suas solicitudes contra eles; condenou sua heresia, excomungou seus autores, e declarou que já não pertenciam à Igreja de Jesus Cristo todos os que seguissem os erros desses dois desgraçados.

Desta maneira a Igreja Católica triunfava da heresia e dava a conhecer ao mundo a verdade daquelas palavras que dirigiu Jesus Cristo a São Pedro, nele a todos seus sucessores: Roguei por ti, ó Pedro, para que não desfaleças na fé! (V. Eusébio, lib. 5).

Septimio Severo e a quinta perseguição

A perseguição de Septimio Severo, que é a quinta contra os cristãos, começou no ano de 202. Atribui-se sua origem ao terem os cristãos se recusado a tomar parte em certa festa dos deuses, pelo que os pagãos os acusaram ao imperador, dizendo-lhe que eram eles seus maiores inimigos. Este, demasiado crédulo em os escutar, ordenou que todos os cristãos deviam jurar pelo nome do imperador e oferecer-lhe honras divinas. Negando os cristãos a obedecer-lhe, foi declarada aberta a perseguição. Tertuliano afirma que as cruzes, o ferro e o fogo, a água fervendo, as espadas e as feras se achavam todos os dias em exercício contra os cristãos para fazê-los apostatar ou dar-lhes a morte, caso permanecessem firmes na fé.

Septímio Severo

Septímio Severo

Martírio de São Vitor, Irineu, Felicidade e Perpétua

No meio de tantos males, São Vitor trabalhou sem descanso, até que abatido pelas fadigas e pela idade depois de um pontificado de mais de dez anos, ganhou a palma do martírio no ano de 203 a 28 de julho.

A perseguição estendeu-se também nas Galias principalmente em Lion, onde São Irineu selou com seu sangue seu trabalhoso ministério. Sabendo o Imperador que a cidade permanecia firme na fé por obra de seu zeloso pastor, ordenou que fosse cercada de soldados e que se matassem os cidadãos. A matança foi geral, e uma inscrição antiga que ainda existe em Lion, nos diz que o número dos mártires subiu aos dezenove mil, sem contar as mulheres e as crianças. Não foi menos violenta a perseguição em Cartago, onde Santa Perpétua e Santa Felicidade, acompanhadas de um grande número de mártires, foram morrer com tanta alegria que só pode ser inspirada por aquele Deus por cujo amor davam sua vida.

Martírio de Santa Perpétua e Felicidade

Martírio de Santa Perpétua e Felicidade

São Zeferino e o herege Natal

São Zeferino, sucessor de São Vitor, teve o consolo de se conciliar com a Igreja o herege Natal. Este já tinha confessado valorosamente sua fé em presença dos juízes; porém posto em liberdade, deixou-se seduzir por uma soma considerável de dinheiro que lhe ofereceram os Teodocianos, dos quais se havia feito chefe. Porém Jesus Cristo para não permitir que já tinha confessado sua fé, apareceu-lhe repetidas vezes em sonho, repreendendo-o do seu enorme crime. Não fazendo Natal muito caso destas aparições, uma noite foi bruscamente açoitado por mão invisível. Este prodigioso castigo trocou-se para ele em medicina saudável, pois que na manhã seguinte se vestiu com um saco, cobriu a cabeça de cinza e foi ajoelhar-se aos pés do Papa, e derramando lágrimas confessou todos os seus pecados. Em seguida, abraçando os joelhos de quantos que se achavam presentes, clérigos e leigos, mostrou-lhes os sinais dos açoites com que tinha castigado e as cicatrizes das chagas recebidas por confessar o nome de Jesus, e pediu com grande humildade a clemência da Igreja e a misericórdia divina. Semelhante prodígio, que, que se tivesse tido lugar em Sodoma, disse Eusébio de Cesaréia, teria levado a fazer penitência todos os habitantes daquela infeliz cidade, comoveu todos os circunstantes. O Pontífice recebeu com carinho a Natal, absolveu-o da excomunhão e o admitiu novamente à comunhão dos fiéis.

Este fato nos demonstra claramente, como desde os primeiros tempos da Igreja se acreditou que aquele que apostatava caindo na heresia, se arrependia-se de sua falta e desejava entrar novamente para Igreja devia ir a Roma para reconciliar-se com o Chefe supremo da religião e receber a absolvição do delito. O Papa São Zeferino morreu pela fé no ano 220 depois de quase dezoito anos de glorioso pontificado.

Papa São Zeferino

Papa São Zeferino