Santo Eleutério e os mártires de Lion

Depois do martírio de São Sotero foi eleito para governar a Igreja São Eleutério de Nicópolis, cidade da Grécia. No princípio de seu pontificado, os cristãos de Lion que se achavam presos e carregados de cadeias por confessar sua fé, escreveram-lhe uma carta, e para que fosse mais aceita ao pontífice, enviaram-na por Santo Irineu, discípulo de Policarpo a quem este tinha enviado às Galias para que ajudasse São Fotino na pregação do Evangelho. O fim da carta era pedir ao Papa que se dignasse interpor seus bons ofícios para restituir a paz à Igreja, que então se achava dividida por Montano e seus sectários, dando assim conhecer que os cristãos de Lion reconheciam a eficácia da autoridade do Romano Pontífice sobre toda a Igreja. Nela também se recomendava São Irineu como um sacerdote adornado de preclaras virtudes pois assim dizia: “desejamos que tu, ó Padre Eleutério, sempre e em todas as coisas te portes bem no Senhor. Temos exortado o nosso colega e irmão Irineu para que te levasse esta carta, e te rogamos que nos permitas que to recomendemos como zelador da lei de Cristo. Se nós opinássemos que o grau augenta a santidade, to recomendaríamos como sacerdote da Igreja, pois que ocupa esse cargo”. (Euseb. H. Ecl., 5. c. 4).

Papa São Eleutério

Papa São Eleutério


São Irineu em Roma

A estada de Irineu em Roma não ficou sem resultado. Pouco tempo antes de sua chegada, o pontífice tinha deposto a dois sacerdotes da Igreja romana, chamados Blasto e Florino, por terem caído na heresia de Simão Mágico, que ensinava que Deus é autor do mal. Santo Irineu teve ocasião de falar com eles e empregou todos os meios que estavam ao seu alcance para trazê-los a melhores sentimentos. Escreveu mais tarde uma carta em forma de livro, na qual refutando seus erros, demonstrava que Deus, fonte de toda a santidade, não pode absolutamente ser autor do mal, conforme aquelas palavras da Escritura: “Não sois um Deus que ama a iniquidade”. (Salmo, 5).

À vista das recomendações e dos louvores que o clero e o povo de Lion faziam da santidade e zelo de Santo Irineu, o Sumo Pontífice o consagrou Bispo daquela cidade. Ali se ocupou com a maior solicitude, em difundir o Evangelho por palavra e por escrito. Um de seus escritos, intitulado “Contra as heresias” chegou até nós.

O Santo Bispo afirma nele a necessidade que temos de estar unidos com a Igreja Romana, se quisermos ser católicos; e diz ainda, que para saber a verdade, conviria recorrer às igrejas fundadas e governadas pelos Apóstolos; porém sendo muito árdua esta tarefa de consultá-las uma por uma, é suficiente recorrer por todas à Igreja maior, mais antiga, e mais conhecida no mundo, isto é, à igreja fundada em Roma pelos gloriosos Apóstolos São Pedro e São Paulo, pois conserva a tradição recebida de seus fundadores e tem chegado até nós por uma sucessão não interrompida. Com isso confundimos a todos que abraçam o erro por amor próprio, por vanglória, por cegueira ou por qualquer outra causa: é pois necessário que toda a Igreja, isto é, os fiéis de todos os lugares, se dirijam a esta igreja, pois que por motivo de sua principal preeminência, nela sempre conservou-se a tradição que deriva dos Apóstolos.

Santo Irineu, estátua no Vaticano

São Irineu, estátua no Vaticano


Fim de Marcião e de outros hereges

Marcião, como todos os outros chefes de heresias, era de uma conduta inexplicável. Tão pronto se arrependia de suas torpezas como se manchava com elas difundindo seus erros; por isso São Eleutério o expulsou definitivamente da comunidade dos fiéis. Passado algum tempo, fingiu novamente voltar ao seio da Igreja, e fez uma exomologese pública, isto é, uma confissão de seus crimes; porém em lugar de apresentar ao pontífice almas convertidas, julgou mais conveniente levar-lhe a soma de 25 mil francos, como um castigo e resgate de seus pecados, acreditando seduzi-lo e atraí-lo a seu partido; mas o santo pontífice, verdadeiro discípulo de São Pedro, recusou o dinheiro, e o rechaçou dizendo-lhe: “Eu quero almas e não riquezas“, e não levantou-lhe a excomunhão. A morte não tardou muito a arrebatar deste mundo a Marcião obrigando-o a apresentar-se perante o tribunal de Deus. A mesma excomunhão caiu também sobre Valentim e Cerdão que terminaram miseravelmente seus dias. Ainda estão em Roma os sectários de Montano, que na confiança de poder enganar o povo com excessos de penitência exterior, tinham introduzido a prática das três quaresmas, juntando-lhes fins supersticiosos. Santo Eleutério, para ter de sobreaviso os fiéis, confirmou a condenação que tinha pronunciado Santo Anacleto contra eles e definiu que todos os alimentos, em si, eram lícitos, porque todos foram criados por Deus em benefício do homem. Esse decreto em forma de carta, se dirigia especialmente aos fiéis da Galia que mandaram a Roma Santo Irineu para consultar sobre as citadas sobreditas dúvidas. (Barc. sec. 2).

Marcião de Sínope, pai da heresia chamada Marcionismo

Marcião de Sínope, pai da heresia chamada Marcionismo


Conversão dos Bretões ao cristianismo

Durante o pontificado de Santo Eleutério, no reinado de Cômodo, a Igreja de Jesus Cristo gozou de suficiente paz. Este imperador, ainda que inimigo dos cristãos, ocupou-se de outros assuntos relativos a seus estados, sem imiscuir-se na religião; por isso a fé cristã pode dilatar-se e levar seu influxo benéfico até os mais longínquos países.

A ilha da Grã-Bretanha (que como veremos, chamou-se depois Inglaterra), recebeu neste tempo o Evangelho. Acredita-se que os primeiros germens do cristianismo foram levados à aqueles habitantes por José de Arimatéia que para ali fora com o fim de pregar com alguns companheiros; porém as superstições pagãs e as longas guerras os sufocaram de tal modo que quase não deixaram fruto algum. Existiu porém, neste tempo um rei daquela nação chamado Lúcio, que tinha sido deixado ali pelos romanos como príncipe tributário, e que resolveu-se fazer-se cristão, admirado da santidade de alguns cristãos que foram àqueles países, e recordando o que seus antecessores haviam dito, ou quiçá deixado escrito sobre a religião católica.

Neste objetivo mandou ao Papa Santo Eleutério dois embaixadores com uma carta, em que pedia-lhe mandasse alguns missionários, para que pregassem o Santo Evangelho a seu povo. O Sumo Pontífice recebeu com bondade os embaixadores, e correspondeu aos desejos do rei enviando-lhe como apóstolos os sacerdotes Fugácio e Damião.

Lúcio os recebeu com transportes de alegria; instruíram-no estes na fé conjuntamente com a rainha, a família real e muitos do povo, e deram-lhes o batismo, estabelecendo assim o cristianismo naquela ilha. (V. Gildas e o veneravel Beda, hist. C. 1)

Não sobreviveu muito Santo Eleutério à conversão dos Bretões. Consumido pela idade, e pelos sofrimentos anexos a seu ministério, foi gozar da verdadeira felicidade no ano 193 depois de um pontificado de mais de quinze anos.