Meditação para o Dia 27 de Março

Para a contemplação, exige Deus uma grande pureza de coração, um desapego total das criaturas e de nós mesmos. Ora, até as almas adiantadas na perfeição estão sujeitas a imperfeições e sentem renascer, embora atenuadas, as misérias dos vícios capitais. A fim de preparar essas almas fiéis e generosas ao mais alto grau de contemplação, Deus lhes envia provas, chamadas passivas, porque é Ele quem as produz, não tendo a alma senão que as aceitar pacientemente. Ninguém descreve melhor essas provações do que São João da Cruz, na sua “Noite Obscura”. Chama-se noite essa prova, porque a alma fica como que em trevas, sem poder discorrer ou meditar, e a luz da contemplação que recebe é tão fraca que dá a impressão de uma noite escura. O Santo distingue duas noites. A primeira nos desapega de todas as coisas sensíveis. Tira-nos a parte sensível da piedade. Deixa-nos num deserto de aridez, onde caminhamos penosamente, sob a ardência do sol de mil provações. É a noite dos sentidos. Desapega-nos do que é sensível. A segunda tira-nos até as consolações espirituais. É o entendimento nas trevas, a vontade na aridez, a memória sem lembranças, e as afeições perdidas na dor e na angústia. Ninguém pode fazer ideia desse martírio sem o experimentar. Que fazer? Contra ele só há estes remédios: a confiança, o abandono e coragem! Deus vos prepara grandes coisas! Amar a Deus na contemplação é ser milionário da graça. Consolai-vos, pobres almas. Dizei, como Santa Teresinha:

Pouco importa que não sinta o meu amor, contanto que seja sensível a Jesus!

Nas trevas dessas noites, fechai os olhos, deixai que ruja a tempestade. Confiança! Confiança! Abandono!

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(Brandão, Ascânio. Breviário da Confiança: Pensamentos para cada dia do ano. Oficinas Gráficas “Ave-Maria”, 1936, p. 98)